Prólogo
- 13 de jun.
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PRÓLOGO: TUDO e NADA
...nada
Nada
Nada
Nada.
Nada…
Nada?
Nada…
Nada,
Ou Tudo?...
Tudo.
Tudo.
Tudo…
Tudo…
Tudo!
Tudo!!
Tudo!!!!!!
TUDO !!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Outra vez.
***
Houve uma vez uma espiral que não tinha começo nem fim, e ficava no meio do Nada.
Indo e voltando sem parar por ela estava Tudo, que se expandia e retraia-se enquanto corria pela espiral, no começo imenso, no final absolutamente apertado e comprimido, tão pequeno e tão apertado que, se conseguisse comprimir-se apenas mais uma mínima, infinitesimal, quase inexistente fração, talvez desaparecesse dali, e quem sabe aonde iria parar.
Tudo ficava naquela dança interminável, e sequer se lembrava de quando teria começado. Às vezes contemplava o Nada ao seu redor, e, infeliz, pensava que gostaria de parar aquele vai e vem e ficar quieto como ele, mas não sabia como parar.
E Nada era nada, ou não era, mas ouvia Tudo e suas lamúrias ecoando onde só deveria haver silêncio. Nada odiava Tudo: seu único desejo era que Tudo desaparecesse ou virasse nada também, quando seria enfim capaz de esquecer-se de si mesmo, e aí sua paz seria completa.
Mas como Nada poderia fazer alguma coisa para acabar com Tudo, se era nada, ou não era?
***
Certa feita, Tudo chegou outra vez ao ponto em que, minúsculo, não suportava mais a própria pequenez: irrompeu espetacularmente em incontáveis fragmentos, e imediatamente voltou a se lamentar. Chafurdou em Pensamentos de imensa frustração, e, enfim, atingiu o limite da agonia, desesperando-se como jamais imaginou ser possível.
Naquele momento importantíssimo, sem nenhuma expectativa além de passar o resto da sua existência fazendo sempre a mesma coisa e repisando as mesmas reclamações, desejou conseguir parar de pensar, e quem sabe toda aquela imensa insatisfação desapareceria.
Naquele instante, um suspiro do Nada o distraiu, quase como um soluço de súplica muda. Não parou, porém, para prestar atenção ao que motivou o suspiro, porque surgiu outra questão: se Nada, que era nada, ou não era, conseguia pensar e detestá-lo, ora, de onde vinha aquilo? Como poderia surgir qualquer coisa do Nada? De onde viriam seus Pensamentos?
O que SERIAM os Pensamentos?
Era uma questão difícil: Tudo ficou algumas eras só especulando, até que também se cansou de pensar tanto sem chegar a uma resposta satisfatória. Distraído, contemplou-se, e constatou, surpreso, que havia se expandido bastante pelo Nada: suas pequeníssimas partes haviam ocupado um espaço considerável ao longo do tempo.
E, prestando atenção pela primeira vez ao espaço e ao tempo, descobriu que eles existiam.
Havia percorrido só um pequeno trecho da espiral, tinha quase toda ela pela frente, mas, espantosamente, já havia tomado consciência de tantas coisas que sempre estiveram lá, mas ele nunca notara. Prestou atenção àquelas suas pequeníssimas partes, para as quais também nunca havia olhado realmente, e constatou que cada uma era uma miniatura perfeita dele próprio, todas idênticas. Para ter certeza, contemplou cada uma e todas no mesmo instante: foi quando se deu conta de que era onisciente e onipresente.
Mas, se elas eram como ele na aparência, será que também podiam pensar?
E, num susto, Tudo despertou todas elas, que se tornaram alertas e atentas, esperando o que mais viria: percebendo todos os seus fragmentos como indivíduos conscientes e com expectativas apenas porque havia especulado sobre essa possibilidade, Tudo deslumbrou-se, porque viu que os seus Pensamentos tinham poder.
Decidiu testar, e ordenou que todos os seus fragmentos fizessem uma volta completa ao redor de si próprios: fizeram. Ficou absolutamente encantado, e passou muito tempo só mandando que girassem, observando a beleza dos giros. Porém, ele sempre sabia para que lado eles girariam, já que ele ordenava a direção, então desejou ser surpreendido, ao que seus fragmentos foram para todos os lados, muitos deles chocando-se com efeito avassalador: ao chocar-se, produziam pequenos clarões multicoloridos, completamente diferentes da escuridão do Nada, lindos, graciosos, gloriosos.
Foi assim que Tudo conheceu a luz, e passou ainda muitas eras mais a contemplando, agora convicto de que havia poder em seus Pensamentos; portanto, além de onipresente e onisciente, descobriu-se onipotente.
Tão espontaneamente como haviam surgido suas outras ideias, surgiu mais uma: e se concedesse a seus fragmentos o poder da escolha?
Nada jamais superaria essa decisão. Assim que o concedeu, cada uma das suas pequeníssimas partes o surpreendeu de formas que ele jamais teria imaginado, muitas unindo-se, muitas permanecendo sozinha, mas todas se comportando de maneiras esplendidamente diversas, e, afinal, Tudo reconheceu seu maior poder, muito melhor do que saber tudo, poder tudo, estar em tudo, o poder mais desafiador e instigante, o mais surpreendente, o mais delicioso: conceder o livre arbítrio a todas as suas partículas.
Tudo agora apenas queria assistir e deliciar-se com o imprevisível; mergulhou tão profundamente na contemplação de si mesmo, que se esqueceu de si, bêbado de amor pela própria criação, surgida naquele exato instante em que seus fragmentos puderam escolher.
Esqueceu também o Nada ao seu redor. Esqueceu-se de seu próprio Pensamento, diluiu-se em si mesmo, e, afinal, em meio a toda aquela beleza, perdido em incomensurável prazer, alheio ao perigo que estava lá, quieto e à espreita, Tudo, enfim, descansou.
***
Quando Nada percebeu que Tudo conseguira exatamente o sempre havia desejado, esquecer-se de si mesmo e descansar, chegou afinal ao auge do desgosto.
Havia tanto desespero, inveja, raiva, frustração e ressentimento, ódio e impotência, tanta, tanta agonia, que seu Pensamento se tornou um caos abissal, tão terrível que, mesmo não sendo, despertou o seu próprio poder, pleno e terrível: a loucura.
E quando a libertou, de forma ainda mais bizarra e contrariando todo o esperado e razoável, Nada fecundou a loucura, e daquela relação profana e incestuosa surgiu o fruto do horror e da aflição, o resultado de todo o ódio àquela celebração de possibilidades sem fim que estava apenas começando a partir de Tudo: do Nada em desespero e da loucura libertada nasceu a Fúria, poderosa como o Nada, ressentida como a loucura, cheia da inveja de ambos; e o mais espantoso e terrível era o fato de que a Fúria não estava restrita a apenas rodear o Tudo, mas o podia invadir.
A Fúria era nada, e era poder: ela era, e decidiu ser a invasora do universo do Tudo, que estava apenas começando sua mais admirável volta na espiral.
E foi naquele instante que começou a nossa história.
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