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Image by Melanie Weidmann

CAPÍTULO I - Quando todos se encontram.

  • 12 de jun.
  • 14 min de leitura


Afinal, a sexta feira. 

Maria Carolina levantou-se no último minuto possível e foi para o banheiro, onde olhou criticamente seus cabelos vermelhos, que, como sempre, estavam revoltos nas mais variadas direções. Deu de ombros, fez uma trança, vestiu-se, passou na cozinha onde pegou algumas bolachas, e saiu.

Andando o mais rápido possível sem sair correndo, chegou à escola com o portão já quase fechado.  Ignorando a cara feia do funcionário que todos os dias tentava deixá-la para fora, mal pôs o pé para dentro e já ouviu aquela voz enjoada de sempre: Rebeca.

- Ainda bem que prendeu a juba, ou não passava pelo portão fechando.

Maria Carolina era muito, muito alta, e ser alta tinha vantagens.  Esticou a coluna ao máximo, ficou imensa, empinou o nariz e passou pela garota e suas amiguinhas, que riam como idiotas das mesmas piadas todos os dias, e foi para a sala de aula, onde Gabriel já estava na carteira de sempre.

- Oi, Bi.

-  Carol, sua gostosa, porque prender esses cabelos gloriosos, hein?

Gabriel era seu único amigo, e tinha declarado ser bissexual na primeira semana de aulas; para chamá-lo de Gabi e a seguir Bi, não foi necessário tempo nem originalidade.  Ele era lindo, do tamanho dela, forte, musculoso, cabelos pretos, lisos e compridos até os ombros, os olhos bem escuros e puxados como os da mãe, a pele cor de chocolate como a do pai.  O jeito como ele tinha dito no meio da aula de literatura que era bissexual ainda causava fofocas e comentários.

Naquele dia, ela estava como sempre na sua, quando a professora falou sobre “Dom Casmurro”.  Era a última aula do dia, e surgiu a questão do suposto triângulo amoroso, ao que a professora perguntou aleatoriamente a opinião dele. 

E ele foi com tudo. 

- Eu acho que o Bentinho queria mesmo era ficar com o Escobar, mas não podia admitir, ou não tinha coragem. Ele se casou com a Capitu porque era melhor isso que virar padre, e porque tinha lá aquele crush da adolescência no meio.  Em algum momento, não aguentou mais e incluiu Escobar no casamento, mas, quando ele começou a dar mais mole para a Capitu e o menino nasceu com a cara dele, não segurou a onda, então ele mesmo afogou o Escobar e voltou para o armário.

Carol achou que o comentário tinha sido exagerado, fantasioso demais e desnecessário, mas a professora, ao invés de deixar para lá, levou o assunto adiante.

- Como assim, incluiu o Escobar no casamento?

Os olhos do garoto brilharam, e ele se aprumou, armando o bote.  Parecia que estava esperando exatamente essa deixa, e lascou a resposta inesquecível.

- Eu estou me baseando no que eu faria se fosse o Bentinho: pegava os dois, a Capitu e o Escobar, de preferência juntos, mas não ia perder tempo com ciúmes.  Se o Bentinho não sabia brincar, não devia nem ter descido para o play.  Aí deu no que deu.

Depois de um silêncio retumbante, os garotos da sala começaram a murmurar coisas impróprias do tipo, “meu, o cara é veado?”, mas, estranhamente, a maioria das meninas, pareceu bem excitada com aquela demonstração de sexualidade, se remexendo nas cadeiras e lançando olhares compridos para o garoto, que parecia nem notar nada, o que sem dúvida era fingimento, porque Maria Carolina podia apostar que ele estava adorando toda aquela atenção.

Sinceramente, ela também tinha achado muito sexy o jeito daquele garoto e o que ele tinha dito...  Mas afinal, por que alguém ia fazer uma declaração dessas sem mais nem menos na aula, e logo no começo do ano?

O garoto agiu como se tivesse dito a coisa mais natural e corriqueira, alheio aos olhares e murmúrios, enquanto a professora tentava recompor-se e falhava miseravelmente.  Por sorte faltava pouco para o final da aula, o sinal tocou quase em seguida, e ele já se levantou e saiu antes de todo mundo.

Num impulso, Carol foi atrás dele, e o alcançou quase na saída da escola, mas, lamentavelmente, não se lembrava do nome dele.

- Oi, garoto, psiu!

Ele parecia surdo aos vários “psius” dela, que então acelerou o passo e o pegou pelo braço.

- Oi, espera aí!

Ele se virou e a olhou curioso, sem dizer uma palavra.  Ela se sentiu idiota, mas agora não mais tinha jeito.

- Oi, como você se chama mesmo?...

- Gabriel. – ele não perguntou o nome dela, que já estava desejando não ter cedido ao impulso de correr atrás dele.

-Hum... Sabe, eu não entendi por que você falou aquilo do livro.

-Aquilo o quê?

-Que os caras eram gays, e que você também é.

Ele olhou para ela impassível.

-Eu não disse que eu sou gay.  Eu disse que eu sou bissexual. – como se quisesse provar, ele a mediu de cima a baixo, parando vários segundos a mais nos peitos, o que ela achou muito descarado, mas ignorou e foi em frente.

- Você quis chocar todo mundo?

- A professora perguntou no que eu baseava a minha interpretação, e eu respondi a verdade.  Por que, você acha que eu não devia ter falado que eu sou bissexual? - inclinou a cabeça de lado, baixando um pouco as pálpebras, esperando e desafiando.

-Não, bom, na verdade, eu achei meio desnecessário você declarar qual era a sua orientação sexual na aula, mas foi muito corajoso.  

-Desnecessário? Por quê? 

E agora ela estava sentindo as bochechas pegando fogo, completamente arrependida de ter ido atrás dele só para se enrolar toda.  Droga, droga.

-Bom, sabe, eu passei metade da vida tentando passar despercebida porque sou deste jeito que você está vendo, - e apontou para si- mas você vai e fala uma coisa dessas no meio da classe, como se não fosse nada demais. Quer dizer, eu não acho que seja nada demais, não tenho nada contra suas preferências, é bom deixar claro.  – ela foi baixando o volume, até calar de vez a boca.

Aquilo estava indo de mal a pior.

-Desculpe, de que jeito exatamente você é, - e a mediu outra vez bem devagar da cabeça aos pés, outra vez demorando-se mais nos peitos, - e eu deveria ter visto? - ele não parecia ter prestado atenção na sua patética tentativa de se manter politicamente correta.

- A questão não sou eu, é você.  Ou melhor, deixa prá lá, não existe nenhuma questão, foi besteira eu vir te incomodar, desculpe. – terminou de falar ao mesmo tempo esganiçada e sussurrando, querendo sumir e se virando para escapar, mas ele a pegou pelo braço e não a deixou sair de lá e procurar pelo buraco mais próximo para se enfiar.

-Espera aí, não foge.  

-Não estou fugindo.

-O quê, exatamente, eu tinha que ver em você, além de que você é muito gata?  Aliás, como você se chama mesmo? - e continuou segurando seu braço, se pondo de frente para ela e chegando mais perto, ao que ela foi se encolhendo e recuando até bater de costas na parede.  Mais um pouco e estariam se beijando.

Ela irritou-se, endireitou as costas e tentou empurrar o garoto pelo peito. 

-Escuta aqui, se meti meu nariz onde não devia, desculpe, não foi minha intenção. 

Ele não recuou um milímetro.  

-Você ainda não respondeu o que exatamente eu tinha que ter percebido em você, nem seu nome.

- Eu me chamo Maria Carolina.  

- Bom, Maria Carolina, - ele respondeu, e chegou ainda mais perto, quase encostando o nariz no dela, que se encolheu outra vez, e a essa altura as pessoas estavam olhando para os dois como se esperassem que eles fossem se pegar ali mesmo, - o que eu percebi é que você tem olhos incríveis, é linda e tem uns peitos maravilhosos.

E então a largou assim, sem mais nem menos, e saiu andando.

Ela foi atrás.

-É muita sacanagem sua tentar me fazer de boba.

-Eu não estava fazendo você de boba.  

-Claro que estava. Eu não sou linda coisa nenhuma. 

Ele parou e se virou para ela de novo.

- Não estou entendendo.

- Ah, qual é, as garotas da classe vivem me chamando de girafa magrela, falam do meu cabelo, todo mundo vive rindo disso, e você vem com essa de que eu sou linda?  

- O que eu vejo, eu já falei.  Se você dá bola para o que aquelas nanicas falam, você só pode ser idiota.

Deu mais uma olhada nela de cima abaixo, e saiu andando, mas desta vez ela ficou parada, olhando enquanto ele se afastava, e não conseguia acreditar que ele a tinha chamado de linda e idiota ao mesmo tempo.

No dia seguinte, ela foi se sentar ao lado dele na aula, o que não foi difícil, porque havia várias carteiras vazias em volta do garoto, provável efeito da declaração dele do dia anterior. Quando se acomodou, viu que ele estava olhando para ela, e o cumprimentou, dando uma piscadinha de olho.

- Oi, Bi.

- Não é Bi, é Gabriel.

- Gabriel, Gabi, Bi: depois de ontem, é Bi.

Ele riu, ela também.  Depois, ele ainda tentou dar em cima dela mais algumas vezes, mas logo desistiu, porque viraram amigos e ele rapidamente descobriu sobre a paixão platônica que ela nutria por Tiago, um garoto da mesma classe deles.

Tiago era muito calado, e não dava confiança para ninguém. Tinha olhos e cabelos escuros, era muito alto, muito forte, e não exatamente bonito, mas tinha muita cara de homem: todas as outras garotas também babavam por causa dele.

Carol se lembrava exatamente do primeiro dia de aulas, quando entrou na escola e o viu parado a alguns metros do portão, apoiado em uma parede: ele também a olhava, e ela não saberia dizer que impulso foi aquele que a fez caminhar e parar bem na frente dele, onde ficou encarando o menino, que a olhava com muita intensidade, mas sem dizer uma palavra sequer. Depois de alguns segundos assim, um de frente para o outro e mudos, ela pareceu acordar, virou-se e foi procurar sua nova sala de aula, absolutamente mortificada.

Depois desse dia, ela continuava olhando para ele, mas ele nunca mais pareceu notar que ela estava lá.

Para ser justa, ele nunca dava atenção para ninguém, nem para Rebeca, que era muito bonita e dava em cima dele o tempo todo. Mas para ela, Carol (como gostava de ser chamada, porque Maria Carolina era muito antiquado e comprido), depois daquele primeiro dia, ele sequer olhava casualmente, o que Carol achava até bastante compreensível de acordo com seu exercício diário de autocrítica implacável: tinha aquela cabeleira vermelha totalmente rebelde, olhos exageradamente grandes, nem verdes nem castanhos, mas amarelados, além de uma boca também grande demais. E o nariz ligeiramente torto para a esquerda. 

Não fosse o bastante, também tinha muito mais altura que peso.  Na verdade, era a menina mais alta não só da sua turma, mas da escola inteira: um metro e oitenta e cinco e muito magra, e era por isso que Tiago tinha chamado sua atenção de cara, já que ele media no mínimo um metro e noventa e cinco, sendo um dos poucos que a fariam olhar para cima se se dignasse a lhe dirigir a palavra.  

Juntando-se a isso os peitos muito grandes e sempre disfarçados em camisetas largas e compridas, o efeito era o de uma garota estranha para quem todo mundo olhava: viviam olhando para ela, especialmente nessa escola nova, o que ela ignorava estoicamente, passando reto, empinada em toda a sua altura, já que não ia adiantar nada andar curvada tentando disfarçar aquele tamanhão todo e os peitões (já tinha treinado na frente do espelho, e ficava ridículo).  

Melhor caminhar ereta e salvar um mínimo de sua dignidade.

Tinha estudado até o ensino fundamental em uma escola menor, e seu tamanho e magreza lhe renderam apelidos a infância toda. As esperanças de ter mais sossego na nova escola foram rapidamente aniquiladas por Rebeca, que, desde o primeiro momento em que pôs os olhos nela, iniciou uma rotina implacável de piadinhas referentes a pessoas altas, cabeludas e esteticamente desfavorecidas, sendo o xingamento preferido dela “girafa com peruca de leão”.

Naquela sexta-feira de junho, que parecia ser mais uma de muitas outras parecidas, as aulas correram lentas, veio o intervalo, e depois só precisavam assistir a mais duas aulas, matemática e física, e o final de semana chegaria.

A aula de matemática estava prestes a começar, e ela se distraía olhando para a nuca do Tiago, imaginando ociosamente se conseguiria fazer com que ele olhasse para ela só com a força do pensamento, até que a professora entrou e chamou a atenção de todos.  Ela então olhou para a frente, e seu queixo caiu, porque com a professora tinha entrado também um rapaz que só podia ser uma alucinação, mas afinal não era, porque Gabriel soltou um “Que é isso??” antes que seu queixo também caísse.  

Se ela tivesse tido a capacidade de olhar em volta, veria que todas as outras garotas também estavam de boca aberta e catatônicas, olhando para o garoto que a professora, também aturdida, apresentava para a classe.

-Pessoal, este é Júlio, aluno que acaba de ser transferido para a nossa escola. – ela falava enquanto olhava embasbacada para o rapaz, e, depois de uma pausa vexatoriamente longa, pigarreou para disfarçar, e lembrou-se de terminar o que ia dizer. - Júlio, por favor, acomode-se, e depois você se apresenta melhor para os seus novos colegas.

Enquanto ele ia se sentar, a professora continuou encarando o aluno novo com os olhos meio vidrados, até que pigarreou de novo e focou-se em apagar a lousa.

O garoto era absurdamente lindo; na verdade, muito mais que lindo, ele era praticamente sobrenatural.  Inacreditável.  Alto, gostoso, moreno, olhos azuis claríssimos e quase transparentes, um rosto forte e que parecia esculpido, de tão exageradamente bonito. Faltavam palavras para descrever a beleza daquele cara, que nem podia ser chamado de garoto, porque parecia mais velho que todo mundo ali, possivelmente já na casa dos vinte anos.

Tanta beleza não era normal. Carol pensou que ele necessariamente deveria ter algum defeito, como uma voz fina ou esganiçada, mau hálito, gagueira; talvez fosse tapado. Qualquer coisa serviria, porque não era possível alguém ser tão perfeito. 

Enquanto esses pensamentos passavam por sua cabeça, ele foi passando os olhos por toda a classe, até que a viu no fundão.  Então, sem tirar os olhos dos dela, andou sem pressa nenhuma até uma carteira vazia ao lado da sua, e a cumprimentou.

-Oi.  Posso me sentar aqui? 

Definitivamente o defeito não era a voz, que combinava perfeitamente com ele, um tipo de voz grave que entrava pelas orelhas, reverberava no peito, derretia o cérebro e aquecia todo o resto do corpo.  Voz de homem.  Nossa, mas que olhos ele tinha, pareciam de vidro, e ocorreu a ela que talvez algum deles fosse mesmo de vidro, o que seria o defeito necessário em tanta perfeição, mas ambos eram muito lindos e iguais; não, o menino definitivamente não era caolho...

-Ahn, oi, tem alguém nesta cadeira?... - ele teve que repetir a pergunta porque Carol tinha passado alguns segundos olhando fixamente o rosto do garoto, ainda com a boca lamentavelmente aberta.

Gabriel respondeu por ela.

-Não tem ninguém, pode se sentar.  A propósito, meu nome é Gabriel, e ela é Maria Carolina.  

O menino olhou para o Gabriel, e, se ela ainda não estivesse tão abobada, teria percebido que seu amigo de repente se aprumou na cadeira, parou de sorrir e fechou a cara.  O menino também parou de sorrir por um instante, mas ela estava tão abismada que não deu nenhuma importância para isso, e ele sentou-se lá, bem ao lado dela, que felizmente conseguiu fechar a boca.  

-Muito bem, peguem seus livros de exercícios na página 104 e resolvam a equação B da questão 8...

Carol se virou dura para a frente, decidida a não encarar mais o garoto, mas ele começou a cochichar com ela.

-Carol, se você puder deixar seu livro aberto mais no meio da sua mesa, eu agradeço, porque eu ainda não comprei os meus livros. – aí, ele arrastou a própria cadeira para mais perto da dela, que balbuciou incoerências sem conseguir achar a página correta, ao que Gabriel pegou o livro e o abriu, sibilando um “Francamente!”, enquanto lhe dava uma cotovelada.

A aula transcorreu de forma estranha, com os dois compartilhando o livro, ele a chamando de Carol com total intimidade, conversando sobre a resolução do exercício, se comportando como se não tivessem se conhecido naquele mesmo dia.  Na verdade, ele era muito simpático, e estava ignorando deliberadamente a maneira como todas as outras garotas olhavam para ele, além dos olhares enciumados de alguns dos meninos.  Gabriel, entretanto, continuava observando atentamente o garoto, claramente tenso e incomodado.

Estranhamente, até Tiago, que tinha aquele seu jeito desligado e reservado e não olhava nunca para ela, espiou um monte de vezes na direção deles. 

O sinal tocou, e Rebeca não perdeu tempo, rebolando na direção deles e cumprimentando apenas Júlio.

-Oi, sou a Rebeca.  Eu vi que só tinha carteiras vagas aqui no fundão, - e nesse momento franziu o nariz como se estivesse se referindo à fossa séptica da escola, - mas podemos colocar uma carteira para você lá na frente, e você pode se sentar perto de mim e dos meus amigos.  

Àquela altura, Tiago estava olhando abertamente para ela, Carol, e, de repente, ele se levantou e também estava indo para o fundão, sem tirar os olhos dela.  

Ela ouviu superficialmente a resposta de Júlio para Rebeca.

-Estou muito bem instalado aqui. Não vejo nenhum bom motivo para mudar de lugar.

Carol não estava dando conta de acompanhar tantos eventos simultâneos, então olhou para Júlio, que naquele momento a chamou, ignorando ostensivamente Rebeca, plantada lívida em frente a eles.

- Carol, você pode ir comigo depois das aulas até a livraria e me ajudar a comprar meus livros novos? – perguntou e estendeu a mão para colocar uma mecha solta dos seus cabelos para trás da sua orelha, demorando-se uma fração de segundo a mais naquele toque, ao que ela sentiu arrepios incontroláveis e estranhos.

Ao mesmo tempo em que ela reagia daquela forma esquisita ao toque do garoto, Gabriel se levantou e a pegou pelo braço, fazendo com que ela também ficasse em pé.

- Primeiro, ela se chama Maria Carolina, ninguém chama ela de Carol a não ser os amigos próximos, e não, não vai dar para ela ir com você, a gente tem outro compromisso agora. Vamos, anda, Carol.

Gabriel, enquanto juntava as coisas deles dois de qualquer jeito, estava olhando de forma abertamente hostil para Júlio sem que ela tivesse a menor ideia do motivo.

E eis que as coisas ficaram ainda mais absurdas, porque naquele instante Tiago tinha chegado ao fundão e estava parado bem na sua frente, falando com ela pela primeira vez desde que estudavam na mesma classe.  E também a chamando de Carol.

-Carol, posso levar você para casa hoje?

 E ficou lá, olhando firme para ela, ignorando todos os demais.  

Ela ficou muda, afogada naqueles olhos escuros, profundos e lindos, sem acreditar que ele estava falando com ela depois de tantos suspiros e devaneios nos quais ela ficava se imaginando em inúmeras situações com o menino, mas jamais em uma situação bizarra como a de hoje.  

Esqueceu-se de Júlio e daquela sensação estranha do toque dele, de Rebeca, parada lá e completamente ignorada por todos, e até de Gabriel, que ainda a segurava pelo braço, bem como alheia à classe toda, que assistia hipnotizada aos cinco ali, se encarando alternadamente, em óbvia tensão.

- Você certamente me ouviu convidando a Carol para ir comigo à livraria?

A resposta de Júlio, fria e em um tom desagradável, despertou todos eles.  Tiago se voltou devagar para o outro garoto, e deu um passo à frente, invadindo ostensivamente o espaço de Júlio.

- Ouvi, e daí? Quem resolve é Maria Carolina. – praticamente enunciou cada sílaba do nome dela, sem dúvida para enfatizar que Júlio não tinha permissão de chamá-la de Carol, e então olhou para ela outra vez. -  Então, posso te levar para casa hoje? - fez a pergunta em um tom que não admitia recusa, ao mesmo tempo dando mais um passo de lado para afastar Júlio, e a seguir tirou a mesma mecha rebelde de trás de sua orelha, passando a seguir seus dedos até seu queixo, muito perto dos seus lábios.  Tudo isso olhando seus olhos sem piscar.

Gabriel respondeu por ela.

-Toma, cara, leva ela pra casa agora. – e estendeu sua mochila para Tiago, que a jogou no ombro, pegou sua mão, e a puxou sem a menor cerimônia em direção à porta. 

Rebeca, que permanecia esquecida por todos, soltou um escandalizado “QUÊ????”.  Carol pensou vagamente que devia ser a primeira vez na vida que ela não era o foco das atenções, o que não a impediu de ficar lá para testemunhar os três garotos em pé no meio do fundão decidindo quem ia sair com ela da escola.

Enquanto isso, foi a vez de Gabriel ficar parado na frente do Júlio, com cara de poucos amigos e claramente disposto a barrar o caminho dele se ele decidisse seguir os outros dois, que nesse ponto já estavam a caminho da saída.  Na verdade, Tiago estava indo para a porta enquanto praticamente a arrastava, deixando todas as suas coisas esquecidas na própria carteira.

Foram interceptados na porta pela professora de física, que também se chamava Maria, mas era Maria Cecília, e que agora os fitava sem dizer nada por um tempo anormalmente longo, até que pareceu acordar e perguntou, seca:

- Aonde vocês dois estão indo?

Tiago respondeu na maior naturalidade.

- Para casa, Maria Cecília.

- Antes do final das aulas? 

Ele nem hesitou.

-  A gente tem que sair mais cedo hoje.

A professora não pareceu convencida.

- E por que, exatamente?

Como ele demorasse a inventar uma desculpa plausível, a professora apenas apontou para dentro da sala, ao que eles retornaram e se sentaram, mas desta vez Tiago enfiou uma cadeira e sentou-se entre ela e Júlio, que sibilou:

- Escuta aqui, você não se senta lá na frente?

Tiago o ignorou e ficou lá a aula toda, segurando a mão dela o tempo inteiro, sob o olhar assombrado da classe toda, que felizmente teve que manter silêncio, porque Maria Cecília, a professora, não era pessoa para brincadeiras.

 

 
 
 

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