CAPÍTULO 3 – Dois casais bem diferentes.
- 10 de jun.
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Naquela sexta-feira, Maria Cecília tinha acordado com uma tremenda dor de cabeça. Um dia antes tinha ido a uma festa, e festas sempre eram difíceis: ficou só o tempo suficiente para não ser deselegante, mas ao sair a cabeça já estava explodindo.
Desde sempre, Maria Cecília via coisas que ninguém mais via: luzes coloridas ao redor de pessoas, animais e plantas, e isso dizia muito sobre elas, especialmente as pessoas. Conforme foi crescendo, seus pais notaram que ela muitas vezes se afastava de algumas que pareciam ótimas, e gostava de outras sem nenhum motivo. Por outro lado, eles também perceberam que era muito difícil alguém enganar a menina, e quando perguntavam por que ela não gostava de alguém, ela respondia apenas que “não gostava das cores”.
Com o tempo, ela mesma percebeu que os outros não enxergavam as auras, como agora, por falta de nome melhor, Cecília chamava aquela luz onipresente ao redor de tudo que tivesse vida; entendeu que via o que ninguém mais via, e contou aos pais quando tinha dez anos. Por precaução, eles a levaram ao médico, que constatou que ela era absolutamente saudável, e seus pais, que eram pessoas bastante ecléticas, aceitaram aquilo como natural nela; nunca comentaram com ninguém.
Quando cresceu, decidiu estudar Física porque acreditava possuir a capacidade de enxergar algo que existia mas não era visível para todos, da mesma maneira, por exemplo, que os cães ouviam sons que seres humanos não eram capazes de ouvir. Descobrir o que lhe dava essa capacidade até a interessava, mas achava muito mais intrigante o fenômeno que fazia com que as pessoas possuíssem as auras; até pessoas mortas tinham resquícios dela, embora aquela que ela chamava de “interna”, a mais próxima do corpo e sempre diferente para todo mundo, estivesse ausente nos mortos.
Aquela capacidade, porém, atrapalhava bastante quando estava em locais cheios de gente, como a festa da noite anterior. Tantas auras juntas se misturavam e atrapalhavam sua visão, e ela as bloqueava; tinha aprendido a fazer isso instintivamente ainda criança, antes mesmo de perceber que era uma particularidade sua. Em ambientes tranquilos era fácil, mas em festas o esforço era muito maior, e a enxaqueca depois era inevitável.
Chamava aquilo de “escurecer” as auras.
Desde criança também já tinha se dado conta que na sala de aula, mesmo com muitas pessoas juntas, o fato de estarem todas quietas e em geral concentradas no mesmo assunto controlava bastante a amplitude das luzes, e era agradável relaxar durante a maior parte do tempo. Quando terminou a faculdade, não tinha descoberto o que era aquilo que ela via, mas, sendo as salas de aula tão confortáveis, resolveu que seria professora.
Naquele dia até estava aguentando razoavelmente bem a dor de cabeça, já que não precisava escurecer o tempo todo, mas tudo foi ladeira abaixo quando entrou na sala 19. Foi um impacto: quase deu um encontrão em dois alunos ao entrar na classe, e as auras deles estavam tão agitadas que a princípio nem conseguiu ver quem eram. Ao mesmo tempo, do fundo da sala de aula estavam vindo ondas de outras duas auras como uma tempestade de areia, e Cecília sentiu-se muito mal, por alguns segundos tonta e nauseada. Para ganhar tempo, perguntou aos dois garotos próximos da porta aonde estavam indo, até que conseguiu escurecer um pouco e viu quem eram: Tiago e Maria Carolina estavam lá, plantados à sua frente, e do fundo quem mandava aquela tempestade de cores eram Gabriel e um outro garoto que ela não reconheceu, mas que a encarava como se tivesse visto um fantasma.
Forçou o cérebro a escurecer completamente, colocou ordem na classe com a facilidade habitual, e, com todos eles sentados, tendo ordenado que fizessem um exercício particularmente complicado de propósito, arriscou clarear outra vez, porque a dor de cabeça estava ficando insuportável.
Gabriel, cuja aura estava se revirando sem parar em um caleidoscópio que novamente lhe provocou náuseas, estava mandando cores até pelas janelas, e agora só lhe faltava vomitar com tanta intensidade. A aura dele, expandida daquele jeito, era impressionante.
Ao olhar com atenção para Tiago e Maria Carolina, teve um agradável sobressalto: jamais tinha percebido que a interna de ambos era exatamente da mesma cor, talvez porque nunca os tivesse visto juntos, já que sempre estava cada um em uma ponta da sala. O fato de serem idênticas tinha lhe escapado completamente até aquele dia. Na realidade, até então nunca tinha sequer visto duas pessoas com internas iguais.
Além disso, normalmente as auras de pessoas fisicamente próximas se sobrepunham indistintamente, mas as deles estavam se tocando e enrodilhando, como se dançassem juntas, o que seria muito bonito de assistir, não fosse a vertigem crescente e o enjôo que lhe subia pela garganta.
Ela jamais tinha visto um comportamento de auras assim antes.
Mas a maior surpresa veio do aluno desconhecido: quando conseguiu tirar os olhos de Tiago e Maria Carolina e olhou para o garoto, viu que a interna dele era negra, escura, estranhamente densa, quase como se tivesse profundidade. Teve a nítida sensação de que poderia afundar a mão nela. Depois, abruptamente se tornava mais diáfana, espalhando-se colorida pela sala toda, e, agora que a via, ela estava chegando até a sua mesa, a envolvendo também.
Até então, Maria Cecília apenas conseguia ver auras, mas a daquele menino, agora que ela tinha tomado conhecimento dela, dava para sentir na pele, tocando suas mãos, seus braços, e achou que a tinha sentido até nos lábios.
Eram muitas esquisitices de uma vez só. Dominou a dor, escureceu outra vez, e aí viu o quanto ele era absurdamente lindo, e que sem dúvida não parecia em nada um garoto; tinha jeito de ter uns dezenove, vinte anos. Provavelmente era repetente, talvez até um criador de problemas transferido no meio do ano para fugir de alguma expulsão de outra escola.
Ele a encarava fixamente e sem piscar com aqueles olhos absurdamente claros, o que lhe provocou uma súbita vontade de fugir dele, vontade essa que lutava com um desejo muito intenso de correr PARA ele. Aquela sensação estranha e contraditória estava subindo e descendo por ela, a deixando toda arrepiada e um pouco ofegante. Além disso, tinha escurecido, mas ainda podia sentir a aura dele na própria pele.
Ao longo da aula, continuou se sentindo extremamente mal, e quando finalmente o sinal soou, juntou suas coisas e estava prestes a sair correndo dali, quando sentiu outra vez o contato da aura do aluno novo na pele; sem querer, ela o encarou, e teve a sensação estapafúrdia de que ele era... poderoso.
Pegou suas coisas de qualquer maneira e saiu de lá quase correndo, sem olhar para trás.
Ela percebeu que a sensação que sentia era medo: ela estava cheia de um pavor irracional, intenso, misturado com alguma outra coisa que ela não sabia o que era, e nem queria saber.
Agora a dor de cabeça estava insuportável, e foi para o estacionamento do colégio mal conseguindo por um pé a frente do outro, só pensando em ir para casa, tomar vários analgésicos e se deitar no escuro. Teve que parar no banheiro por causa da náusea, achando que fosse vomitar, mas melhorou, lavou o rosto e saiu. Quando estava quase alcançando seu carro, ela o viu lá, encostado em uma pilastra. Imaginou como ele poderia saber onde seu carro estaria, até que lembrou que os nomes dos professores estavam pintados no chão para identificar as vagas.
- Professora.
Aquela voz mexeu com ela, e não podia ignorá-lo. E ele era ainda mais estonteante de perto.
- Pois não? - ela tentou soar firme, mas sua voz saiu na forma de um sussurro quase inaudível.
- Meu nome é Júlio. Eu só queria dizer que você tem as cores mais lindas de todas que eu já vi. Mas você já deve saber disso, não é?
E outra vez a aura dele invadiu seus olhos sem permissão, outra vez ela sentiu a aura dele pela pele toda, e não sabia quantos segundos, quantos minutos teriam se passado com ela ali, imobilizada só pela presença dele, quando, sem mais nem menos, ele virou-se e foi embora, largando-a no meio do estacionamento como se tivesse puxado o chão debaixo dela e virado o mundo de cabeça para baixo.
Aí, ela não pode mais evitar: escorou-se em seu carro e vomitou violentamente no chão do estacionamento.
***
Tiago estava praticamente correndo e puxando Maria Carolina pela mão, querendo tirá-la da escola o mais rápido possível, até que chegaram ao portão, onde ela o fez parar.
- Hum, Tiago, espera só um pouquinho, deixa eu me despedir do Gabriel.
Na pressa de sair de lá, ele nem tinha percebido que Gabriel também estava correndo atrás deles; o cara olhou para ele um pouco sem jeito, já sem a cumplicidade momentânea que tinha surgido na sala de aula por causa daquele tal de Júlio.
- Hã, oi, Tiago.
Inacreditável.
- Oi, não. Tchau. Maria Carolina?
A menina estava olhando de um para o outro, desorientada, ao que ele perdeu a paciência e a puxou.
- Vamos. Eu quero levar você embora logo para sua casa. Tchau, Gabriel.
Foi saindo e a puxando pela mão, deixando Gabriel plantado no portão, e foi andando o mais rápido possível por uns dois quarteirões, sem olhar para ela, mas extremamente consciente da mão dela na sua.
Quando achou que a distância era suficiente, parou, deu uma olhada nas redondezas para verificar se estavam sozinhos mesmo, e, satisfeito, a fez ficar de frente para ele.
- Eu não sei onde você mora.
Ela estava sem fôlego, e ruborizou.
- Bom, eu nem achei que você soubesse o meu nome, para começar.
- Eu sei o seu nome desde o primeiro dia de aula, Maria Carolina.
- Sei. Desde quando você presta atenção em mim? E, escuta aqui, que história é essa de me tirar da escola desse jeito? Eu nem tive tempo de falar com o Gabriel.
- Se você prestasse atenção em mim, perceberia que eu presto atenção em você, sim. E pelo jeito seu amigo Gabriel também percebeu que a coisa certa a fazer era manter você longe daquele cara, o que eu estou fazendo agora. Ele vai sobreviver sem você se despedir dele direito por um dia. Vamos.
E recomeçou a andar, puxando a menina, os dois quietos por mais um quarteirão, sem ter ideia de para onde a estava levando e sem dar a mínima, mesmo sabendo que a sua mãe não ia gostar nada do seu inevitável atraso. Deviam estar indo na direção correta, porque ela não corrigiu o caminho.
- Tiago.
- Oi?
- Por que você de repente resolveu falar comigo?
Ele resolveu responder com a versão da verdade mais simples possível.
- Porque eu não gostei daquele cara perto de você.
- Isso não tem pé nem cabeça.
- Tem sim.
- Não tem. Você nem conhece o cara. E você sequer me deu oi desde que a gente começou na escola. Aí hoje resolveu que tinha que me dar oi, se sentar ao meu lado, e me sequestrar da escola, tudo no mesmo dia? Para me tirar de perto de um desconhecido que se sentou em uma carteira que está vaga desde, sei lá, sempre? Sério, o que deu em você?
Claro que ele sabia o que tinha dado nele: não aguentou mais a pressão de não poder chegar perto de garota nenhuma, especialmente desta, e ver aquele imbecil perto dela foi insuportável. De qualquer maneira, nunca tinha visto ninguém chegar nela, porque todos os caras da escola a achavam sensacional, mas muito metida, além de andar com o Gabriel, o que era complicado, porque, se chegassem nela, automaticamente estariam se aproximando dele também, e não queriam arriscar ser confundidos com gays de olho nele e não nela.
Os caras podiam ser bem inseguros, idiotas e preconceituosos, mas a burrice deles até que tinha sido providencial, porque, até onde ele sabia, ela não tinha namorado, pelo menos não na escola.
Respondeu à pergunta dela com outra.
- E em você, o que foi que deu, para ficar se derretendo toda com aquele imbecil? Você não dá bola para absolutamente ninguém, mas de repente dá o maior mole para o cara?
- Eu não dei mole não! - ela arrancou sua mão da dele, parando no meio da rua outra vez e colocando uma boa distância entre os dois. Ele imediatamente se arrependeu da pergunta.
- Tá legal, desculpa. Mas você não pode negar que foi simpática com ele como você só é simpática com o Gabriel. Você pensou que ele também fosse gay, foi isso? - aquela ideia subitamente o animou.
- Pare de falar bobagem, garoto! Eu não fui simpática, ele que é simpático, e eu só respondi ao que ele me perguntava, e o cara é engraçado, como é que a gente não ri de uma pessoa engraçada? E por que você acha que eu sou simpática só com gays? E para onde você está me levando, afinal?
Ele teve uma ideia. Hoje ele já tinha ligado o foda-se mesmo, e já estava de saco cheio da mãe controlando sua vida.
- Escuta, você tem que ir para casa agora?
Ela hesitou por alguns segundos, mas por fim respondeu com a cabeça que não.
- Quer almoçar comigo? Na minha casa? - se ela aceitasse, sua mãe provavelmente ia enfartar, mas aquela merda de não poder sair sozinho nem para comprar pão já tinha dado. Era agora ou nunca.
- Na sua casa? Quem vai estar lá?
- Minha mãe. Aliás, ela me marca tipo assim, homem a homem, então pode rolar um stress quando a gente chegar. Tudo bem?
- Como assim, marca homem a homem?
- Ela não dá um tempo e controla todos os meus passos, mas outra hora eu explico essa história. Então, quer vir ou não? - ele até tentou parecer desinteressado, tipo, nem aí, mas falhou miseravelmente.
Ela ponderou sobre o convite por alguns instantes.
- Tudo bem, eu vou. Vai ser diferente ver uma mãe que controla o filho, para variar.
Ele estranhou.
- Por que você está falando isso?
- Bom, a minha mãe não presta muita atenção ao que eu faço, sabe. Ela deixa a gente bem solto, lá em casa. Se eu aparecer antes das onze da noite, nem preciso avisar onde eu estou. Se eu avisar, daí posso chegar a hora que eu quiser. Ela está sempre dormindo quando eu chego mais tarde, e está dormindo quando eu saio... Ela é artista plástica. – disse a última frase como se a profissão da mãe explicasse tudo.
- E isso não é bom?
Ela deu de ombros, e respondeu de um jeito que deixava claro que não queria estender o assunto.
- É, eu não devia reclamar. Onde você mora?
Foram caminhando, e ao ver que ela estava tranquila de novo, pegou a mão dela, levou aos lábios, deu um beijinho, e a puxou mais para perto, aproveitando para pegar suas coisas.
- Dá aqui, eu levo para você.
Andavam em silêncio, de vez em quando se olhando sem jeito, as mãos ainda dadas, e um calor danado passando entre as palmas. A certa altura, ela rompeu aquele silêncio surpreendentemente confortável.
- Tiago.
- Oi?
- Você não me respondeu por que resolveu falar comigo hoje.
- Bom, eu precisava falar porque eu queria levar você para a sua casa.
- E por que essa vontade tão de repente?
- Quem disse que foi de repente?
Ela riu.
- Bom, você nunca nem me olhou por mais que dois segundos.
Ele parou e a encarou; já tinham chegado à sua casa.
- Como você sabe que eu não olhava para você se você nunca olhava para mim?
Ela levou alguns segundos para responder.
- Eu olhei bastante para você sim. Foi você quem não viu.
Aquilo mexeu com ele.
- Eu aposto que eu te olhei muito mais, – chegou mais perto, a pegou pelo queixo, levantando aquele rosto lindo e se afogando nos olhos dela – mas estou gostando mais de olhar agora, assim, mais de perto.
- Está? – ela também parecia perdida nos olhos dele.
Ele foi baixando a cabeça, mergulhando naqueles olhos dourados e translúcidos, cada vez mais perto, tão perto que dava para sentir o cheiro dela entrando pelo nariz, seus dedos, seus poros. Ela então baixou as pálpebras e escondeu aqueles dois poços onde Tiago estava quase se afogando, ele também baixou as suas, e afinal se beijaram.
Quando sua boca tocou a dela, ele largou tudo que estava carregando e a abraçou como se a quisesse enfiar dentro do próprio corpo, como se ela fosse a sua própria vida, como se soltá-la fosse arrancar um pedaço seu. Instantaneamente, talvez até antes, ele foi arrebatado, sentindo que aquele era seu primeiro beijo, e todos os beijos ao mesmo tempo.
As outras garotas não tinham sido beijadas por ele. Ele não sabia mais dizer o que era aquilo que tinha feito com elas, mas tinha plena certeza de que beijar era isso que estava fazendo agora.
A sensação de ter Maria Carolina nos seus braços era intoxicante, suas línguas dançando juntas, os dois tentando se fundir, os corações batendo cada vez mais rápido um contra o outro, o abraço cada vez mais apertado, o corpo inteiro sendo percorrido por uma necessidade de se perder nela, e tudo em um crescendo que o fez esquecer de onde estavam, só desejando aquela menina com todas as suas forças; enfim, quando achou que não podia mais aguentar e ia mesmo explodir, ouviu uma buzina de carro tocando freneticamente, seguida de um urro histérico que quebrou totalmente o encanto.
- TIAGO!!! TIAGO, O QUE SIGNIFICA ISSO?????
Ops. Sua mãe.
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