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Image by Melanie Weidmann

        Uma breve biografia.  Nem tão breve, pensando bem.

        Eu, pequenininha, era muito fofa, boazinha, delicada e sentimental, mas sofri tanto bullying a partir de certa fase da infância que até o meu marido, por exemplo, custa a acreditar que a minha filha possa ter puxado essas características a mim (dele é que não vieram): o miserável do bullying erradicou a fofura que em mim habitava, irremediavelmente.

       Isso tudo aconteceu em um tempo em que não existia nem o nome, nem o conceito (e esse pessoal que gosta de rotular o sofrimento dos outros de “mimimi” deveria sentir na pele para saber como é); mas, enfim, o ditado “o que não mata, engorda” é meio bruto e ofensivo, mas real: evidentemente eu não morri, mas minhas outras “qualidades” pouquíssimo fofas afloraram com tudo quando eu cansei de levar e resolvi revidar. 

        Meu lema virou “bateu, levou, e, se possível, com muito mais força e potência, que é para só sobrar terra arrasada”.   Pois é.

          Eu cresci com baixíssima autoestima, e a única coisa positiva da qual eu tinha certeza absoluta sobre mim era a minha inteligência, o que também não me ajudava muito na popularidade.  Sorte que eu sempre  soube valorizá-la,  e a utilizar a meu favor.

Sobre mim
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         Juntando-se ao bullying incansável e às subsequentes brigas com meio mundo depois que eu passei a revidar, os meus pais também deviam considerar que sair de casa para me divertir com amigos era risco de vida (eu tinha amigos também, para ser justa e não parecer uma personagem clichê de romance ruim). A  certa altura, suspeito fortemente que se somou a isso o receio da perda da minha virtude (ouvi muito “homem só se casa com mulher virgem”), de forma que, até eu me libertar espetacularmente na faculdade, minha vida era da escola para casa, da casa para a escola, com visitas frequentes aos avós pelo meio. 

        Importante frisar que eu não reclamo de visitar meus avós, já que as minhas melhores lembranças da infância vieram deles: eu reclamo é de não fazer absolutamente mais nada além disso.

        Ops, esqueci: também assumi, após os dez anos de idade, diversas tarefas domésticas para ajudar a minha mãe, aficionada pela limpeza cirúrgica até de cantos virtuais, enquanto o meu irmão percorria de Caloi 10 o nosso bairro e adjacências pelas tardes inteiras.  Sim, até hoje existem diferenças entre como somos tratados, mas vamos deixar isso para lá também: anos batendo e levando, além de bastante terapia, tem que ter servido para alguma coisa (o excesso de faxinas, pelo menos, me ensinou a viver NA casa, não para ela).

        OS LIVROS ME SALVARAM.  =)

        Li o primeiro com sete anos de idade, emprestado por uma amiguinha na sala de aula: foi "Soprinho", e foi paixão avassaladora. Contei para o meu pai, e aí começou a parte realmente boa daquela fase da minha vida.  Ganhava livros, pegava emprestado, comprava economizando troquinhos, e lia e relia sem parar em qualquer intervalo que surgisse; lia pelas madrugadas adentro, no banheiro, na rua, almoçando, jantando, no recreio, no carro. Lia, lia, lia.  Pedia livros de presente de Natal, Dia das Crianças, aniversário, até na Páscoa.  Cheguei a ler "O Pequeno Príncipe" que um primo ganhou de presente na sua festa de aniversário enquanto todas as outras ciranças brincavam. 

        Não adiantava falar comigo se eu estivesse lendo, e sou assim até hoje.  Se me cai nas mãos um livro bom, me acomete uma surdez súbita e uma cegueira seletiva que só passam quando o livro acaba ou sou cutucada vigorosamente, mas sempre é bom tomar cuidado, porque eu ainda revido cutucão.

        É bem possível que, um dia, eu conte a minha história em forma de romance, mas de uma forma bem mais divertida que a desta minha historinha: eu não sou assim tão mal humorada e tão ressentida (só um pouco, vá lá), mas é que não tem como eu dissociar os livros dessa fase complicada que eu vivi lá no começo, e que me tornou quem eu sou hoje.

        Quem lê um livro nunca mais será a mesma pessoa, porque até livro ruim vai ensinar alguma coisa, nem que seja pelo exemplo negativo.  

        Devagar eu fui ampliando perspectivas, fui me reconhecendo, aprendendo a me dar o devido valor, e hoje sou muito feliz com a minha filha linda e o meu marido (meus dois amores e a minha prioridade), além dos meus livros, meus gatos, minhas plantas, minha casa e a minha profissão.

        Importante frisar que eu não acho que eu seja nada demais só porque eu gosto de estudar e acumulei conhecimento: apesar do relato inicial pouco feliz, eu acredito plenamente que tive muita sorte por nascer em uma família que me proporcionou amor, genética, condições sociais, saúde e estímulo para desenvolver ao máximo as minhas potencialidades.  E claro que eu fui amada do jeito que a minha família sabe amar, portanto, me considero uma felizarda.

        Sou pediatra e estudei Direito, então aliei os dois diplomas e fiz uma espécie de transição de carreira: passei a trabalhar administrativamente, porque descobri, apesar de ser médica, que as pessoas me consomem demais, e eu fico melhor no silêncio.  Fiz Pediatria por causa das crianças, mas criança sempre vem com adultos, e, como eu fui de Pronto Socorro a vida toda, uma hora cansei. 

        Se eu pudesse voltar aos dezessete anos, faria só Direito e seria juíza, porque julgar envolve, em grande parte, ler, aplicar conhecimento e deliberar, sempre com bom senso e ética (eu prezo muito essas duas qualidades), mas não reclamo: a Medicina é linda, me deu amigos maravilhosos, eu sei cuidar da saúde de quem eu amo, e, no frigir dos ovos, a minha é uma carreira feliz.

        Por fim: outra grande paixão sempre foi escrever, e, depois de ler inúmeras obras de fantasia envolvendo magia, especialmente Harry Potter (grande fã!), resolvi escrever um livro que elucidasse de onde vem ela, presente em tantos livros, mas pouco explicada. 

        Juntei várias ideias e conceitos, e surgiu meu “Indivisível”.  Se for lido e apreciado, estou muito feliz, porque pretendo escrever até a idade provecta me levar os neurônios embora, ou a vida mesmo.  Obrigada!  =)

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