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Image by Melanie Weidmann

PARTE 2 - CAPÍTULO 2 – Onde estavam as cores?

28 de mai.
15 min de leitura

Atualizado: 16 de ago.

Hanuman e Priora caminharam por muitos dias, mas sem falar muito.  Ela parecia ter esgotado o que dizer, e ele estava sem andar com companhia havia séculos, então não sabia bem como se portar; de qualquer forma, era muito agradável ter alguém ao lado para variar, mesmo que fosse uma escura calada e taciturna.

Esperava que estivessem no próximo povoado em dois ou três dias, desde que a neve que ele sentia próxima demorasse só um pouco mais a cair. Ao anoitecer, decidiram acampar em outra das muitas grutas que ele conhecia, e, como sempre, ele fez surgir fogo e água, cozinhou para os dois enquanto ela ficava lá, quieta, até começarem a comer.

- Hanuman?

Ele já estava tão acostumado ao silêncio dela que ouvir sua voz reverberando naquelas paredes de pedra causou estranheza, quase susto.  Ergueu os olhos, não disse nada e aguardou.

- Você tem cores?  Faz dias eu perguntei, mas você ainda não respondeu.

Ele já havia se indagado por que respondera às perguntas dela no primeiro dia; concluiu que estava seguindo seu instinto, e sabia que ela não podia mentir.  As cores nunca mentiam, e dificilmente ela poderia esconder as intenções a partir as respostas que ele lhe desse. 

- No dia em que eu me tornei imortal, elas desapareceram para sempre.

- Desapareceram? Então onde foi parar seu espírito?

Ele próprio já se fizera a mesma pergunta incontáveis vezes.

- Eu não sei exatamente onde ele está.

Aquele brilho atrevido apareceu outra vez nos olhos dela.

- Para um deus, você ignora muitas coisas.

Ele espantou-se.

- Claro que ignoro: minha ignorância é enorme.  Como poderia ser diferente? Todos os dias eu descubro coisas novas.  E essa história de deus é ridícula.

Ela refletiu por alguns instantes.

– Há quanto tempo você é imortal, Hanuman?

Ele sabia exatamente há quanto tempo, porque sentia cada segundo passando e o ancorando cada vez mais à vida, mas apenas respondeu aproximadamente.

- São mais de mil e quinhentos anos.  Chegando aos mil e seiscentos.

Ela ofegou, arregalando seus olhos.

- Tudo isso?

Ele achou graça.

- Você acha muito?

- Os escuros, como você nos chama, se lembram de cada vida que viveram, e eu nasci pela primeira vez há cerca de mil anos, depois devo ter voltado por quarenta, cinquenta vidas, mas só começamos a ouvir falar de você nas aldeias faz cerca de trezentos anos!

- Você voltou todas essas vezes em apenas mil anos?

Ela perdeu um pouco do seu brilho.

- Não vivemos muito.  Morremos jovens, e não podemos descansar em paz do outro lado tanto quanto gostaríamos... Somos chamados muito rápido a voltar.

- Por que vocês morrem tão jovens?

- Batalhas. Doenças.  Na realidade, não gostamos de estar aqui, queremos sempre voltar para lá, então não é como se lutássemos muito pela vida.

- Então quem ensina vocês sobre, bem, sobre tudo?

- Eu disse a você, já nascemos e crescemos sabendo tudo.  E ao morrer levamos tudo que vimos daquela vida para o outro lado.  Mesmo bebês já somos tristes.

Aquilo era horrível.

- Vocês são tristes assim o tempo todo?

- Oh, não.  Do outro lado ficamos em paz.

-Não foi isso que eu perguntei: paz é diferente de felicidade.  Vocês nunca ficam felizes?  Não é possível, você riu de mim naquele sonho.

- Rir também é diferente de felicidade.  E a paz é melhor do que a felicidade.

- Como você pode saber?  Você já foi feliz?

Ela refletiu longamente.

- Eu acho que sim.  Fui feliz nesta vida, quando estava fazendo meu filho e quando ele nasceu.  Foram sensações muito diferentes de qualquer coisa que eu já tinha sentido, mas efêmeras.  Depois só ficou a tristeza; não valeu a pena.

Após alguns instantes, ela completou.

- A paz é melhor que a felicidade.  Ela não acaba, a não ser que sejamos arrancados dela para voltar para cá.

Ela pareceu se lembrar de por que iniciara aquela conversa.

- Mas, as suas cores: o que você acha que aconteceu com elas?

Desde aquele dia ele estava pensando nisso.  Imaginou que poderia se arrepender de revelar tanto a ela, mas continuou fazendo o que lhe parecia certo.

- Vou lhe mostrar onde elas estão.

- Mas você disse que não sabia onde elas estavam.

- E não sei, mas posso levar você até lá. Conheço o caminho, mas não o destino.

Estendeu a mão e a puxou para perto.

Primeiro Hanuman soprou os olhos dela para que adormecesse, ou não conseguiria levá-la.  A seguir, entrou nos seus sonhos, e lá estava ela na gruta, surpresa.

- O que você fez?

- Se você estiver desperta, não posso lhe mostrar. - Ele se aproximou dela e pegou suas mãos com delicadeza.  - Confie em mim.

Ele então projetou-se através da rocha e subiu em direção ao o céu e ao espaço, desceu às profundezas, preencheu todos os espaços disponíveis ao redor deles, já fora do mundo dos sonhos dela, como no dia em que se tornara imortal.  Agora, isso era fácil para ele como respirar, mesmo partindo de dentro de um sonho que não era seu, e em um instante estava onde queria estar. 

E foi com um susto acachapante que se sentiu puxado de volta repentinamente por uma força irresistível e incontrolável, como nunca antes havia acontecido.

Retornou, e a força era ela.

Abriu os olhos e, nos sonhos, ela sem dúvida estava sofrendo algum tipo de dor, porque gemia angustiada, se contorcendo como se estivesse com brasas sob a pele, os olhos ainda cerrados e gritando palavras incompreensíveis em meio aos gemidos.

- Priora!  O que houve? Priora!

Ela abriu os olhos por um instante mas imediatamente desfaleceu, e ele a amparou, sem saber o que fazer: nunca vira ninguém perder os sentidos assim em um sonho.

Tomou-a nos braços, soprou seus olhos, chamou-a mil vezes, mas ela continuava gemendo e se debatendo.

Estava apavorado, com medo de voltar à realidade da gruta e do que encontraria, medo de deixá-la e encontrá-la morta fora do sonho, mas, sem outra ideia, voltou, e lá estava ela com a cor de vida mais linda que ele já vira, multicolorida, com cores tão intensas e estranhas, muitas das quais ele jamais tinha visto.  Tão variadas, exóticas e intensas que ele precisou bloquear sua visão, porque a tontura era insuportável ao contemplar aquele espetáculo lindo e angustiante.

E só pode concluir o impensável:  Priora não era mais uma escura, e ele não tinha a menor ideia do porquê.

 

***

 

Passaram–se várias horas sem que ela despertasse, mas ela parecia bem e saudável: sempre que ele se permitia contemplar, as cores de Priora estavam lá, firmes, lindas e caóticas, e antes que a náusea e a vertigem o atingissem, ele as bloqueava outra vez, só se permitindo enxergá-las a intervalos: estava muito preocupado com ela, e não sabia o que mais poderia fazer. 

Tentou despertá-la de várias formas, sem conseguir.  Entrou outra vez em seus sonhos, mas lá ela continuava lutando contra alguma coisa do mesmo jeito.  Soprou seus olhos, chamou-a, tentou segui-la aonde quer que ela estivesse, mas ela permancia exatamente da mesma maneira.

Voltou até onde sabia que suas próprias cores estavam, e ela tampouco estava lá.

Sem alternativa, decidiu esperar que ela voltasse sozinha, e aconteceu que, após dois dias, a nevasca que ele sentira se aproximar desabou: agora demoraria muito até que pudessem sair dali, uma vez que, embora ele pudesse caminhar por onde quisesse, não importava frio, calor ou qualquer intempérie, ela era mortal, e sem dúvida morreria no meio daquela neve toda.

Hanuman passou vários dias apenas a observando, cuidando dela, mantendo o fogo aceso, tentando lhe dar água e comida sem conseguir. 

Entretanto, ela não dava sinais de precisar realmente de nada: parecia tirar forças do ar, como ele mesmo poderia tirar, se quisesse. Ele gostava muito da sensação de comer e beber, mas agora também não o fazia, poupando a comida para ela, que, por sua vez, a rejeitava.

No pior dia da nevasca, a entrada da gruta quase totalmente obstruída, ela suspirou e moveu-se sob o manto que ele colocara sobre ela.  Não despertou, mas devia estar sonhando: Hanuman não hesitou, e mergulhou nos sonhos dela.

E lá estava ela, mas não dentro da gruta com ele: estavam em algum lugar muito escuro e muito denso, e ela parecia esperar por ele.

E estava furiosa.

- O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?

Ele olhou em volta.

- Que lugar é este?

- Eu quero saber o que você fez comigo! Você disse que ia me mostrar onde estavam suas cores, me fez sonhar, então eu senti a maior dor da minha vida inteira, aliás, de todas elas, e agora estou aqui procurando por você!

- Você ainda está sentindo dor?

- Não, mas isso não vem ao caso.  O que você fez comigo?

- Que lugar é este?

- Como você não sabe? Você me trouxe aqui!

- Não, não era para cá que eu queria trazer você. Este sonho é seu.

- Sonho? Eu ainda estou sonhando?

Ele considerou como responder.

- Você está dormindo faz mais ou menos uma semana.

- UMA SEMANA??

- Faz tudo isso, e está na hora de acordar.  Venha cá.

Foi em direção a ela para fazê-la despertar, mas ela recuou.

- Não toque em mim outra vez. Eu quero saber agora mesmo como foi que você me trouxe até aqui!

Ele achou o medo dela compreensível, mas as prioridades estavam fora de ordem.

-Aconteceu alguma coisa quando eu levei você comigo, alguma coisa realmente extraordinária, mas eu preciso levar você de volta para que você veja o que houve.  Não tenha medo, eu vou só acordar você, não vou levá-la para mais nenhum lugar, e depois que você estiver desperta e em segurança, e tiver visto o que eu quero lhe mostrar, nós conversamos mais, está bem?

Ela considerou essa resposta por alguns instantes, sem perguntar o que ele desejava que ela visse. Devia estar desnorteada após dormir tanto e acordar repentinamente.

- Eu só não quero mais sentir aquilo outra vez. Por favor.

Então ela aproximou-se, ele pegou suas mãos, e voltaram.

 

***

 

Ela abriu os olhos lentamente, e ele levou um susto tremendo, ao mesmo tempo em que se maravilhava com a cor deles: onde antes havia um azul cristalino e brilhante, como eram os olhos de todos os escuros, agora ele poderia se afogar em negrume.

- Seus olhos!

- O que tem eles? – ela ainda estava sonolenta, e ergueu-se com dificuldade.

- Seus olhos, eles mudaram de cor!

- O quê?

-Priora, seus olhos estão negros. – e agora ele contaria a ela que já não era mais escura, sem ter a menor ideia de como ela reagiria - E olhe para as suas mãos.

Ela fez como ele pediu, e a princípio não pareceu perceber nada diferente, até que aos poucos a compreensão a invadiu.

- O que aconteceu ao outro lado? O que você está fazendo nele?

- Outro lado?

- Nós estamos do outro lado, esta é a minha cor, mas desta vez veio todo o resto junto comigo!  Como você fez isso?

Ela realmente não tinha entendido ainda o que tinha acontecido.

- Priora, não foi todo o resto que acompanhou você ao outro lado, foi a sua cor de vida que veio para este lado de cá.

Ela vacilou.

- Impossível.

- Não é não.  Estamos aqui acordados, vivos e bem. 

Ela foi recuando para o fundo da gruta, olhando ao seu redor e para si própria, e parecia apavorada.

- Não é possível.  Não pode ser.  Isso não pode ter acontecido.

- Calma, não tenha medo.

- Se afaste de mim! Você fez isso comigo, eu não sei o que é isso, eu preciso voltar ao normal, eu quero ir para o outro lado e agora não sei se vou conseguir, O QUE FOI QUE VOCÊ FEZ?

Ela estava descontrolada, com suas cores completamente caóticas e avermelhadas, cada vez mais agitadas, e o teto da gruta estava começando a tremer, enquanto pequenas pedras se soltavam dele . 

Ele sabia no que aquilo ia dar, e não via outra forma de resolver: ergueu as mãos e a imobilizou outra vez, depois foi até ela, e soprou seus olhos novamente, não sem antes sussurrar:

- Desculpe.

Nem bem ela tinha despertado, ele a fez dormir outra vez.  Pegou-a nos braços, pensando em como as coisas estavam indo mal, e sentou-se enquanto a embalava, imaginando como despertá-la com calma.

Supunha que, quando se projetara e a levara junto, sem querer tinha puxado e arrancado o espírito dela do “outro lado”, como ela o chamava. E ele não fazia ideia de como o mandaria de volta. 

Mas, uma coisa de cada vez.  Primeiro acordá-la, acalmá-la, e então eles pensariam no que fazer a respeito.

Hanuman olhou para o rosto dela, tão perto do seu, e começou a murmurar baixinho, para que ela suas palavras passasem para o sonho e ela ouvisse antes de acordar outra vez.

- Priora, eu estava levando você comigo para onde está o meu espírito. 

Fez uma pausa, porque ela apertou as pálpebras.

- Eu não sei dizer que lugar é, nem onde está, mas lá não deve ser o seu outro lado, porque, onde meu espírito está com todas as minhas cores, não existe a paz que você descreveu.

Um leve suspiro.

- Mas lá é muito bonito, muito intenso, muito cheio de tudo que é possível imaginar, e vasto, colorido, barulhento...  Há muito a se ver lá.

Outro franzir da testa dela. 

- Lá não existe a paz que você deseja, mas eu só queria que você conhecesse o lugar, porque você perguntou sobre as minhas cores.  Agora eu só quero despertar você bem devagar, e desta vez você vai se acalmar antes, está bem?

Ele estão passou um dedo bem devagar pelo contorno do rosto dela, depois seus lábios, as pálpebras, seus cabelos.  A respiração dela ficou mais profunda e lenta.

Cantarolou baixinho uma canção antiga que sua mãe cantava para ele quando era menino, e que ele nem sabia que ainda conhecia; quando sentiu que ela estava novamente tranquila, recomeçou a falar.

- Seus olhos estão negros, e a sua cor de vida é a mais linda e incomum que eu já vi. Eu realmente lamento ter roubado a sua paz, mas prometo que vou tentar descobrir como mandar seu espírito de volta aonde ele estava, se você quiser.

Ele a ninou mais algum tempo, cantou um pouco mais, e então finalmente soprou seus olhos, que se abriram lentamente, agora mais lúcidos.

- Você me ouviu enquanto dormia?

- Ouvi. – ela falava em um fio de voz.

- Você entendeu tudo que eu disse?

Ela assentiu, e ele permitiu-se um vislumbre das cores dela, que já não estavam mais avermelhadas.

- Eu juro que eu vou ajudar você a consertar o que quer que eu tenha estragado: me perdoe, por favor.

Ela o fitou, depois desvencilhou-se.

- Como você está se sentindo?

Ela parecia não ter ouvido, mas afinal respondeu.

- Não sei. 

- A dor não voltou?

- Não.

Ele achou melhor deixar que ela falasse quando tivesse vontade. Verificando, porém, que a entrada da gruta estava agora completamente bloqueada pela neve e talvez a comida acabasse antes da nevasca passar, lembrou-se que Priora não comia nada havia vários dias.  Ele precisava resolver isso logo, ou ela ia acabar ficando doente.

- Você está com fome?

Ela ergueu os olhos, ainda parecendo alheia.

- Não sei.

Ele suspirou.

- Como assim, não sabe? Você não come faz dias.

Ela irritou-se.

- NÃO SEI. Eu estou me sentindo estranha, não sei se algum dia vou voltar para onde sempre quis estar, e meu corpo está estranho também, sem fome, sem sede, sem cansaço, sem nada. Eu estou estranha e não sei o que vai ser de mim, e é tudo culpa sua.

Mas a raiva dela não o preocupou: o que o alarmou foi a forma como ela disse estar se sentindo.

- Você não está com fome nenhuma?

- Não! E por que é que eu não estou com fome? Me diga você!

Hanuman levou um susto, porque uma ideia passou pela sua cabeça, mas não era possível.

Afinal, as cores dela estavam lá, bem visíveis.

- Eu não sei o que houve. Mas você deveria estar com fome e sede.

Ele se lembrou daquele dia, muitos séculos atrás, quando despertou e descobriu-se imortal: tinha retornado sem cores e também se sentindo muito estranho. Fisicamente estava bem demais, como jamais se sentira antes, sem fome ou sede, e, apesar do frio intenso e de estar completamente nu, ele não tremia e sua pele continuava rosada; podia andar sobre o gelo sem nenhum problema, e respirar era muito fácil, até que descobriu que sequer precisaria continuar respirando.

Depois ele também percebeu que não podia se machucar, ferir-se, sangrar, queimar-se.  Seu corpo parecia normal como sempre fora: quando bebia ou comia, sentia o sabor e apreciava o processo, mas depois eliminava a água e a comida da forma como tinha mastigado e engolido. Nunca mais urinou. Sentia odores de que gostava ou não, sentia cócegas, arrepios, sentia o calor e o frio, até mesmo dor, mas nada afetava seu corpo além das sensações.

Pelo que sabia, estava exatamente igual desde àquele dia.  Não perdera um fio de cabelo sequer: já tinha tentado arrancar alguns, mas eles não saiam de jeito nenhum.  Eles também não cresciam mais, e era impossível cortá-los.

Pensando em seus cabelos, teve uma ideia: sem dúvida ela estar se sentindo estranha era uma coincidência, afinal as cores todas dela estavam lá, mas seria muito simples ter certeza.

Aproximou-se dela e, sem avisar, pegou alguns fios dos seus cabelos e puxou com toda a força.

-AI!!! VOCÊ FICOU LOUCO?

Ela o empurrou e levantou-se indignada, mas ele nem notou.  Não tinha um fio sequer dos cabelos dela em sua mão.

- Não é possível.

- Por que foi que você fez isso?

Ele olhou para ela.  Não podia ser.

- Priora, por favor, você precisa me deixar cortar seu cabelo.

- O QUÊ?

- Só me deixe cortar alguns fios.

- Para que você quer alguns fios do meu cabelo?

- Eu preciso entender uma coisa.  Por favor. Eu preciso ter certeza de por que você está sem fome e sem sede.

Ela estendeu a mão.

- Eu corto.  Me dê aqui a sua faca.

Ela puxou alguns fios de cabelo e passou pela lâmina: não cortou nenhum.

Ela tentou mais algumas vezes, com muito mais força, e quando viu que não adiantava, puxou os próprios cabelos, com cara de dor, depois torceu, enrolou, tentou cortar outra vez.

Nada.  Eles permaneciam firmes no lugar.

- Hanuman, o que é isso?

Ele sentou-se, com a cabeça entre as mãos.  Não era possível.

- Hanuman, me responda. O que foi que aconteceu comigo?

Ele sentiu, mais que ouviu, o pânico na voz dela. 

- Priora. Eu acho que você se tornou imortal também.

Como ela permanecesse em silêncio, ele acabou por fitá-la.  Ela permanecia lá em pé, olhando para ele sem expressão.

- Você ouviu o que eu disse?

Ela continuou ali parada.

- Priora? Você está bem? Você entendeu o que eu disse a você? Eu acho que você se tornou im...

E afinal ela explodiu.

- VOCÊ ARRUINOU TUDO!

E então ela começou a soluçar, os olhos dela ficaram vermelhos, mas não caiu nenhuma lágrima.

Ele também nunca mais fora capaz de chorar com lágrimas.

- Priora, me ouça, eu não sabia que isso podia acontecer com você quando eu tentei mostrar as minhas cores.

De repente, ela parou de chorar.

- As cores! Eu não posso estar imortal como você, eu tenho a as minhas cores aqui!

Era uma afirmação válida.

- Sim, eu não entendo isso, porque as suas cores estão visíveis e as minhas não, mas, veja, eu levei você até lá, suas cores voltaram com você, e depois você não sentiu mais fome ou sede, e seus cabelos não caem.

- O que você acha que aconteceu comigo? Por que eu tenho as minhas cores e você não? Como foi que você se tornou imortal, para onde você levou suas cores? Preciso entender a diferença.

Ele a fitava impotente, desejando ardentemente ter uma resposta melhor.

- Eu não sei.

Como ela apenas continuasse a olhar para ele daquele jeito estranho, quase ávido, apenas lhe restava desculpar-se.

- Não tenho ideia do que houve, e sinto muitíssimo, mas se você confiar em mim e continuar comigo, vou dar um jeito de descobrir como reverter o que eu fiz.

Se ele fosse totalmente honesto, teria que contar a ela que fazia séculos que estava tentando descobrir como reverter sua própria imortalidade, mas achou que ela não reagiria bem ao saber que ele próprio já estava cansado daquilo e continuava sem ter a menor ideia de como retornar ao normal.

- Eu acho que nós deveríamos ir até onde estão suas cores. Temos que começar de algum lugar.

Ele pensou a respeito.

- Eu estou com medo de levar você outra vez e piorar tudo.

- Eu já pensei nisso também, mas eu quero saber o que aconteceu.  Você tem outra ideia de como descobrir?

Como ele negasse, ela estendeu sua mão para ele.

- Vamos lá.

Em dúvida, ele pegou a mão que ela estendia.

- Priora, entenda, quando eu me tornei imortal, eu não sabia exatamente o que eu estava fazendo, não tinha certeza de que era o que eu queria, e só fiz por falta de opção melhor.  E não sei exatamente como eu fiz; se soubesse, não teria tornado você imortal por acidente.  Então você percebe que pode ser muito arriscado eu levar você comigo lá outra vez? 

Ela o fitou longamente.

- Eu preciso saber o que aconteceu para decidir o que fazer, se houver o que fazer.  Você me deve isso.

Por um momento lhe pareceu que ela o estava manipulando, mas decidiu-se.

- Está bem, eu levo você. 

Os olhos dela brilharam ansiosos: ele então pegou as mãos dela nas suas, fechou seus olhos e pediu que ela fizesse o mesmo, e foram juntos outra vez.

 

***

 

 E lá estavam eles, percorrendo as distâncias, as estrelas, por dentro e por fora, mostrando que ele estava lá, em todos os lugares, tudo ao mesmo tempo, e que suas cores se misturavam a tudo que havia, e ele ao mesmo tempo era tudo e era aquele corpo que estava lá, esperando por ele imutável na Terra, assim como o dela.

Mas ela insistia, e ele não sabia, ela pedia e ele não podia responder, ela perguntava, teimava, forçava, se enfurecia, e ele não entendia, e ela se debatia, tentava se expandir também, mas não conseguia, e ele não podia saber quanto tempo ficaram lá, e em algum momento a força que ela fazia para arrancar respostas dele se tornou agonia, ela de repente transformou-se, e as cores dela mudaram, e eram pura raiva e ódio, e então de repente ele enxergou a verdade.

Aquelas cores não eram de Priora.  Aquelas cores eram de alguma coisa que ele nunca tinha visto antes, alguma coisa muito poderosa que estava dentro dela e que agora só queria destruí-lo, mas, por alguma razão, não tinha poder para isso naquele lugar que era só dele: ela estava lá, mas também não estava.

Ao compreender isso, Hanuman conseguiu desvencilhar-se dela, fugiu, voltou para seu corpo, e quando abriu seus olhos lá estava Priora, agora sem cores como ele, outra vez desacordada, ou talvez morta, prostrada no chão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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