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Image by Melanie Weidmann

CAPÍTULO 2 – As fotos de Tiago.

  • 11 de jun.
  • 18 min de leitura

 

Ele provavelmente estava encrencado, mas ia pensar nisso só depois.  

Se ainda não podia ir embora de lá com Maria Carolina, aquele cara também não ia chegar perto dela de jeito nenhum.  Ele não tinha passado o semestre inteiro pensando na menina para aquele imbecil chegar nela desse jeito, sem mais nem menos, em cinco minutos.  E também não tinha gostado da cara dele: por enquanto era gratuito, mas não tinha nenhuma dúvida de que logo acharia motivos para detestar o cara consistentemente, com bases sólidas.

No primeiro dia de aulas na nova escola, ele estava por ali, de bobeira no pátio, quando ela entrou pelo portão correndo e atrasada, e ele não conseguiu desgrudar os olhos daquela garota alta, ruiva e linda, mais uma vez pensando se valia mesmo a pena obedecer a mãe e se manter longe de garotas.  Estava devaneando preguiçosamente sobre como seria agarrar aquela menina, esperando que ela passasse para conferir como ela era de costas, quando, ao invés de só passar por ele, ela estacou à sua frente, e ele viu que ela o encarava com uns olhos lindos, estranhos, enormes, de uma cor muito diferente, amarelos como os de um gato, ou, naquele caso, gata; muito gata.  Todo o rosto dela era extraordinário, com traços retos, ligeiramente assimétricos, o que só aumentava a beleza.  Linda e exótica.  

Ele ficou encarando a menina, pego de surpresa pela beleza dela, até que, depois de vários segundos, ela, sem dizer uma palavra ou mudar de expressão, só se virou e saiu andando, assim, sem mais nem menos, momento em que ele pode constatar que ela era tão linda de costas quanto de frente, e tinha pernas intermináveis.  Andava com muita elegância, praticamente deslizando em meio aos nanicos que estavam por ali.  

Aos onze anos, Tiago ganhou sua primeira câmera fotográfica, um aparelho que tinha sido do seu pai e ainda funcionava com filme.  Era um aparelho de muita qualidade, como já não se fazia mais: ele leu vários livros sobre fotografia, sua mãe o pôs em um curso, e ele ficou muito bom em fotografar. Era de fato um talento natural o que ele possuía para olhar e descobrir por qual ângulo obter a maior beleza possível, a maior estranheza, a imagem mais incômoda: ele parecia captar instintivamente pela lente o que a maioria dos olhos das pessoas não enxergava cotidianamente.

E o que ele mais gostava de fotografar eram justamente as mulheres.  Adorava olhar para elas antes mesmo de entender o porquê, e depois começou a fotografar todas as que ele pode.

Já prestes a fazer quatorze anos, teve um estirão e cresceu horrores, mas, talvez porque praticasse muitos esportes desde sempre, não ficou como a maioria dos garotos quando cresciam de repente, magrelo e desengonçado, tropeçando em tudo e sem saber onde colocar as mãos. Ele também era bem forte, e a barba e os pelos cresceram junto com os ossos.  Era sério, não ria à toa, sempre muito reservado, e sua mãe dizia que o corpo dele afinal estava acompanhando a cabeça, porque ele já tinha nascido velho.

Parecia ter uns dezessete anos ao invés de quatorze, e as garotas começaram a olhar para ele, especialmente as amigas da sua irmã, Flávia, todas já prestes a ir para a faculdade.   

Sua irmã também devia ter notado as mudanças nele, porque, certa tarde, ela estava com algumas amigas na cozinha quando ele entrou para beber água, só de bermuda, sem camiseta e todo suado; tinha acabado de chegar de uma volta de bicicleta, e o sol naquele dia estava de rachar a rua.

Todas as garotas de repente ficaram mudas enquanto o encaravam, até que uma delas puxou conversa. 

- Oi, Tiago, quer um pedaço de bolo?

Pergunta esquisita, uma vez que aquela garota mal olhava para ele, quanto mais perguntar se ele queria bolo na sua própria casa.

- Hum, é, não, só vou pegar água mesmo. 

Bebeu sua água e já estava voltando para a sala, quando outra das garotas também ficou esquisita.

- Senta aqui, a gente acabou de assar o bolo. -  e já tinha cortado e servido um pedaço, que empurrava em sua direção.  

Flávia interferiu.

- Isabela, que ficar aqui com a gente o quê, ficou louca?  Tchau, Tiago.  Some. 

Todas as garotas protestaram.

- Olha como você trata seu irmão, deixa ele ficar aqui com a gente e comer bolo.

- É, deixa ele ficar, toda vez que a gente vem aqui ele nunca chega nem perto da gente. 

Sua irmã encarou uma a uma com a boca ligeiramente aberta e os olhos meio arregalados.

- O que deu em vocês?  Desde quando vocês se interessam se ele, ELE, come ou conversa com alguém?

Do jeito que ela falou “ele”, parecia que “ele” podia muito bem ir comer ração, ao invés de bolo, na casinha do cachorro, e fixar domicílio por lá mesmo. Em seguida, ao vê-lo ainda lá parado, berrou com toda a força:

- XÔ, GAROTO! ESTÁ FAZENDO O QUE AQUI AINDA?  FORA, SOME, DESAPARECE!

Ele saiu, mas ficou atrás da porta ouvindo as garotas dizendo para Flávia que ela não deveria tratá-lo daquela forma, que ele tinha sentimentos, era tão fofo, nossa, como ele tinha crescido, e outras coisas do gênero.

Ficou lá até sua irmã começar a gritar com elas.

- Escutem aqui, vocês estão querendo DAR EM CIMA DELE, só porque ele ultrapassou vocês em altura? VOCÊS ESTÃO LOUCAS? PERDERAM A NOÇÃO???

Aí ele deu no pé.

Depois de alguns minutos, quando as garotas tinham ido embora (Tiago suspeitava fortemente que tinham sido postas para fora por sua irmã), ela apareceu no quarto dele e passou a despejar uma palestra interminável a respeito de como ele estava proibido de cumprimentar, conversar com qualquer uma das suas amigas, permanecer no mesmo ambiente, olhar para elas, encostar, aceitar bolos ou qualquer outro tipo de gênero alimentício, e assim por diante, sob pena de execução sumária e dolorosa.  Também observou que ele tinha crescido em tamanho, mas que o seu cérebro continuava minúsculo, idiota e infantil, acrescentou mais algumas proibições, ameaçou um pouco mais, e finalmente saiu.  

Se sua irmã não tivesse feito tanto estardalhaço, ele provavelmente teria bebido a água e saído de lá em seguida, imediatamente esquecendo o assunto, mas ela falou tanto, que ele acabou percebendo que aquelas garotas tinham prestado atenção nele porque ele estava muito maior e parecendo bem mais velho.  E ele, que sempre tinha apreciado a beleza de todas elas, inicialmente só imaginando as fotografias que faria com cada uma, começou a imaginar também como seria beijá-las, porque já fazia um certo tempo que ele andava pensando nessas coisas. 

Especulou como seriam os beijos com as amigas da irmã, e, ignorando completamente a palestra e as ameaças, decidiu descobrir.

Elaborou uma estratégia simples, fez pesquisas, e uns dez dias depois surgiu a chance: apareceu sozinha na casa deles Fernanda, morena, linda e muito gostosa, uma das que tinham oferecido bolo para ele, que, então, esperou pacientemente, vigiando do seu quarto, até que afinal a garota saiu do quarto da irmã para ir ao banheiro.  Rezando para Flávia não aparecer primeiro e ele ter que explicar o que estava fazendo ali parado, ficou esperando Fernanda abrir a porta do banheiro para sair, e então a empurrou novamente para dentro, uma mão segurando a garota pela cintura e a outra na boca dela, sussurrando com urgência:

- Não fala nada ou a Flávia mata nós dois.  

A menina, pega totalmente de surpresa, ficou lá parada olhando para ele de olhos arregalados, mas sem opor resistência.  Ele não perdeu tempo e lascou um beijo nela, apertando a garota como se não houvesse amanhã, passando as mãos por todos os lugares para ver até onde ela o deixaria chegar, e estava indo longe.  A garota começou a suspirar bastante profundamente contra a boca dele, e ele, satisfeito com o resultado, a soltou de repente, dizendo:

- Me encontra lá fora daqui a meia hora.

E a largou lá.  Ficou esperando Fernanda encostado no muro de casa, o coração na boca: e se ela resolvesse contar para a Flávia?  E se ela não viesse, se tivesse achado o beijo uma droga?

Não precisaria ter perdido tempo nenhum com dúvidas: a garota saiu em exatos trinta minutos, toda afogueada, e entregou a ele um papelzinho.

- Meu endereço, vai para lá daqui a uns dez minutos, só para eu ter certeza de que não tem ninguém em casa.  Vou estar sozinha te esperando. 

Quando ele chegou à casa dela, a garota abriu a porta e imediatamente o agarrou e grudou a boca na dele, ao que ele disse, senhor de si e decidido a não deixar a menina tomar conta da situação só por ser mais velha:

- Calma...  Devagar.  Vai chegar alguém logo?

A garota ficou vermelha, fez que não com a cabeça, e ele respondeu:

- Ótimo, sem pressa, então... 

Se agarraram a tarde inteira, ele colocando em prática tudo que tinha lido na internet, porque também fazia parte da sua estratégia pesquisar o assunto.  Acreditava firmemente em estudar e conhecer as variáveis que estivessem na trajetória para chegar a qualquer objetivo a que se propusesse, porque tinha crescido ouvindo seu pai, um publicitário muito bem sucedido, proclamando ao menor pretexto que o sucesso de qualquer empreitada era resultado de conhecer o público-alvo, seus desejos e suas necessidades. 

Assim sendo, tinha tido a ideia de pesquisar do que gostavam as garotas, além de procurar detalhes sobre sua anatomia e como funcionava tudo sobre excitação, beijos, pontos erógenos. Também surrupiou alguns livros da Flávia, ridículos de tão melosos, mas que tinham umas descrições bem explícitas de como as pessoas transavam.  Só não dedou para o pai que a irmã estava lendo livros pornográficos porque estava interessado nas informações. 

O resultado foi amealhar vasto conhecimento teórico sobre o tema.

Naquela tarde, testou toda aquela teoria com a menina, e ela foi ficando tão derretida que por pouco não transou com ele naquele dia mesmo.  Quando afinal anunciou que precisava ir embora, pediu que ela não contasse o que tinha acontecido a ninguém, ou sua irmã podia descobrir e eles não iam mais poder se ver. 

Em nenhum momento, porém, ele disse que estava apaixonado, ou que queria qualquer coisa que não fosse aquilo que tinham feito, e teria bastante tempo depois para se arrepender de não ter deixado claro que só queria se divertir.

Fernanda passou a sempre dar um jeito de chamá-lo para sua casa, e ela também já tinha posado para fotos muito bonitas, closes do rosto, outras fotos do corpo dela, as mãos, a nuca, seus pés, seu umbigo na barriga lisa.  

Ele quase não sabia se gostava mais de ficar com a garota ou fotografá-la.  

E então surgiu a oportunidade com Isabela, a garota do bolo no pratinho. 

Certa tarde, quando ela estava sozinha com sua irmã na sala, Tiago deu um jeito de passar algumas vezes por ali só olhando nos olhos dela pelo máximo de segundos que era possível sem deixar Flávia perceber, e todas as vezes ficou esperando na porta do seu quarto.  Sabia que ela ia acabar aparecendo por ali, e não deu outra: ela veio, e assim que ela chegou perto ele a puxou para dentro e a encostou contra a parede, pressionando a garota descaradamente com os quadris, segurando suas duas mãos no alto da cabeça, e daí por diante foi a mesma coisa que com Fernanda.

Mais dois meses e abordou mais uma, Luíza, e estava estudando a forma de abordar uma quarta assim que conseguisse organizar melhor seus horários, porque ainda tinha que estudar, praticar seus esportes e fazer lição de casa. 

Fez com que todas elas guardassem segredo absoluto pelo simples expediente de amedrontá-las com a possibilidade de contarem para alguma das amigas e a informação chegar à sua irmã, circunstância em que estariam fritos. 

E com nenhuma delas falou sobre qualquer coisa minimamente semelhante a paixão ou namoro, nem tanto por omissão ou malícia, mas por total despreparo.  

Ficou alguns meses nessa rotina intoxicante de garotas e fotos, inclusive já tendo finalmente transado com duas delas: primeiro foi Isabela, e depois  Luíza, que ainda era tão virgem quanto ele tinha sido antes daqueles meses doidos. 

Só Fernanda ainda resistia, o que ele achava muito estimulante.  

Isabela era a que menos o empolgava, porque ele a achava bem chata, para falar a verdade: estava sempre reclamando de alguma coisa.  Com as outras duas era bastante carinhoso, mas com Isabela com frequência era impaciente e até ríspido, o que parecia fazer a garota grudar nele mais ainda e choramingar a toda hora, querendo saber o porquê de ele a estar visitando menos, proclamando constantes e doloridas saudades, sempre com aqueles olhos meio lacrimosos e pedintes.

A certa altura, decidido a partir para a quarta amiga, resolveu que ia parar de ver Isabela, o que, infelizmente, causou uma hecatombe de proporções bíblicas.  Conhecesse ele o tamanho da ira de uma mulher rejeitada e teria pensado melhor em como terminar com a menina, ou talvez nem tivesse terminado, por puro e abjeto medo do que não previu que aconteceria depois. 

Jamais teve a percepção de que Isabela estava se comportando daquela forma porque estava apaixonada, afinal, era só um garoto grandalhão de quatorze anos que estava interessado em fotografar e passar as tardes com suas modelos em prazerosas e lascivas atividades.  Em resumo, era basicamente um imbecil, o que se provou absolutamente verdadeiro quando, sem qualquer refinamento ou sutileza, em certa tarde de novembro foi visitar Isabela, decididíssimo a terminar e ver-se livre para a próxima da lista, porque em breve o ano letivo terminaria e todas as amigas de sua irmã iriam debandar em férias; tinha pressa.

Chegou à casa da menina, ao que ela foi logo se atirando para cima de Tiago, proclamando entre beijos bem profundos, enquanto ia tirando a roupa dele, a mesma ladainha queixosa de como estava morrendo de saudades, o que ele, com a rasa e limitada compreensão da qual dispunha, não chegou nem perto de perceber que eram mesmo saudades de moça, não chatice, mas enfim.  Ele evidentemente inflamou-se com aquilo, mesmo achando chato, afinal, tinha quatorze anos, mas teve a decência de pará-la antes de perder as cuecas, entrando de sola a seguir. 

- Olha, Isabela, preciso te dizer uma coisa.  Não dá mais para a gente continuar se vendo.

A garota ficou branca.

- Como assim, não dá mais?  Você não me ama mais?

Aquilo o pegou de surpresa: amar?  Como assim, amar?  Ele nem tinha certeza se gostava dela.

- Hum, veja, bom...  Olha, como assim, não te amo mais?

A garota obviamente entendeu tudo errado.

- Então, se você ainda me ama, o que foi?  Sua irmã descobriu?

Ele tratou logo de desfazer o equívoco, infelizmente sem o menor cuidado, o que foi um erro crasso e lamentável, e, em retrospectiva, até hoje ele não acreditava como pode ter sido tão grosseiro.  E, principalmente, burro.

- Não, espera, você está entendendo tudo errado: eu nunca disse que amava você.  Eu preciso terminar porque estou interessado em outra pessoa.

Em instantes a garota metamorfoseou-se na sua frente.  De pálida, ficou vermelha, depois seu rosto foi assumindo uma expressão furiosa, e, impressionante, mas só aí ele percebeu que tinha dado uma mancada fenomenal.

- Você está me dizendo que está vindo aqui me ver esse tempo todo, e está transando comigo, mas não gosta de mim?  Você está me dizendo que vai me dar um pé na bunda, seu pirralho, porque encontrou outra para fazer suas visitinhas e suas fotinhos, É ISSO?

Ele realmente não esperava por toda aquela raiva, e ainda tentou consertar, mesmo não tendo gostado de ser chamado de pirralho e suas fotos de “fotinhos”, mas infelizmente apenas continuou metendo os pés pelas mãos.

- Calma, não falei que eu não gosto de você, quer dizer, algumas horas você é meio grudenta, mas, no geral, eu gosto...

Bastou.  Ela começou a berrar, dizendo que ele era um canalha, um imbecil, que ela tinha confiado nele, transado com ele, dedicado seus sentimentos a ele, deixado que ele a fotografasse nua, e por aí afora.  Ele até pensou em tentar acalmá-la de algum jeito, em último caso com uns beijos bem dados, mas a garota estava urrando mesmo, o que acabou atraindo a vizinha de porta que conhecia Isabela desde que ela tinha nascido, era uma das melhores amigas da mãe dela, e tinha ouvido absolutamente tudo o que a garota estava berrando sobre as transas e as fotos.  Entrou na casa da garota sem nem bater.

- ISABELA!  QUE HISTÓRIA É ESSA DE QUE ESSE MOÇO TEM VINDO AQUI TRANSAR COM VOCÊ E FOTOGRAFAR VOCÊ PELADA?

Como ele realmente parecia muito mais velho do que era, a mulher devia ter achado que ele era maior de idade e estava abusando de uma adolescente; ela nem quis ouvir nada do que eles dois tentaram explicar, e ligou imediatamente para a mãe da menina, que a esta altura estava mais em pânico que ele, e por muito pouco a vizinha não chamou também a polícia.

A mulher não deixou que ele fosse embora, e em alguns minutos a mãe da Isabela chegou, mas como já o conhecia e sabia que ele era o irmão mais novo da Flávia, também não chamou a polícia: passou uma descompostura nos dois, depois, disse que queria as fotos da filha de volta e ter uma conversa com seus pais, ao mesmo tempo em que mandava Isabela para seu quarto para iniciar um castigo que duraria, segundo ela, até os seus trinta anos de idade.

Ela o pôs no carro e foram para a casa dele, onde, para cúmulo do azar, além da sua mãe e Flávia estavam também Luíza, Fernanda e mais umas três ou quatro das garotas de sempre, porque a sua irmã idiota tinha sempre que estar com a casa cheia de amigas.  Inferno de vida. 

A mãe de Isabela despejou toda a história para a mãe dele ali mesmo, na frente de todo mundo, e aí a Luíza e a Fernanda se puseram a chorar, momento em que ele cogitou seriamente fugir pela janela.

Flávia, que àquela altura estava ameaçando Tiago de torturas medievais e mutilações múltiplas, estranhou o comportamento das duas.  Interrompeu o discurso sobre como ia arrancar sua língua para perguntar às amigas que raio de choradeira era aquela.  Entre soluços e crescente desespero e histeria, porque as duas perceberam que estavam chorando pelo mesmo motivo, elas contaram que também estavam sendo visitadas por Tiago havia vários meses.

Flávia começou a urrar como ele nunca a tinha visto fazer antes.

- TIAGO, SEU MARGINAL DEGENERADO, O QUE VOCÊ PENSOU QUE ESTAVA FAZENDO COM AS MINHAS AMIGAS? 

Mas sua mãe, que estava só ouvindo até então, interrompeu a garota.

- Quieta, Flávia.  Vá para o seu quarto. 

- COMO ASSIM, MÃE? OLHA O QUE ELE FEZ COM AS MINHAS AMIGAS...

- FLÁVIA, VÁ-PARA-O-SEU-QUARTO-AGORA!!!

A garota conhecia aquele tom, e foi, não sem antes lançar ao irmão um olhar de ódio assassino, falando sem emitir som que pretendia matá-lo assim que possível.

- Luíza, Fernanda, por favor, fiquem aqui, e as outras meninas vão para casa, e não vão comentar isso com ninguém.  Não queremos expor suas amigas, não é mesmo? – sua mãe deu uma olhada bem feia para a mãe de Isabela, que só aí percebeu a gafe.

- É verdade, desculpe, Sílvia, eu devia ter pensado nisso, mas na hora eu estava muito nervosa.  Por favor, será que seu filho podia só entregar as fotografias para eu poder ir embora?

-É claro. Tiago, suba, pegue seu computador, as fotos e os negativos, e traga tudo aqui. Imediatamente. 

O garoto nem pensou em se negar a fazer o que sua mãe estava mandando.  Pegou tudo e entregou.

- Está tudo aqui?

- Está.

- Ótimo.  Agora vá buscar um martelo e uma tesoura.

- Martelo?

- Martelo, Tiago.  Agora, por favor.

Ele buscou.

- Você colocou alguma das fotos na nuvem?

- Não, mãe, claro que não!

- Tem certeza, Tiago?  Não mostrou a mais ninguém?

- Tenho, mãe. 

- Então agora você martele esse computador até esmigalhar completamente, e pique todas as fotos e negativos. 

- O computador?  Mas, mãe, tudo meu está aí dentro...

- Exatamente.  Pode começar.

Horrorizado, mas sabendo que quando a mãe estava daquele jeito não tinha conversa, fez o que ela mandou.  Depois que estraçalhou o notebook, ela o fez picar com a tesoura todos os negativos e fotos reveladas, não sem antes dar uma discreta olhada em tudo.  Podia jurar que havia admiração nos olhos da mãe ao ver a beleza das suas fotografias, que eram realmente muito artísticas, nem um pouco óbvias ou vulgares.  As garotas, entretanto, estavam se esgoelando mais ainda.

- Está tudo destruído.

- Ótimo.  Satisfeita, Cláudia?

- Estou.

Sem mais uma palavra, ela então foi embora, e sua mãe se dirigiu às duas garotas desconsoladas.

- Meninas, vocês não imaginam o quanto eu sinto por tudo o que aconteceu aqui.  Mas vocês sabem que eu tenho que conversar com seus pais sobre tudo isso, não sabem?

As garotas assentiram, envergonhadas.

- Ótimo.  Mas vou fazer isso com calma, e vocês viram que as fotografias foram completamente destruídas, não viram? - as garotas assentiram novamente. - Excelente.  Agora vamos todas nos acalmar.  – a mãe olhou para ele de um jeito que ele nunca tinha visto antes, entre ameaçadora e desapontada. - Tiago, desculpe-se agora com as meninas e vá para o seu quarto.  Fique lá até seu pai chegar.

Tiago estava mortificado, sem conseguir olhar as garotas nos olhos.  

- Olhem, desculpem, eu não pensei que vocês estavam dando tanta importância assim pra mim.  Eu não teria dado.  Realmente sinto muito.  Desculpem. - e foi para seu quarto, onde teve que trancar a porta para impedir que sua irmã entrasse e recomeçasse o sermão ou o matasse de verdade; ela parecia mais do que disposta, sibilando pela fechadura tudo o que pensava dele.

A partir disso, foi O-Castigo-Da-Vida. 

Naquela noite, sua mãe falou a mais não poder sobre respeito com as mulheres, misoginia, machismo, objetificação, patriarcado, responsabilidade sobre seus atos, incontinência sexual, que ele poderia ser pai aos quatorze anos, infecções sexualmente transmissíveis e toda sorte de outras tragédias que poderiam ter advindo daquele comportamento deplorável que ela nunca teria esperado dele.

Já seu pai inicialmente enfocou de forma diferente, exprimindo um espanto impressionado por ele ter conseguido ficar com as três garotas ao mesmo tempo (ao que levou uma cotovelada da mãe), mas em seguida repetiu o mesmo discurso, também à exaustão.  

Sua máquina fotográfica foi confiscada por tempo indeterminado, ele teve que abrir seu e-mail e suas redes sociais para mostrar que de fato não restava nenhuma imagem das garotas, e foi posto de castigo até que provasse ser digno de confiança.

Sua mãe acabou levando sua irmã e ele para a terapia, haja vista que ela passava de fúria homicida a períodos de tristeza profunda com grande frequência, afinal, segundo ela, ele tinha arruinado todas as suas amizades com sua tara. 

Com o tempo e a terapia, porém, sua irmã foi se acalmando, e em Fevereiro, depois dos exames vestibulares, ela foi estudar em outra cidade; com a distância e as novidades, as coisas acabaram melhorando entre eles.

Já ele continuou na terapia, e sua mãe garantiu que ele não chegasse perto de mais nenhuma garota de forma absolutamente eficiente através de vigilância constante. 

Era enlouquecedor.

Mudou de escola ao ir para o ensino médio para se livrar de qualquer estigma ou boato, porque antes estudava na mesma escola da irmã.  Nunca mais viu as três garotas, e tornou-se impossível marcar qualquer coisa com qualquer outra.  Ele tinha poucos amigos, e não fez nenhum na escola nova.  Sua mãe marcava homem a homem, aparecendo de repente em todos os lugares aos quais ele ia com os amigos antigos só para ver se ele não estava aprontando alguma, sempre mantendo a localização de seu celular ativada e o rastreando infalivelmente.  

Já tinha reclamado com o pai, e até o ouviu dizendo à mãe que ela estava emasculando o filho com aquele exagero, ao que ela respondeu que ele nem tinha quinze anos ainda, que teria a vida toda para ser homem, mas que tinha que aprender a respeitar as mulheres antes de qualquer coisa.  

Procurou o significado de “emascular”, e achou que estava bem adequado à sua situação.  

Bom, às vezes queria que a mãe visse como algumas garotas pareciam querer ser desrespeitadas por ele.  Rebeca, por exemplo: a garota deixava claro que queria ficar com ele em todas as oportunidades disponíveis, e já tinha sugerido várias vezes que ele aparecesse na casa dela depois da aula, ao que ele ficou meio paranoico, achando que ela tinha descoberto de alguma forma o que tinha acontecido no ano anterior.  Em alguns dias ela o provocava tanto que seu desejo era jogar tudo para o alto e arrastar a menina para algum banheiro na escola mesmo, mas sua mãe, àquela altura, já tinha devolvido sua máquina fotográfica e lhe dado outro notebook; também tinha parado de dar palestras duas vezes ao dia. Tiago achou melhor ficar em paz na dele.

Naquela sexta-feira, seus pensamentos se alternavam entre o que ele faria com Rebeca se tivesse certeza de que não seriam pegos, e em como os olhos de Maria Carolina mudavam de cor com a luz do sol.  Também pensava ociosamente em como aquelas aulas eram um saco, até que aquele cara entrou na sala de aula e o arrancou daqueles devaneios conflitantes sobre duas garotas completamente diferentes.

No momento em que viu Júlio, teve uma sensação súbita e mal localizada entre o peito e a barriga, um violento sentimento de aversão, imediato e tão intenso que ficou até um pouco tonto com a força daquilo.  Nunca tinha sentido nada assim, tão primitivo, tão repentino e tão sem justificativa.

Ele o odiou na hora, e o primeiro impulso foi levantar-se e colocar o cara para fora debaixo de porrada, o que era absurdo, até que o viu se dirigir ao fundo da sala, indo se sentar bem lá, ao lado dela.  Da Maria Carolina.  Da garota dos olhos dourados.  

E ela estava falando com ele.

Aquilo era inacreditável: desde que ele a vira pela primeira vez, linda, altiva, passando por todos os lugares como uma princesa em meio à plebe, aquela garota maravilhosa só falava o mínimo necessário com qualquer um menos o Gabriel, o maluco que contou para todo mundo que era bissexual na primeira semana de aulas.  Poucas vezes ele tinha ouvido aquela voz sedosa dela fora da classe; rir, então, era raríssimo. 

Às vezes ele se pegava fantasiando em como seria ouvir aquela voz linda sussurrando coisas sem sentido enquanto ele a fosse beijando e acariciando, em como seria ouvi-la rindo só para ele...

E eis que ela agora estava rindo para aquele cretino. 

Durante a aula, aquele idiota não só continuou com a conversinha e os sorrisinhos, como foi chegando cada vez mais perto, e, para piorar, o idiota do Gabriel não estava fazendo nada.  Que porra de amigo ele era, que não via que o cara era um safado que estava querendo PEGAR A AMIGA DELE? 

Sempre que podia, olhava para trás, e a cada vez Maria Carolina parecia mais à vontade.  Em uma das ocasiões, porém, seu olhar acabou cruzando com o olhar de Gabriel, que indicou o cara com a cabeça, e eles se entenderam sem palavras: tinham que por aquele idiota bem longe dela.

Depois de uma eternidade, soou o sinal para o final da aula, e ele não hesitou, indo direto para o fundão.  Ao se aproximar, não acreditou que ele estava tendo a cara de pau de chamar a menina para ir à livraria.  Tentou levá-la embora de lá, mas a professora chegou e estragou seu plano, e agora ele estava sentado ao lado dela sem ter planejado nada, e para ele estava impossível largar sua mão.  Na verdade, estava pensando em como podia ter passado aquele tempo todo sem nunca ter sentido a pele dela na dele.

A aula correu lenta, e o tal de Júlio, que antes pareceu tão interessado em Maria Carolina, agora só tinha olhos para a professora, parecendo esquecido de tudo mais.  Na verdade, a cada vez que olhava para o cara, ele parecia mais e mais distraído; sem nenhuma dúvida devia ser algum tipo de tarado, porque estava olhando Cecília, a professora, quase sem nem piscar.

Mas a questão principal era: como é que ele ia fazer para convencer sua mãe de que ele realmente, de todo o coração, não era mais aquele desprezível machista/sexista/misógino mirim, para conseguir pegar as mãos da Maria Carolina de forma perene, e, assim que possível, pegá-la toda?

Ele estava mesmo muito encrencado.

 
 
 

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