CAPÍTULO 08 - Desmaios e reconciliações
- 31 de mai.
- 14 min de leitura
Tiago acordou sentindo muita dor no cotovelo direito, e tentava abrir os olhos enquanto um homem discutia com Maria Lúcia.
-Que loucura foi essa de contar e mostrar tanta coisa para eles sem ter o mínimo cuidado? Eles são praticamente crianças e não tem a menor noção do que são capazes!
- Em primeiro lugar, lembre-se de com quem você está falando. – Era a voz fria de Maria Lúcia respondendo.
A voz do homem soou mais respeitosa.
- Desculpe, mas justamente por ser você eu me admirei. Veja o que quase aconteceu ainda agora. E Gabriel, o que pode ter acontecido com ele também?
- Mas é claro que seu problema seria esse.
- Por favor, não seja injusta e nem me subestime. Eu me importo com todos eles.
Depois de uma pequena pausa, Maria Lúcia continuou falando.
- Ontem nós conversamos e não aconteceu nada, mas hoje... Eu acho que Maria Carolina está começando a se lembrar sozinha. Ela sempre foi muito dramática, e deu nisso.
Ao ouvir o nome de Carol, Tiago se lembrou do que tinha acontecido e despertou completamente.
- CAROL! – abriu os olhos, e tentou se levantar, apoiando justamente o cotovelo dolorido no chão. A tontura e a dor o fizeram cair outra vez. – CADÊ A CAROL?
- Ela está bem, está deitada aqui no sofá, veja. – Maria Lúcia respondeu ao mesmo tempo em que o desconhecido se agachava ao seu lado e examinava sua nuca com os dedos.
- Você bateu a cabeça quando caiu?
- Não sei, acho que não, o que está doendo é o meu cotovelo, mas por que a gente desmaiou, e por que ela não acordou ainda? – ele se lembrou do que tinha acontecido durante o beijo, de ver todas aquelas pessoas se dando muito, muito mal, e da sensação de que ele tinha sido o cara em todas as vezes, morrendo ou desesperado. E também tinha certeza de que a outra pessoa daquela lembrança era Carol, que se dava tão mal quanto ele em afogamentos, acidentes, doenças, tiros e outras situações horríveis.
Tentou se levantar novamente, e o homem tentou impedi-lo.
- Espere um pouco, você vai acabar caindo e se machucando mais.
Deu um safanão na mão do homem e conseguiu se sentar no chão, de onde pode ver Carol deitada no sofá, bastante pálida, mas pelo menos respirava normalmente, e não estava mais roxa. Logo depois ela acordou.
- Tiago? Que foi que aconteceu?
- Eu não sei bem, mas morri de medo de acontecer de novo.
Ele viu nitidamente o terror aparecendo nos olhos dela, sabendo que ele se referia ao que, ele tinha certeza, ambos tinham visto e sentido antes de caírem; Carol estendeu os braços e o puxou contra si, chorando, e ele percebeu que também chorava desde o momento em que a viu desmaiada no sofá.
A situação seria ridícula de tão melodramática se os dois não estivessem praticamente uivando desesperados.
Isabela os tirou daquela histeria.
- Agora chega, não aconteceu nada, vocês só perderam o fôlego e passaram mal. Vamos, se acalmem e se soltem. Respirem um pouco.
Tiago percebeu que ela estava fazendo a mesma coisa do dia anterior, porque ela mal tinha terminado de falar e ele já se sentia mais calmo, a vontade de chorar desaparecendo, mas não soltou Carol, nem ela a ele.
O estranho estava outra vez irritado.
- Você tem alguma ideia do que eles podem ter visto, ou sentido? Se por absoluto acaso eu não tivesse chegado, a esta hora eles poderiam estar mortos na varanda, e você só ia achar os dois quando fosse tarde demais!
Maria Lúcia, apesar do tom autoritário, estava pálida, mas não deu o braço a torcer.
- Vamos deixar que eles se recuperem, depois vamos todos conversar e garantir que nada desse tipo aconteça mais.
O homem parecia ainda querer discutir, mas acabou passando as mãos pelos cabelos, calando-se.
Tiago finalmente estava calmo o suficiente para prestar atenção ao homem, e ele era muito impressionante.
Não era alto ou forte; na verdade era bastante magro, talvez até ligeiramente desnutrido, mas os cabelos eram fartos e muito escuros. Tinha barba espessa, nariz aquilino, sobrancelhas cerradas, lábios grossos: parecia indiano, mas os olhos destoavam completamente, porque eram muito azuis, muito claros, quase transparentes, do mesmo jeito que os olhos daquele cara novo da escola, o que era muito estranho. E havia mais alguma coisa que impressionava, mas que Tiago não conseguia definir: percebeu que estava encarando o homem fixamente, atrapalhou-se, e perguntou qualquer coisa para disfarçar.
- Quem é você?
- Meu nome é Pedro. Sou amigo de Maria Lúcia. Posso ver seu cotovelo?
- Você é médico?
Ele apenas sorriu e puxou seu braço, examinando e passando os dedos por todo ele. Deteve-se no cotovelo já inchado, que começou a formigar e esquentar. Quando o largou, ele não sentia mais dor, e seu cotovelo tinha voltado ao normal.
- O que você fez?
O homem deu de ombros.
- Nada demais. E agora me digam, o que vocês dois estavam fazendo quando desmaiaram?
Tiago não saberia explicar.
- Carol, você sabe o que foi aquilo?
Ela titubeou para responder.
- Eu... Eu acho que eu, sem querer... - ela hesitava. - Tiago, você viu tudo o que eu também vi?
- O que você viu?
- Eu vi sempre a mesma coisa, um moço e uma moça apaixonados, então um morria de repente, o outro ficava arrasado, mas ao mesmo tempo era eu, e, e... Eu acho que era... Era...
Ele completou a frase por ela.
- Era eu também.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, depois continuou.
- E no final o que era aquilo que a gente estava fazendo?
Ele disse o que o estava apavorando mais.
- Eu acho, bom, eu acho que a gente, desta vez, estava tentando se antecipar e morrer ao mesmo tempo, para não deixar ninguém sozinho e arrasado de novo.
***
Gabriel não se lembrava de já ter se sentido daquele jeito.
Estavam os dois deitados e nus na cama dele, olhando para o teto, só se tocando com as pontas dos dedos por baixo da coberta que ele tinha acabado de puxar porque fazia muito frio.
Ele não tinha muita certeza do que estava sentindo, mas era muito diferente daquela tristeza que o assombrava desde aquela tarde medonha de anos atrás. Para dizer a verdade, também estava um pouco envergonhado, e nem sabia mais se eles ainda eram amigos, mas achava que não.
Uma coisa era ter sonhado com um beijo por quase três anos, e outra muito diferente era ter acontecido tudo daquele jeito, logo depois de ter passado a noite inteira sonhando com ele, achando que nunca mais ia ver o cara.
Aliás, também não conseguia mais pensar nele como um “cara”.
Mas também não sabia o que pensar. Era coisa demais.
- Gabs.
Ouvir Miguel falar seu nome daquele jeito...
- Hum.
- Você já tinha transado com alguém antes?
Essa era uma pergunta bastante capciosa.
- Depende.
- Transar é transar, cara. Responde.
Miguel foi áspero ao responder, e se ainda achava que ele era um “cara”, ia ter a resposta de um.
- Transei, algumas vezes. – de repente teve vontade de dar detalhes. - A primeira vez foi com uma gostosa que estava muito louca em uma festa e me arrastou para um banheiro lá mesmo. Depois dessa, algumas outras vezes, sim.
Miguel ficou tenso, deu para sentir pelos seus dedos, e afastou a mão, brusco. Gabriel não estava entendendo aquela reação. Eles ficaram sem se ver todo aquele tempo: ele esperava o quê, que ele não ficasse com mais ninguém depois de ter sido largado sem nem uma palavra de despedida?
E por que tinha perguntado, se não aguentava a resposta?
Devolveu a pergunta.
- E você?
- Claro que não. Alguma vez foi com algum cara?
- Transar, não.
- Então você já beijou outros caras antes?
Gabriel virou-se de repente, a raiva finalmente levando a melhor, e ficou por cima de Miguel, apoiando os cotovelos ao lado do corpo dele, o prendendo com o próprio corpo.
- Quando você sumiu, eu fiquei sem chão, CARA, – enfatizou bem o “cara”, - me sentindo abandonado, humilhado, traído, desamparado, desiludido, rejeitado, confuso, perdido, tudo isso ao mesmo tempo, porra. E eu nem sabia mais do que eu gostava de verdade. Mas, se você achou que eu ia ficar chorando amargurado, então você realmente não me conhece.
Miguel só ficou olhando para ele, pálido, a expressão indecifrável.
- Antes daquilo eu estava feliz, achando que era só um garoto pegador e normal que ia terminar o colégio, depois a faculdade, que um dia ia encontrar alguma garota legal e me apaixonar, casar, ter filhos, trabalhar, viver uma vida bem parecida com a dos meus pais, fazer churrasco de domingo no quintal, e você ia aparecer com a sua mulher e os seus filhos, e a gente ia ficar velho e barrigudo juntos. Você era o meu melhor amigo, era meu irmão. Você tem ideia da confusão que a minha cabeça virou depois daquilo?
Miguel continuou calado, então continuou.
-Um dia, eu fui pra uma festa, uma porra de uma rave, quase todo mundo chapado, mulher pegando mulher, homem pegando homem, aí um cara muito gostoso, – sentiu um prazer perverso em ver o brilho de raiva nos olhos dele, - é, isso aí, um puta de um gostoso veio me dar mole, e eu fiquei com o cara lá, na frente de todo mundo, porque eu precisava saber quem eu era!
- Eu já expliquei o que aconteceu. – ele disso isso muito friamente.
- Explicou depois de quase três anos, caralho! Eu achei que você só tinha brincado comigo, e que aquilo não tinha tido nenhuma importância para você, que você tinha se arrependido e queria se afastar de mim porque estava com vergonha de ser gay, ou sei lá que merda que você achava que a gente fosse! Você me largou sozinho e afogado em uma tonelada de bosta, cara! E agora você acha que tem o direito de me cobrar pelo que eu fiz durante esse tempo todo para tentar manter a sanidade?
- Sai de cima de mim.
- Vai se foder, não era isso que você estava gemendo e me pedindo agora há pouco.
- Seu filho de uma puta. – ele disse isso muito baixo, estava muito pálido, e então o empurrou, e Gabriel se desequilibrou e caiu da cama todo enrolado no edredom. Miguel pulou em cima dele, tentou enfiar porrada, ele desviou, os dois de alguma forma conseguiram se levantar, e então quem empurrou foi ele, Miguel trombou na escrivaninha, era papel, livro e caneta para todo lado, e de repente os dois estavam em pé, pelados, se encarando, respirando rápido, e pareciam prestes a partir um para cima do outro e se matar.
- Seu filho de uma puta, você tem ideia do que eu passei vendo o meu pai morrer devagar, querendo te procurar, mas preso naquela merda de situação? Você tem ideia do que foi ouvir o meu pai pedindo para eu nunca mais te ver, lá, quase morto, e eu dizer não, porque você era mais importante, seu cretino imbecil?
- Eu também fiquei sem pai, porra, e foi naquele dia mesmo, não foi ontem, porque o meu pai não queria ter um filho veado! E você pelo menos sabia o que estava acontecendo, mas eu fiquei lá, sem entender nada e sem saber o que eu era!
- Eu nunca mais consegui olhar para ninguém, eu só conseguia pensar em você, e você me diz com essa facilidade que primeiro pegou uma “gostosa”, a primeira de várias, e que beijou outro “gostoso” no meio de alguma orgia, como se a gente tivesse de novo quatorze anos e estivesse na porra do seu quintal! O que você quer, provar que você pega qualquer um, me fazer sentir ciúmes, me punir, é isso?
-Eu quero isso tudo mesmo, eu quero que você sinta a mesma amargura que eu senti por você não ter sido o primeiro beijo e a primeira transa, seu bosta! Eu transei com aquela garota pensando em você, de olhos fechados fingindo que era você, e saí daquela rave me sentindo um merda depois de beijar aquele cara, eu nem sabia o nome dele, eu me senti um lixo porque aquele beijo tinha que ter acontecido com você naquele dia maldito, não no meio daquela putaria!
-Putaria? Você sabe o que é putaria? É eu estar morrendo de remorso porque o meu pai morreu e eu ter sentido alívio, porque eu podia... – interrompeu o que ia dizendo, soluçou alto, continuou. - Porque eu podia finalmente vir atrás de você! Você não sabe quantas vezes eu desejei que ele morresse e eu ficasse livre!!
- EU NÃO SABIA DE NADA DISSO!
- EU ACABEI DE TRANSAR COM VOCÊ E NEM FAZ UMA SEMANA QUE EU ENTERREI O MEU PAI!!
E ficaram os dois lá, se encarando, ofegantes, até que Miguel murchou: meio sentou, meio caiu no chão, com a cabeça no meio das pernas, e começou a chorar desamparado.
Toda aquela tristeza fez Gabriel cair em si: ele tinha ido procurar por ele depois de enterrar o pai. Tinha largado a mãe de luto por causa dele, e assim mesmo ele queria castigar o cara.
Não, o cara não: Miguel era seu grande amor, estava claro agora que era isso o que ele era, mas Gabriel quis castigá-lo porque as suas primeiras vezes tinham sido com outras pessoas e não com ele. E também percebeu que, apesar de tudo isso, tinha acabado de arruinar a primeira vez deles por um impulso perverso e sem sentido; envergonhado, sentou-se com ele no chão.
- Desculpa, Miguel.
Ele chorou mais um pouco, foi se acalmando, olhou para ele.
- Eu tinha esquecido o quanto você consegue ser cruel.
- Eu sei.
- Que tipo de pessoa você acha que eu estou me sentindo depois de tudo isso?
Gabriel pensou na melhor forma de responder, e tentou soar meio fofo, falhando completamente.
- Eu acho que você deveria se sentir o tipo de pessoa que um cara cruel como eu ama pra valer.
Ficou esperando que ele dissesse que também o amava, e então tudo ia ficar bem, mas ele só ficou lá, olhando, sem se abalar, até que se levantou e começou a vestir-se.
- Eu vou embora, estou muito cansado, preciso dormir.
- Por favor, não vai.
Ele não respondeu, continuou vestindo as roupas, então Gabriel se ergueu também.
- Você tem toda a razão, eu sou um bosta, e eu sei que eu estraguei tudo. Mas, por favor, fica aqui comigo. – caminhou até ele, tentando segurar sua mão, que ele tirou com um pouco menos de raiva.
Lembrou-se de quando os dois eram crianças e ele dizia que não ia mais brincar porque estava perdendo em algum jogo, e Miguel ficava insistindo, e ele sempre era malvado porque seu amigo sempre era legal tentando convencê-lo a continuar a brincar, e ficava mais malvado ainda se ele o deixasse ganhar de propósito só para continuar a brincadeira. Aí, Gabriel falava alguma coisa bem ruim, ou o empurrava, e só parava quando via que o seu amigo estava magoado de verdade e resolvia ir embora. Então, invariavelmente se arrependia e corria atrás dele, que sempre acabava desculpando e esquecendo, até a próxima vez em que Gabriel resolvesse ser ruim de novo.
Pelo visto, continuava o mesmo, e sabia que Miguel também; sabia que desta vez ia dar um jeito como sempre dava, mas prometeu para si que nunca mais ia fazer Miguel sofrer. Nunca mais.
- Me perdoa, vai. Por favor. Eu não consigo ficar sem você outra vez.
Miguel olhou para ele: era assim que começava.
- Eu te amo, cara.
- Você não gostou quando eu te chamei de cara. - ele respondeu: meio caminho andado.
- Não gostei porque eu percebi que você estava puto comigo, e eu não sei o que me deu, acabei pondo para fora toda a raiva que eu tinha sentido de você esse tempo todo. Mas passou. Fica, Miguel. Por favor. Eu tinha sonhado com você a noite inteira, acordei me sentindo uma merda, pensando se um dia eu ia te ver outra vez, se algum dia eu ia conseguir amar outra pessoa, e então você apareceu, e foi demais pra mim, eu não consegui lidar direito. Me perdoa. – foi se aproximando enquanto falava, Miguel não se afastou, então pôs uma mão na nuca dele, depois a outra colocou nas costas, e o puxou para um abraço, sem beijo; só um abraço.
Ficaram assim até que começou a sentir muito frio e tremer, porque ainda estava pelado.
- Põe uma roupa, você está tremendo. – Miguel disse isso o apertando ainda mais, como se assim pudesse aquecê-lo.
Gabriel olhou para ele, e morreu de vontade de beijá-lo, mas se segurou. Ainda não era hora.
Estava terminando de se vestir, Miguel recolhendo toda aquela bagunça do chão, quando seu celular tocou; não deu bola.
- Não vai atender?
- Hoje eu só quero falar com você.
O telefone parou de tocar, em seguida recomeçou.
- Atende, Gabriel. Eu estou meio traumatizado com telefone por causa do meu pai, sempre que a minha mãe me chamava tinha acontecido alguma coisa com ele.
Gabriel pegou o celular, era o número da Carol.
- Oi, princesa.
- Gabriel, sou eu, Maria Lúcia. Eu preciso que você venha aqui para casa.
- Maria Lúcia? O que aconteceu?
- Nada de grave, mas a gente precisa antecipar aquela conversa. Tiago já está aqui, e Pedro também.
- Por mim, tudo bem, mas é que eu estou com uma pessoa aqui comigo.
- Quem é?
Ele olhou bem nos olhos do Miguel, e respondeu.
- É o meu namorado.
Maria Lúcia ficou em silêncio por alguns segundos, e ele até se esqueceu que estava com ela ao telefone, porque Miguel tinha aberto um sorriso enorme, e, quando ia pular em cima dele, Maria Lúcia acabou respondendo.
-Tudo bem, pode trazer com você. Se for quem eu estou pensando, ele também tem que estar aqui.
***
Miguel não gostou de ver Gabriel chamando aquela Maria Lúcia de “princesa”, mas a conversa parecia séria, então ficou na dele, até que ele o chamou de namorado, o que foi ótimo.
Ele sabia que Gabriel tinha beijado outras garotas, um tinha visto o outro beijando na escola uma porrada de vezes. Queria que tivesse sido só isso, mas era ingenuidade achar que ele ficaria sofrendo até agora sem fazer mais nada.
Quando eles estavam na cama, Miguel estava tentando não pensar em seu pai, e em tudo que... Em tudo. Também não queria se lembrar de sua mãe quando ele comunicou que não ia viajar com ela, que o olhou como se não estivesse acreditando.
- Você não vai nem esperar seu pai esfriar no caixão para correr atrás do Gabriel?
Ele não falou nada, só a abraçou; despediram-se e foi cada um para seu lado.
Estava se sentindo absurdamente feliz e tremendamente arrasado ao mesmo tempo, e eram sensações demais; acabou fazendo aquelas perguntas sem pensar direito. Só queria ocupar a cabeça e afastar o remorso.
E então Gabriel respondeu daquele jeito, e de repente ele estava morrendo de raiva e ciúmes, sentiu vergonha, se sentiu usado e humilhado, e quando viu estavam se socando.
Depois, foi igual a todas as brigas deles: ele ficou triste primeiro, Gabriel se arrependeu, ele não queria desculpar, mas acabou cedendo. Aquilo era preocupantemente doentio, ele sabia, mas era irresistível. Gabriel era um vício incurável, e não havia nada que ele pudesse fazer.
Quando ele desligou o telefone e veio para cima dele com tudo, Miguel o segurou com força pelos braços e afastou a boca dele da sua. Aquele olhar dele, nublado de desejo, despertou a vontade de agora fazer as coisas do seu jeito. Queria fazer Gabriel pedir também, e gemendo com vontade.
Ele também podia ser cruel.
- Então eu agora sou seu namorado? - ele disse aquilo bem perto da boca dele, só roçando os lábios de leve, bem devagar, segurando seus braços de um jeito bruto, apertando um pouco para doer de leve.
- É. – ele ia fazer Gabriel se sentir um garoto outra vez, aquele garoto que ele tinha guiado devagar naquela tarde, de forma improvisada mas exatamente para onde ele queria.
Hoje ele ia terminar o que tinha começado naquela tarde.
Gabriel tentou se soltar, mas Miguel não deixou e o segurou mais forte.
- E você transou com aquela garota pensando em mim, foi?
De repente ele estava derretendo nas mãos dele, e Miguel apertou mais. Gabriel gemeu, de olhos fechados.
- Foi.
- Abre os olhos e olha pra mim.
Ele obedeceu.
- E o gostoso que você beijou lá, na frente de todo mundo, te beijou desse jeito?
Tomou a boca dele rápido e bem forte, enfiando a língua com tudo, empurrando a cabeça dele bem para trás, dando uma mordida no final para doer.
- Não.
- O que você quer ouvir da minha boca, hein, Gabriel?
E foi passando os lábios devagar, lambendo onde tinha acabado de morder.
Ele não respondia, então ele afastou a boca, apertou ainda mais os braços dele. Ia deixar marcas nele hoje.
- Responde o que eu perguntei.
- Eu quero que você diga que você me ama tanto quanto eu te amo.
- Não sei se você merece. – falou isso de um jeito bruto, dando outro tranco nele, ainda o segurando firme pelos braços, e em seguida o beijou outra vez.
Quando se afastou, ele respondeu.
- Não mereço, mas fala.
Gabriel o beijou de volta, pedindo baixinho que ele falasse, e ele não aguentou mais.
- Eu amo você mais do que a mim mesmo, e mais do que você me ama.
Depois, eles se esqueceram de tudo, e só saíram para a casa daquela tal Maria Lúcia atrasados, bem mais tarde.
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