top of page
Fabi Seppe (1).png
fabiseppe.com.br-logo
Image by Melanie Weidmann

CAPÍTULO 09 - Os grilhões se abrem.

  • 31 de mai.
  • 16 min de leitura

 

Júlio chegou à sua casa, e Marília não estava à vista em lugar algum, o que foi providencial, ou ela facilmente perceberia sua euforia.  Ele precisava de tempo para se recompor.

Sentou-se na sacada contemplando a paisagem tão urbana, cheia de construções, com tão pouca natureza entremeada; começou a meditar, olhando para os telhados e pensando na cidade, no país, continente, planeta, céu, galáxia, o universo; foi então além, até sentir que fazia parte de alguma coisa imensuravelmente maior.

Quando estava quase lá, lembrou-se do beijo. 

Começou tudo de novo, as casas, a cidade, o país...

Os olhos dela.

Casas, cidade... A mão dela na sua.

E então Marília estava atrás dele, e podia ver sua aura.

- Você anda saindo da linha.

Júlio suspirou, voltou-se e a encarou.

- Bom dia.

- Ouvi dizer que uma aura estranha apareceu onde não deveria.

- Eu sei.  Era a aura de uma garota daquela escola entediante.  Algum problema?

- A sua também está bastante diferente do usual.

Desconversou.

- Você sabia que ela estaria aqui, não sabia?

- Ah, sim, sabia.  Mas me esqueci de mencionar.

- Foi só um lapso, tenho certeza.

Os olhos dela brilhavam com um prazer perverso.

- Evidentemente.  Mas ainda não entendi a razão de você estar assim descontrolado, se era só alguém daquela escola entediante.

- Sabe, Marília, diferente de você, que só existe para destruir, eu sou um espírito de criação, Maria Cecília e eu fomos parte um do outro um dia, e vê-la sempre me abala. Mas claro que você não teria capacidade para entender o que é essa ligação.

- Ah, desta vez o nome dela é esse, Maria Cecília?

Ela adorava perturbá-lo.

- Sim, é Maria Cecília.  E, mesmo que eu esteja condenado a fazer o que vocês querem que eu faça, não significa que eu não sinta dor quando a vejo, mas você nunca entenderia, afinal, você só existe para destruir, e nunca sentiu nada, não de verdade, então não poderia ter a menor ideia do que significa vê-la e ter que ficar longe dela. – e agora viria o verdadeiro desaforo; saboreou o momento. - Mas é claro que eu jamais esperaria de você alguma coisa mais sofisticada, especialmente sendo você tão jovem e... vazia.

Por um segundo, ele viu nitidamente a ira e o despeito em sua aura, sem que a expressão dela se movesse um milímetro sequer.

- Sentir não significa sofisticação, significa egocentrismo e uma perda de tempo absolutamente irracional, porque tudo fatalmente se encaminhará para o esquecimento, e a unidade...

Ele a interrompeu.

- Por favor, pare com esse discurso idiota, eu já o ouvi demais, e já sei que você o decorou muito bem.  Parabéns.  Só o que eu quero é fazer o que eu preciso o mais rápido possível, e mais nada.  Ah, e me livrar de você, claro.  Por que mandaram você desta vez, e não alguém mais velho?  A intenção era me torturar mais do que o normal?

Desta vez ela realmente irritou-se: essa conversa de não sentir nada era só isso, conversa fiada.  Eles tentavam fingir, mas todos sentiam, e era ótimo, porque a raiva dela o estava fazendo esquecer a sua.

- Eu não sou nova.  Eu estou aqui há quase sete mil anos.

- E os primatas estão por aqui já faz uns sessenta milhões de anos.   Não que eu me orgulhe disso, mas eu me pendurava em árvores muito, muito, muitíssimo antes de você surgir com o único objetivo, ao que parece, de me aborrecer.

- Estamos no mesmo universo desde sempre.

- E em lados completamente opostos.  Além disso, quando eu já era antiquíssimo e poderoso, você ainda era só um monte de poeira circulando por aí, sem objetivo nenhum, a não ser, talvez, ser algum cisco que entrou no meu olho, o que seria igualmente irritante, mas totalmente esquecível.  Sete mil anos para mim são sete milionésimos de milionésimos de milionésimos de segundo para alguém como você.

- Você é tão arrogante.

- E você é um pé no saco.

- Ah, que vulgaridade.  Esta época já o contaminou?

- Já: é assim que pessoas de dezenove anos se comunicam com os idiotas hoje em dia.

- Você é patético.

- E você sempre será um pé no saco.  Com licença.

E a largou lá: desta vez ela estava com MUITA raiva. 

Ótimo.  Não entendia o prazer que essa garota tinha em lhe aborrecer. 

Era o cúmulo terem-na posto para vigiá-lo.  Pouquíssimas vezes algo assim tinha ocorrido, e, sempre que algum deles ficava por perto, ao menos era alguém muito mais antigo e com quem se podia conviver civilizadamente, não uma pirralha idiota que não perdia a oportunidade de irritá-lo.

Foi para seu quarto pensando que precisava realmente arrumar alguma garota naquela escola como álibi para a aura de Maria Cecília, quando lembrou-se daquela festa junina idiota: melhor ir até lá e resolver a questão.

 

***

 

Gabriel e Miguel estavam caminhando felizes para a casa de Carol.

- Quem é essa sua amiga, Gabs?

- É a minha melhor amiga.  Na verdade, é a única amiga que eu tenho na escola.

- Que esquisito. Você sempre foi amigo de todo mundo.

- Na primeira semana de aula eu não sei bem o que me deu, mas dei um jeito de informar pra todo mundo que eu sou bissexual, aí ficou mais difícil arrumar amigos.

Miguel o olhava de testa franzida.

- Essa história de ser bissexual é séria?

- É.  Eu nunca tive problema em ficar com garotas.  E você também não, pelo que eu me lembre.

- Eu só fiquei com aquelas garotas na escola porque estava com medo de você perceber que eu queria você, mas nunca me empolguei de verdade. 

- Você nem acha nenhuma mulher assim, gostosa?

- Acho bonitas, mas só.

- Um purista.  Muito bem.  Elimina cinquenta por cento da concorrência.

- Nesse caso, quem tem que se preocupar sou eu, já que eu concorro com o dobro da população?

- É só você continuar me pegando igual a hoje, e estamos de boa.

Andaram mais um pouco, e então Gabriel lembrou-se de contar a Miguel a razão de estarem indo à casa da Carol.

- Miguel, deixa eu explicar o que a gente está indo fazer na casa da minha amiga.  É meio doido.

- Doido?

- Sinceramente, até agora eu acho que aquilo não deve ter acontecido de verdade, mas o negócio é que, ontem...

Contou tudo, ele ouviu tudo calado, não interrompeu nenhuma vez.

- Você acha o quê disso tudo, Miguel?

- Estranho é mesmo, mas, por outro lado, por que a mãe da sua amiga ia armar uma brincadeira dessas?  Como ia sumir com a luz e depois fazer vocês voltarem para dentro da casa só chamando?

- Até eu, que estava lá e vi, acho difícil de acreditar.

- Ah, não sei, tem tanta coisa inacreditável que acaba acontecendo. 

Afinal chegaram.  Como sempre, tudo aberto, foram entrando, mas deram de cara com um homem desconhecido na varanda que, quando os viu, parecia ter avistado dois fantasmas.

 

***

 

Miguel olhou para o homem, estacou e deu dois passos para trás, puxando Gabriel pelo braço. 

- Quem é você?

- Meu nome é Pedro. 

Gabriel se pôs à frente dele.

- Você pode chamar a Carol, por favor?

O homem, que estava pálido e muito esquisito, concordou, sem mais comentários.

Assim que ele entrou na casa, Gabriel virou-se para ele.

- Não gostei desse cara aqui, na casa dela.

- Nem eu.  De repente me deu vontade de sair correndo daqui com você. 

- Eu falei para você que tudo isso era fora do normal.  Depois da conversa de ontem, está tudo muito estranho.

Em seguida apareceu uma menina linda de morrer, acompanhada de um cara enorme, e ela foi logo se pendurando no pescoço do Gabriel.

- Oi, minha linda, que foi? – Gabriel a afastou um pouco, olhando para ela preocupado.

A garota também estava pálida e abatida.

- Hoje de novo aconteceram umas coisas muito estranhas comigo e com o Tiago, até passar mal a gente passou, foi muito ruim, ele e eu acabamos desmaiando, e agora a minha mãe quer conversar com a gente. Ela meio que levou uma bronca do Pedro, esse cara que vocês encontraram, porque ela conversou com a gente ontem e mostrou aquelas coisas.

- Quem é esse cara que foi chamar vocês?

Tiago puxou a menina, a abraçou e respondeu.

- Oi, Gabriel.  Ele diz que conhece a Maria Lúcia. - ele dirigiu-se então a Miguel. -Desculpe, você quem é? – o grandão apertava a menina protetoramente.  Ela estava mesmo com cara de quem podia cair dura a qualquer instante.

Gabriel respondeu por ele outra vez.

- Este é o Miguel, meu namorado.

- Namorado?  Como assim? – o espanto fez a garota recuperar um pouco da cor.

- É uma história muito comprida, ficamos um tempo sem nos ver, mas hoje ele apareceu lá em casa, e a gente está retomando as coisas.  Eu conto tudo depois, mas agora eu quero saber quem é esse Pedro, e o que ele tem a ver com essa história toda.

Miguel não gostou de saber que a suposta melhor amiga não tinha nem ouvido falar dele.

- Muito prazer, sou o Miguel.  Eu já ouvi falar de você.

- Desculpe a situação esquisita, mas você não tem ideia do que virou a minha vida de ontem para hoje.  Este é o Tiago, meu namorado, que estuda comigo e o Gabriel. Mas vamos lá para a cozinha ver o que ele quer falar.

 

***

 

Maria Cecília estava sem dor, já na escola, enfeitando sua barraca de Correio Elegante, quando Vera, a professora de português, veio falar com ela.

- Maria Cecília, você viu algum aluno do segundo ano?

- Ainda não. – ao menos um deles ela tinha certeza de não ter visto na escola. – Por quê?

- Porque o Gabriel e a Rebeca, que deviam me ajudar na barraca da pescaria, ainda não chegaram, e já deveriam estar aqui faz tempo.  Os outros alunos estão ocupados, e eu fiquei na mão.

- A minha já está mais ou menos encaminhada: eu deixo os meninos aqui terminando e vou lá te ajudar até chegar alguém.

- Ah, obrigada. 

Estavam caminhando para o outro lado do pátio, passando próximo ao portão, quando Júlio entrou, e Vera imediatamente o viu.

- Menino, venha cá, qual é seu nome mesmo?

- Júlio, professora.  Bom dia.

Vera, quando Júlio virou-se e a encarou, ficou momentaneamente sem fala, depois começou a gaguejar.

- Hum, sim, maravilhoso, quer dizer, excelente.  Excelente. Ahn, por favor, venha conosco, temos que arrumar a barraca da pescaria, isso, e, hum, e estamos precisando mesmo de alguém, sabe, assim, alto, como você...

- Com todo o prazer. – por que ele ficava olhando daquele jeito para ela, sem nem piscar? 

- Vera, eu vou voltar para a minha barraca, então. – ela ainda tentou escapar.

- Ah, não, Maria Cecília, vem com a gente também, eu estou realmente muito atrasada na minha.

Sem argumentos, ela foi andando na frente para não ter que olhar para ele.

Chegaram a uma pilha de estacas e prateleiras, e Vera, que era muito mandona e parecia recuperada do choque de ver o quanto Júlio era absurdamente lindo de perto, já foi distribuindo as tarefas.

- Você e o Júlio podem começar a montar a barraca, enquanto eu vou buscar a piscina de plástico para encher de areia.

Maria Cecília ignorou a presença dele, abaixando-se para pegar as instruções de montagem, mas ele se adiantou e pegou primeiro.

- Sua dor melhorou.  Que bom. – não era uma pergunta, portanto, ela não respondeu nada. Puxou o papel da mão dele sem a menor cerimônia, e ficaram os dois lá, ela fingindo que estava lendo as instruções, mas na verdade sem enxergar uma letra sequer, e ele já começando a pegar estacas e prateleiras sem nem ter olhado o papel.

- Não mexa nisso antes de a gente saber por onde começar, por favor.

Ele já estava encaixando coisas.

- Confie em mim, eu monto isto aqui muito mais fácil deste jeito.  Não preciso de nenhum manual.

E ele foi pegando tudo sem muito método, mas a estrutura retangular de um dos lados da barraca já estava quase em pé.

- Maria Cecília, você apoia aqui para eu colocar as partes do outro lado?

- Professora Maria Cecília.

Era impressionante ver a facilidade com que ele estava encaixando tudo aquilo.  Em quinze minutos, tinha concluído dois lados, com a ajuda dela apoiando as peças, e já estava começando o terceiro lado.

- Onde você aprendeu a montar isso tão rápido?

- Já nasci sabendo.  Que bom que você está falando comigo. – ele estava segurando duas barras e fazendo força para encaixar uma na outra, suado e lindo.

Que horror.  Pensar em um aluno dessa forma era um horror.  Começou a olhar para todos os lados menos o dele para disfarçar, e percebeu que todas as mulheres ao redor, de todas as idades, estavam olhando na mesma direção, hipnotizadas por aquela visão.

Francamente.

- Acho que você não precisa mais de mim.  Vou voltar para a minha barraca.

- Maria Cecília.

Ela parou onde estava, mas não olhou para ele, fingindo que estava muito interessada na porta do banheiro feminino.

- Professora Maria Cecília.

- Olha pra mim. – ele falou naquele tom de voz que ela estava começando a reconhecer como irresistível.  Droga. 

Ela acabou olhando.

- Qual é a sua barraca? – ele disse aquilo passando o braço na testa, para enxugar o suor, e começou a tirar o casaco, mostrando que por baixo dela vestia uma camiseta branca justa demais.

- Oi?

- Qual barraca é a sua? – se ele percebeu o efeito que estava causando, não demonstrou.

- Correio Elegante.

- Vou encomendar vários hoje. – e olhou para ela daquele jeito, sem piscar, parecendo que queria entrar pelos olhos dela, que só saiu do transe quando ouviu chamarem seu nome.

- Professora? Encontrei a Prô Vera, e ela mandou eu vir aqui ajudar a montar a barraca de pescaria.

Ela virou-se, e era Rebeca, linda, popular e irritantemente jovem. A garota até estava falando com ela, mas olhava fixamente para Júlio, que agora estava se esticando todo para encaixar uma estaca mais alta, o que permitia que se visse um pequeno trecho da barriga dele, que é claro que era perfeita.

- Ah, sim, isso mesmo.  Ahn, o Júlio está terminando de montar a estrutura, a gente precisa ver o que a Vera quer em seguida, mas acho que eu não preciso mais ficar por aqui.  Vou voltar para a minha barraca.

E saiu de lá sem olhar mais para o garoto, seu aluno, mil anos mais novo que ela, para quem, aliás, ainda estavam todas as outras olhando, inclusive a diretora, que devia ter quase sessenta anos.

Não estava entendendo por que estava tão irritada, mas possivelmente era porque poderia estar agora na sua casa, dormindo na sua cama, aproveitando a manhã de sábado, ao invés de estar fazendo horas extras no trabalho, organizando barracas de festa junina, e vendo absolutamente todas as mulheres presentes babando por um aluno do segundo ano do ensino médio, tanto quanto ela própria.

Droga.

 

***

 

Depois que Maria Cecília foi embora, Júlio decidiu que aquela garota seria a pessoa perfeita para dar um jeito de justificar a aura que vinha aparecendo através da dele.

Quando finalmente terminaram de montar a barraca, ele o tempo todo só dando ordens para Rebeca e tocando nela casualmente sempre que possível, ela já estava completamente frustrada, envolvida e irritada, especialmente pelas inúmeras tentativas infrutíferas de chamar a atenção dele.

Uma vez que tinham terminado, achou que já podia mudar de tática.  Certificou-se de que Maria Cecília não estava mais à vista, e chegou perto dela.

- Você está toda suada. –passou de leve os dedos pelo pescoço da menina, onde havia algumas gotas escorrendo.  Ele tinha mesmo feito a garota suar, mandando que ela pegasse coisas e o ajudasse a pô-las no lugar, tudo isso muito rápido.

A aura dela clareou.

- Você me deu muito trabalho. – ela soou provocante; não devia estar acostumada a ser controlada, e subitamente ele se sentiu mal por estar fazendo aquilo com ela, mas não tinha alternativa.  Se não fizesse, Marília ia lhe causar muitos problemas.

Deixou os escrúpulos de lado e foi em frente.

Subiu os dedos pelo pescoço da menina, passando pelo rosto, e enxugando com eles o suor que porejava delicadamente a testa da garota, sem tirar seus olhos dos dela.  Ela era mesmo muito linda, e não era nem um pouco desagradável fazer aquilo. 

Ele a pegou pela mão.

- Vamos até a cantina, quero levar você para descansar e tomar alguma coisa.  Você deve estar com sede. 

Eles foram até o outro lado das quadras, quase no final da escola; ele pediu duas águas e a levou para um jardim meio escondido onde não poderiam ser vistos.  Sentou-se na mureta de um dos canteiros, e ficou bebericando a água, sem dizer nada. 

Ela, sem a menor cerimônia, virou-se e se acomodou entre as pernas dele, recostando as costas no seu peito, em seguida puxando os cabelos de lado e expondo a nuca, onde viu uma rosa vermelha tatuada.

- Você sempre cansa as garotas assim, Júlio?

Quase dava para sentir o sorriso safado dela nas palavras. 

- Depende.

- Do quê?

- Do quanto vai valer a pena.

- Comigo valeu?

Contrariado, ele percebeu que ela também estava mexendo com ele.

Contornou de leve a rosa do pescoço dela com os dedos.

- Você já é maior de idade, para ter uma tatuagem?

Ela estava toda arrepiada.

- Eu faço o que eu quero. 

Ele desceu da mureta e aproximou a boca da orelha dela.

- E o que mais você anda fazendo porque quer, mas não devia?

A garota virou-se e olhou para ele com aqueles olhos lascivos.  Ela definitivamente era isso, uma criatura lasciva.  Daqui a pouco ele ia acabar esquecendo que aquilo era só um disfarce, e ia agarrar a menina com todo prazer.

- Deve ser o que você também quer fazer comigo.

E aí foi ela quem o beijou, enlaçando seu pescoço de repente e o pegando de surpresa; a garota era muito gostosa (Marília tinha razão, a época já o tinha contaminado), e ele se viu descarregando no beijo toda a frustração que estava nele desde que encontrara Maria Cecília, e fingiu que era ela quem ele beijava.

E então ele sentiu que ela de fato estava lá, porque foi engolfado por uma descarga elétrica muito peculiar, que havia séculos ele não sentia. 

Descolou sua boca da boca da menina e a puxou instintivamente para um abraço ainda mais apertado, para protegê-la, mas sentiu que Maria Cecília tinha recuado. Ergueu os olhos e é claro que a viu perto dos banheiros, olhando diretamente para onde eles estavam se agarrando havia pouco.

Imaginou se ela teria percebido o que tinha chegado tão perto de fazer, mas ela se virou e foi embora.

Ele sentiu um alívio enorme por ela ter conseguido se controlar e sair dali, ao mesmo tempo em que teve vontade de correr atrás dela e dizer que nada daquilo tinha importância, mas conteve-se.  Melhor deixar que ela fosse. 

Fechou os olhos, e afundou o rosto nos cabelos daquela menina, e o perfume dela, que o tinha excitado tanto apenas alguns instantes atrás, agora só o enjoava.

Rebeca, entretanto, não percebeu nada, o rosto pousado em seu peito, e ele se deu conta de que a aura dela estava brilhante e entrando pela dele, exatamente como planejado, mas por que Maria Cecília tinha que ter aparecido bem naquela hora?

 

***

 

Depois que deixou os dois garotos sozinhos entretidos com a montagem da barraca, arrependeu-se imediatamente, o que era inadmissível: ela era a PROFESSORA deles, e não tinha o menor cabimento começar a imaginar ou desejar coisas impossíveis, por mais que ele mexesse com ela, nem sentir ciúmes de uma aluna.  E, tão rápido quanto pensou naquela palavra, tratou de empurrá-la bem fundo no cérebro.

Grotesco, patético, inimaginável.

Começou a pendurar bandeirinhas maquinalmente, apenas para se ocupar e parar de pensar bobagens, e lá estava ela outra vez, aquela dor de cabeça infernal. Largou tudo e resolveu sair de lá para respirar melhor.  Como é que ela podia estar desse jeito apenas um dia depois de ter conhecido Júlio?

Achou melhor ir ao banheiro se refrescar um pouco, mas teve preguiça de ir até o andar de cima do prédio onde ficava o banheiro dos professores; era mais fácil ir até aquele perto do jardim, e depois poderia ficar por lá um pouco e tentar fazer a dor diminuir.

Estava quase lá, quando viu os dois debaixo de uma árvore, meio escondidos e colados um no outro.

A princípio, ela não soube identificar o que era aquilo que tinha surgido subitamente bem na região do seu diafragma, enquanto olhava para os dois se engolindo.  Morbidamente fascinada, continuou a olhar, e aquela sensação horrível estava agora saindo de dentro dela, se expandindo junto com a sua própria aura, que estava totalmente tingida de vermelho vivo.  Parecia que ela estava sangrando por todos os poros, mas, de alguma forma, aquela coisa bizarra começou a concentrar-se, como se estivesse tomando impulso.

Mais sentindo que pensando, mandou aquilo em direção a eles, com uma força que nem sabia que tinha, mas, uma fração infinitesimal de segundo antes de tocá-los, puxou tudo de volta.

Foi então que ele interrompeu o beijo, e olhou diretamente em seus olhos.

Repleta daquele poder que tinha forçado para dentro de si, apenas deu meia volta e tratou de sair pelo portão da escola, sem rumo.

 

***

 

Pedro sentou-se à cabeceira da mesa da cozinha, enquanto os demais se acomodavam. 

Tiago o observou enquanto ele olhava Gabriel e o namorado, parecendo que estava sentindo um gosto muito ruim na boca.  Em seguida, começou a falar.

- Eu estou aqui porque precisamos esclarecer melhor o que Maria Lúcia começou a contar para vocês ontem. 

Ele olhou para cada um, continuou.

- Vocês entenderam sobre as partículas que surgiram quando o Universo explodiu no Big Bang.  Esse termo, partículas, pode não dar a medida exata do que elas são realmente. Poderia parecer que são apenas grãos de poeira, fragmentos disformes, mas não são: elas replicam o universo como ele era antes da explosão.  Surgiram à imagem e semelhança dele. 

Tiago ouvia calado, e estava se perguntando por que parecia que a imagem de Pedro estava distorcida, como se ele o visse através de uma lente desfocada.

- Essas partículas têm tanta consciência quanto o Universo tinha antes delas, e, portanto, fazem escolhas.  Aqui neste planeta, onde as condições foram favoráveis, decidiram criar a vida, e, a certa altura, esses seres vivos passaram a deixar uma marca indelével mesmo após morrer, o que vocês chamariam de alma, ou espírito. Esses espíritos sempre retornam, assim que surja outro corpo com vida para habitar.

Tiago podia jurar que o contorno do rosto de Pedro estava desfocando de verdade. 

- O primeiro espírito de um ser vivo de que nós temos conhecimento sequer é de um ser humano, é de uma árvore milenar que ainda vive na África.  Aquele espírito está aqui há milhões e milhões de anos, e faz muito tempo que sempre volta como uma árvore de vida muito longa. 

- Certo, muito interessante, mas o que isso tem a ver conosco? - Gabriel o interrompeu, brusco, e Pedro respondeu sem muita paciência.

- Tem tudo a ver com vocês, que já voltaram mil vezes, quase sempre morreram jovens, mas continuam tomando as mesmas atitudes temperamentais: seria melhor me ouvir, e quem sabe vocês param de ter o mesmo destino de idiotas que não conseguem aprender nada.

Tiago, que estava ocupado esfregando os olhos para ver se a imagem embaçada de Pedro não seria um problema seu, de repente enxergou tudo cor de sangue ao redor de Gabriel, que levantou-se e enfrentou Pedro.

- Você não ouse nos chamar assim.

 Pedro não se intimidou.

- Idiotas, sim.  Neste momento mesmo você está prestes a jogar o fogo do inferno sobre mim, e nem tem consciência do motivo. 

- VÁ SE FODER!

Depois disso, foi mesmo o inferno, e Tiago só conseguiu abraçar Carol e tentar proteger o corpo dela com o seu.

 

***

 

Pedro não estava preparado quando os viu chegar de repente, e errou ao achar que poderia falar com eles calmamente à volta de uma mesa. Gabriel estava prestes a explodir a casa inteira, provavelmente até uns dois ou três quarteirões, só por estar com ele no mesmo recinto.

Melhor eles lembrarem logo.

Ergueu os braços, bloqueou a aura dele, invocou o vento, tirou-os todos do chão, impediu-os de se moverem ou gritar, e entrou em suas mentes, abrindo os grilhões que os impedia de lembrar.

 

 

 

 

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
CAPÍTULO I - Quando todos se encontram.

Afinal, a sexta feira. Maria Carolina levantou-se no último minuto possível e foi para o banheiro, onde olhou criticamente seus cabelos vermelhos, que, como sempre, estavam revoltos nas mais variadas

 
 
 
CAPÍTULO 2 – As fotos de Tiago.

Ele provavelmente estava encrencado, mas ia pensar nisso só depois. Se ainda não podia ir embora de lá com Maria Carolina, aquele cara também não ia chegar perto dela de jeito nenhum. Ele não tinha

 
 
 

Comentários


bottom of page