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Image by Melanie Weidmann

CAPÍTULO 1 - Sete mil, duzentos e vinte e dois anos atrás.

  • 29 de mai.
  • 11 min de leitura

Hanuman já percorria aqueles territórios fazia perto de mil e quinhentos anos, descobrindo quem tinha poder, ensinando como usar, perpetuando o conhecimento, mas sempre, infalivelmente, surgiam os escuros querendo acabar com tudo. 

Claro que ele podia com todos eles, mas não tinha como estar em vários lugares ao mesmo tempo. Havia muitas lutas nos locais onde existiam pessoas com poder, e nem sempre acabavam bem, exatamente como naquele povoado ao qual ele acabara de chegar: era justamente o primeiro ao qual ele retornava depois de tanto tempo, e o encontrava devastado. Tinham queimado até a árvore anciã, porque eles nunca se apiedavam de nada, nunca deixavam nada para trás.

Seria um mau presságio, se ele acreditasse neles. 

Não havia muito tempo que tudo tinha acontecido: ainda havia o cheiro forte de fumaça no ar. Talvez, se ele tivesse chegado apenas um pouco antes, pudesse ter mudado aquele desfecho, e mais uma vez ficou imaginando se não estaria na hora de ensinar mais alguns deles a se tornarem imortais; por outro lado, era um fardo tão grande que não sabia se teria a coragem de tornar outras pessoas naquilo que ele se tornara.

Quando encontrara Dil novamente, depois daquele dia que mudara sua vida para sempre, ou melhor, a tornara para sempre, já tinham se passado quatrocentos e oitenta longos anos, tempo suficiente para ele saber como era difícil; não a lembrou de quem era e nem lhe ensinou como tornar-se imortal.  Depois disso ainda a encontrou mais algumas vezes, mas ela nunca se lembrou de nada, e permaneceu envelhecendo, partindo e voltando, como sempre deveria ter sido.

Mil e quinhentos anos. Hanuman tornara-se formidável, e muito sozinho.

Estava quase dando meia volta, lamentando não ter chegado antes, quando sentiu um golpe pelas costas, mas não forte o suficiente para mais que fazê-lo tropeçar.  Virou-se, e viu alguém se escondendo atrás de um monte de pedras.

- Quem é você?

Silêncio.

- Não precisa se esconder, eu não estava com as pessoas que fizeram isso.

Outra tentativa de derrubá-lo o atingiu, ainda menos forte.

- Pare de me golpear, você só está perdendo energia. Eu quero ajudar. 

Aproximou-se das pedras e apontou dois dedos na direção delas, que começaram a sair, uma a uma, bem suavemente, para não assustar nem machucar quem estava se escondendo.  Quando já tinha feito voar metade delas, viu que era uma mulher, caída, ofegante, quase desacordada, sangrando na cabeça e na barriga. 

E era também uma escura.

Eles nunca deixavam nenhum dos seus para trás, especialmente ainda vivos, a menos que fosse porque faltava pouco para que morressem, e as cores dela estavam desvanecendo lentamente, indicando que seu fim estava próximo. 

Hesitou dois segundos antes de decidir que não ia deixar que ela morresse, já que, na pior das hipóteses, poderia fazer perguntas a ela depois.  Invocou seu poder, direcionou-o a ela, que aos poucos foi respirando mais regularmente, suas cores parando de se apagar, tudo lentamente voltando ao normal. 

Resolveu carregá-la dali para alguma gruta próxima, já que precisavam abrigar-se até que ela estivesse melhor e em condições, embora não pudesse dizer condições de quê: provavelmente ela resistiria e não diria nada, acabariam lutando, e ele ia ser obrigado a matá-la de qualquer forma.

Mas, que fosse.  Havia muita diferença entre matar no meio de uma luta e apenas deixar alguém morrer indefeso.

Achou uma gruta, deitou-a e acendeu fogo, e a seguir invocou água, que começou a jorrar cristalina da rocha.  Bebeu e comeu o que havia em seu alforje, e recostou-se também para dormir um pouco.

Após adormecer, surpreendeu-se por entrar nos sonhos dela sem ter pretendido.  No sonho, ela estava recostada no fundo da gruta, olhos muito abertos, encolhida e alerta.  Só o fitava, não se movia, e não parecia que iria dizer qualquer coisa.

Ele queria fazer perguntas, não queria?

- Qual seu nome?

- Priora.

Tinha a voz suave e agradável.

- Priora.  Por que você foi deixada para trás?

- Não vai me dizer seu nome?

- Eu faço as perguntas.

- Por quê?

- Porque eu estou em posição de perguntar e você de responder, e não o contrário.

Ela olhou ao redor, para si, e depois para ele novamente.

- Não vejo motivo.

- Eu a resgatei, e você está em meu poder.

Ela sorriu de leve.  Era um sorriso muito bonito.

- Não neste sonho.

- Especialmente neste sonho.

- Os sonhos são território livre.

- Não são para mim.

Ao ouvir aquilo, ela ficou subitamente alerta e reservada.

- Não existe poder nos sonhos.

Ele sorriu, estendeu a mão direita em direção a ela, ergueu-a do solo levando-a em direção ao teto da gruta, e fez brotar mais água, que a encharcou completamente, enquanto ela gritava espantada.

Depois, enquanto a descia, a fez secar até a última gota, e devolveu a água à terra.

Ela nem bem tinha tocado o solo e gritou o nome dele.

- Você é Hanuman!

Aquilo o pegou completamente desprevenido. 

- Por que você me chamou assim?

- Você é Hanuman, não é?

- Onde você ouviu esse nome?

- Onde todos ouvem.  Mas nunca nenhum de nós teve certeza de que você era real.

Como os escuros teriam ouvido falar dele, se ele nunca deixava nenhum vivo?

- Eu sou real, mas meu nome é meu, Priora.  Diga onde você ouviu o nome de Hanuman.

- Se eu lhe disser onde ouvi seu nome, você vai me responder perguntas também?

- Não.  E não lhe disse que esse é o meu nome.

Ela só sorriu e recostou-se outra vez na parede.

Que mulher interessante. 

-Muito bem.  Responda as minhas, e eu verei o que eu posso fazer pelas suas.

Ela sorriu outra vez.

- Todos os escuros já ouviram seu nome, e todos conhecem seu enorme poder: por isso, todos que querem destruir o poder temem seu nome.  E só Hanuman poderia estar agora em um sonho falando com alguém como eu, depois de fazer o que você fez dentro do meu sonho.  Não existe poder em sonhos, Hanuman, a menos que seja você.  Que seja tão antigo como você.

- Um antigo como eu?

- Um deus como você.

- Deus?  De onde você tirou isso?

Ele deve ter estampado toda sua surpresa em seu rosto, porque um brilho especulativo iluminou os olhos dela.

- Ora, será possível que você não saiba?

- Não saiba o quê? – estava começando a se irritar com as evasivas dela.

- Que Hanuman é um deus poderoso, sábio e imortal, e que por todos os lugares onde ele já passou todos aguardam seu retorno, pedem por ele em orações, pedem por sua proteção e sabedoria, não importa há quantos séculos tenha sido a sua passagem.

Que maluquice era aquela agora?

- Não tenho ideia do que você está falando.

Ela sorriu, duvidando.

- Então você nunca tinha ouvido falar que esse nome está em todas as orações destes territórios há muitas gerações? 

- Imagino que de onde eu venho esse nome não seja assim importante.

- Não existe nenhum lugar onde esse nome não seja importante.  Mas você sabe dos escuros: você falou de nós, eu ouvi.  Não existe como saber dos escuros e ignorar Hanuman.  Nós vamos aonde o nome dele está.

Não sabia o que dizer.

- Esse nome é só um nome. 

- Esse nome tem poder, e eu não ousaria inventar algo assim.

Como ele permanecesse calado, ela completou.

- A menos que o próprio Hanuman, que nunca passou pelo mesmo local duas vezes, não saiba o que deixou após a sua passagem?...

Ela então começou a rir.

- Ora, eu não consigo acreditar, você passa pelos lugares, não volta, se torna a divindade de todos eles, e não tem a menor ideia disso...

E riu ainda mais, perdendo o fôlego completamente, enquanto ele assistia , confuso e impotente.

Afinal ela parou de rir.

- Não imagino qual a graça.  E não sei por que você tem tanta certeza de que eu seja Hanuman.

Ela enxugou algumas lágrimas da face, e dignou-se responder.

- Mas é claro que você só pode ser um imortal.  Talvez não Hanuman, mas nunca ouvimos falar de outro.  Nenhum mortal teria poder dentro de um sonho: você é imortal, não é?

Ele ignorou a pergunta, ela repetiu.

- Então, imortal, você é Hanuman, o sábio que ignora a própria fama, ou existem outros?

Aquilo o irritou além dos limites. Ele tinha planejado descobrir sobre a mulher, não o contrário.

Precisava pensar.

- Pare de sonhar agora, Priora.

Com isso, ela imediatamente fechou os olhos e adormeceu no sonho.  Ele só a acordaria quando desejasse, portanto, estava seguro de que podia descansar e refletir com calma até despertá-la novamente e perguntar o que quisesse saber.

 

***

 

Após quase um dia inteiro dormindo, Priora já estava com suas cores intensas e vívidas, e Hanuman decidiu que já era hora de deixá-la despertar.  Entrou novamente em seu sonho, e lá estava ela, ainda adormecida, então soprou suavemente seus olhos, e, antes que ela os abrisse, saiu dos sonhos dela e aguardou.

Não demorou muito, ela abriu os olhos devagar, respirou fundo, espreguiçou-se e sentou-se. Ao vê-lo ali, não se abalou.

- Olá. Dormi muito tempo?

- Quase um dia inteiro.

- Obrigada por me tirar do frio.

Não esperou convite, ergueu-se e foi em direção à fogueira, servindo-se da comida.  Ela era alta, cabelos muito longos, muito bonita, os olhos da cor do gelo, como todos eles os tinham.  Os escuros sempre eram muito bonitos. 

- Você me salvou de morrer, não foi? – ela perguntou.

Ele assentiu.

- Obrigada.  Por que você fez isso?

- Coma.  Depois falamos.

Enquanto comia, ela o olhava com muita atenção, e ao terminar continuou olhando para ele, com a testa franzida.

- Você sempre oculta as suas cores assim?  Ou você não tem cor nenhuma?

- O que mais você pode fazer, além de ver as cores e golpear à distância?

- Eu perguntei primeiro.

- Responda, Priora.

- Eu não vou...

Hanuman não esperou para ouvir o que ela não faria, erguendo seus dedos novamente e a fazendo calar, a imobilizando.

- Agora ouça.  Você perguntou por que eu salvei você: salvei porque quero fazer perguntas.  Você perguntou se eu sou Hanuman: eu sou Hanuman.  Você achou engraçado eu não saber que por onde passei oram pela minha volta e sabem sobre o meu poder, mas a resposta é simples: comecei a voltar há bem pouco tempo para onde já passei, esta aldeia que vocês destruíram foi a primeira que eu visitei novamente, e eu não tinha ideia que o efeito causado por mim havia sido esse nos lugares onde eu já estive.  E, sim, eu sou imortal, Priora, e sou muito poderoso.  Muito, muito poderoso, como os escuros que já cruzaram meu caminho tiveram a oportunidade de descobrir antes que eu acabasse com cada um deles.  – ele fez uma pequena pausa para criar um certo impacto dramático. - Agora, preste bem atenção: eu só quero ouvir respostas suas, portanto, apenas responda e não pergunte mais nada, ou eu mostro para você o que eu posso fazer antes de acabar com você também.

Estalou os dedos, ela voltou a se mover, mas ficou calada.

- Excelente. Agora você entendeu.  Responda: por que vocês destruíram esta aldeia?  Vocês sabiam que eu estava vindo para cá?

- Ninguém nunca sabe onde você está. Ter atacado esta aldeia foi coincidência.

Ele refletiu um pouco: fazia sentido.

- Vocês pretendem atacar mais alguma próxima daqui?  Quando?

- Claro.  Mas não logo.  Nós também temos que nos recuperar.

- Recuperar de quê?

Ela sorriu.

- Vocês não são tão fáceis de matar.  Aqui havia muitos antigos com poder. 

Ele olhou longamente para ela.

- Por que vocês fazem isso?  Por que vocês destroem os antigos e todos os outros?

Ela também demorou a responder. 

- É complicado.

- Vocês matam, mas acham complicado?

- Eu acho complicado.

- Só você? E por quê?

- Por que eu não sei mais se eu quero continuar matando.

Ela o pegou de surpresa, especialmente porque ela não parecia estar mentindo.  Talvez a tivessem deixado para trás por isso.

- Se você me explicar por que vocês matam, talvez eu entenda por que você está com dúvidas a respeito. 

Ela fitou o fogo por um longo tempo; ele esperou.

- Nós nascemos já com essa tarefa no coração, matar o máximo possível de pessoas, especialmente os antigos ou quem saiba usar qualquer porção de poder.  Nós crescemos sentindo isso desde muito pequenos, e só queremos acabar com tudo logo e morrer em paz, mas sempre temos que voltar, porque as pessoas nunca acabam, elas só aumentam.  É muito difícil.  Eu posso me lembrar de cada uma que eu matei ao longo de muitas vidas: já expulsei o mesmo espírito de corpos vivos mais de uma vez, eu também em outros corpos.

Ela fez uma pausa, ainda fitando o fogo. 

- Nós sempre fazemos filhos, não por paixão ou prazer: fazemos para garantir que vamos voltar, mas nunca aumentamos na mesma proporção que as pessoas comuns aumentam.

Ela olhou para ele, perturbada.

- Nesta vida, escolhi um homem que já tinha voltado comigo muitas vezes.  E desta vez, quando fizemos nosso filho, foi diferente para mim: eu queria estar com ele.  Eu percebi nas cores dele que ele me queria também, mas fingiu que não.  Depois nasceu o nosso bebê, ele começou a crescer, e, por mais que eu desejasse que eu fosse mais que apenas a mulher que o tinha parido e cuidava dele enquanto ele ainda não podia se cuidar sozinho, eu jamais consegui dele um só sorriso.  Não somos de muitos sorrisos.

Mais uma pausa. 

- E então eu cheguei aqui, mais uma vez pronta a exterminar o máximo possível de pessoas, e já tinha matado várias quando cheguei a uma casa de pedras onde havia uma moça com seu bebê nos braços, e ela me implorou para não fazer nada com seu filho, que estava agarrado a ela como nunca um filho meu se agarrou a mim. Eu hesitei, então o pai do meu filho entrou; ele apenas me olhou, depois matou os dois, sem nem piscar. 

Nesse ponto ela começou a chorar.

- Eu não sei o que aconteceu, mas eu parti para cima dele gritando e ele ainda tentou me segurar, mas eu sempre fui a mais forte de nós dois.  Nós lutamos e eu o matei, mas também derrubei a casa sobre nós dois; quando acordei, todos já tinham ido embora.  E você apareceu, e eu só estava lá, esperando a morte chegar, mas desta vez não sabia se ela traria o silêncio e a paz que sempre traz, não depois do que aconteceu nesta vida, porque, de alguma forma, eu estou diferente.  E eu não entendo que diferença é essa.

Ela ergueu os olhos brilhantes de muitas lágrimas ainda por derramar para Hanuman.

- Todas as vezes em que eu vivi e matei, eu nunca senti nada além de desejar acabar com tudo e descansar em paz até a próxima vida.  Mas agora eu estou diferente, e essa diferença dói.  Eu não entendo essa dor, e nem mais quem eu sou.

Então ela pôs a cabeça entre as mãos, e chorou por muito tempo.

Quando parou de chorar, voltou a fitar o fogo.

- O que você fez para eu falar tanto?

Ele ignorou.

- Priora, por que a sua cor de vida não está aí?

Ela olhou para ele.

- Cor de vida?

- Sim, a cor que todos têm, e que não é nunca igual para ninguém. Aquela que fica mais próxima da sua pele.  Por que vocês são escuros e ela está ausente?

Ela fitou as próprias mãos.

- Ela está do outro lado, esperando eu voltar.  Lá eu sou só daquela cor, mas eu também não entendo porque a de vocês está aqui: quando vocês morrem, para onde vocês vão?  Eu nunca estive com nenhum de vocês lá. – ela o olhou com curiosidade. - E também não estou vendo a sua, nem a falta dela: você não tem cor nenhuma.  Onde está a sua, Hanuman? 

Ele não deu atenção à pergunta dela.

- Outro lado? 

- Sim, o lugar de paz e silêncio onde ficamos vagando até a volta.  Foi sempre lá que eu quis ficar, é para ele que todos desejamos voltar.  Mas quando vocês deixam a vida, para onde vocês vão?

A verdade era que ele não sabia, porque só se lembrava desta vida, mesmo sabendo que provavelmente tivera muitas outras antes.  E apenas sabia que tivera porque havia sido ensinado que era assim que as coisas aconteciam, e já tinha visto muitas pessoas de volta em vidas diferentes; suas cores de vida sempre eram as mesmas.

Ele não tinha a menor ideia de para onde iam os espíritos depois de deixarem seus corpos, o que deve ter transparecido em seu rosto.

- Você não sabe para onde vocês vão quando morrem?

Ele resolveu responder.

- Nós não nos lembramos de nada ao nascer.  Eu apenas me lembro desta vida, então não sei.

Os dois permaneceram em silêncio, cada um refletindo sobre suas próprias duvidas, até que ela perguntou o que também estava rondando os pensamentos dele.

- Agora que eu respondi o que você desejava, você vai me matar?

- Não por enquanto. 

- E por que não?

Por que não a matava, afinal?

Talvez fosse o fato de ela ter mostrado sofrimento e dúvidas, ou por ele desejar saber mais sobre os escuros.  Ou porque ela criara mais dúvidas do que sanara.  Poderia ser também porque nunca matara ninguém sem ser em batalhas, ou talvez fosse apenas porque se sentia muito solitário.  Ou pela beleza dela: ela era muito bonita de se olhar.

- Vamos embora, temos um longo caminho a percorrer até a próxima aldeia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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