CAPÍTULO 4 – O desvio na realidade.
- 9 de jun.
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Maria Carolina não tinha muita certeza sobre o que estava acontecendo, mas era muito bom: quando Tiago parou de repente na frente dela, e foi chegando perto, tão perto que ela conseguia enxergar o quão surpreendentemente escuros eram seus olhos, e sentiu o cheiro dele, a respiração dele passando pela boca entreaberta, tão próxima da dela, nem percebeu que foi ela quem o beijou primeiro. Imediatamente ele a estava abraçando, apertando, invadindo, ela querendo que ele nunca mais a largasse, e apertasse ainda mais, e a transformasse em uma parte dele mesmo.
Aquele beijo, todas as sensações, pareciam quase predestinados, de tão perfeitos; quando ela imaginava vagamente se em algum momento teria vontade de parar de beijar Tiago, repentinamente surgiram buzinas e gritos; pensando ainda vagamente se os dois não iam acabar morrendo depois daquele beijo perfeito atropelados por algum carro desgovernado, separou-se do menino, mas ele não a soltou. Encostou a testa na dela, suspirando, tentando acalmar a respiração, e disse baixinho:
- Minha mãe. Preciso apresentar você.
Ele a virou, e ela se viu frente a uma mulher alta, morena, muito bonita, que já tinha descido do carro e estava correndo desabalada em direção a eles, bradando enfurecida sobre perda de juízo, castigos eternos e outras questões várias, tudo isso em uma corridinha de nada de uns dez metros entre o carro e eles, o que não deixava de ser impressionante.
Tiago, porém, não pareceu se abalar.
-Mãe, esta é Maria Carolina, a minha namorada. Maria Carolina, esta é a minha mãe, Sílvia.
Se ela própria não tivesse se virado outra vez para o menino, que a estava segurando firmemente pela cintura, berrando “NAMORADA???”, teria percebido que a mãe dele tinha estacado, quase caindo na calçada, bradando a mesma coisa exatamente no mesmo instante, mas vários tons acima.
Ele não deu a menor bola: a apertou ainda mais, como se a estivesse alertando para ficar quieta, e respondeu à sua mãe com a maior calma do mundo.
-Isso, mãe, na-mo-ra-da. - sublinhou cada sílaba. –A gente veio almoçar aqui em casa para vocês se conhecerem, e depois eu vou levar a Carol para casa, e volto em seguida.
A seguir virou-se, puxando-a em direção ao portão da casa que estava bem em frente ao carro que a mãe dele tinha largado atravessado na calçada, ligado e todo aberto. Já na porta, ele olhou para a mãe, que estava parada no mesmo lugar, plantada e incrédula.
-Mãe? Vai deixar o carro aí na porta desse jeito?
Entraram, e, assim que saíram das vistas da mãe dele, ele a puxou outra vez, sussurrando enquanto passava seus lábios pela sua orelha:
-Namorada, sim. Entendeu? - e, então, foi beijando todo o trajeto até sua boca, sem pressa, mas quando estava quase lá a mãe dele entrou e começou a gritar outra vez.
Ele a soltou com a maior calma, e, sem sequer olhar para a mãe, pegou-a pela mão e a levou até a sala de jantar.
- Não precisa gritar.
Ele a sentou em uma cadeira, o que foi bom, porque ela estava tão apatetada com tudo aquilo que a única coisa que conseguia era ficar olhando para o garoto de olhos arregalados, ao que ele pegou sua mão, levou aos lábios e deu um beijinho demorado na palma, tudo isso com a maior cara de paisagem que ela já tinha visto na vida.
A mãe dele parecia até mais aparvalhada que ela, embora visivelmente furiosa. Olhando para o filho, despejou várias frases desconexas ao mesmo tempo em que, debruçando-se desajeitada sobre a mesa, praticamente arrancou a mão dela da dele e a sacudiu de forma exagerada, no mesmo ritmo em que ia despejando as perguntas.
-Namorada? Como assim, namorada? Desde quando? De onde vocês se conhecem? Tiago, você andou fotografando esta menina também? Quando foi que você arrumou tempo para isso? Já sirvo o almoço, mas você sabe, não é, garoto, o que eu vou fazer com você se você me aprontar outra? Eu não estou brincando não, onde está a sua máquina fotográfica? Me deixe ver sua mochila imediatamente! - naquele ponto, ela soltou sua mão.
Tiago, que ouvia tudo aquilo impassível, levantou-se, foi até a mãe, estendeu a mão e pegou seus cabelos, aliás muito bonitos, pretos e espessos, e começou a brincar com eles.
-Mãe. Respira. Olha, - ele a abraçou, sem parar de mexer em seus cabelos, - aquilo tudo já faz tempo. Você já me castigou para uma vida inteira. Eu aprendi com toda aquela merd... Desculpe, aquela confusão, e entendi perfeitamente que eu não devia ter agido daquela forma. E, sabe, o papai tem razão quando diz que você está me emasculando. Mas, principalmente, você está assustando a minha namorada.
Maria Carolina adoraria saber exatamente o que ele tinha feito para sua mãe ficar tão estranha, e também não tinha ideia do que significava a palavra emascular. Tossiu discretamente, tirando os dois daquele momento bizarro, ao que Sílvia recuperou a compostura.
- Se você realmente aprendeu nós ainda vamos ver, Tiago. – depois de fulminá-lo com os olhos, ela voltou-se para Carol. - Maria Carolina, de onde vocês se conhecem?
-Hum, a senhora pode me chamar só de Carol. E a gente se conhece da escola, estamos na mesma sala.
Aquilo pareceu acalmar um pouco a mãe do garoto.
-Ah, ótimo. E onde você mora? Seus pais trabalham fora, você passa muito tempo sozinha em sua casa?
Ela sentiu Tiago, que tinha voltado a se sentar ao seu lado, se remexer um pouco.
-Não, na verdade minha mãe é artista plástica, e tem o ateliê em casa. Também tenho um irmão e uma irmã, os dois mais novos, então a casa está sempre cheia de gente. Nós moramos aqui bem perto. Dá para ir a pé.
Sílvia fez a próxima pergunta ainda mais nervosa.
- E você tem o hábito de posar para sua mãe? Já fez algum tipo de trabalho como modelo?
-Mãe!
-Quieto, Tiago. Então, já posou para alguém alguma vez?
Que tipo de pergunta era aquele?
- Não vejo por que eu posaria para alguém.
Ela pareceu ligeiramente mais feliz.
-Claro, você tem toda razão, são bem melhores as naturezas mortas. - Tiago suspirou. – Mas você é maravilhosa, claro, não seria por falta de beleza que você não posaria. Há muito tempo eu não via uma moça tão linda nesta casa. – ela então olhou mais feio ainda para o filho, que nesse ponto deixou escapar um “Pelo amor de Deus!” - Para falar a verdade, você é de longe uma das moças mais lindas que eu já vi.
Maria Carolina não soube o que responder, mas foi salva por Tiago.
-Mãe, chega, já deu. Deixa a menina respirar.
Aquilo nem a abalou.
-Tiago, fique na sua. Então, Maria Carolina, há quanto tempo vocês estão namorando?
Antes que ela soltasse “uns cinco minutos”, Tiago respondeu por ela.
-Mãe, muito menos tempo do que eu gostaria. É recente, - que eufemismo! - e agora a gente precisa mesmo comer, porque eu tenho que levar a Carol pra casa.
Maria Carolina esperou a mãe dele ir cuidar do almoço, e lascou, sibilando:
-Que história é essa de namorada? E todas essas perguntas estranhas da sua mãe? Vocês aqui são todos malucos? Ah, e o que é emascular?
Ele ficou lá, parado, olhando para ela distraído, mas finalmente respondeu.
-Você tem os olhos mais inacreditáveis que eu já vi na minha vida.
-Não tente mudar de assunto!
-Calma. - ele suspirou. - No caminho para sua casa eu conto tudo que você quiser saber. Mas agora vamos só almoçar e impedir a minha mãe de ficar histérica outra vez. Por favor. E, se depois de eu contar, você não quiser ser a minha namorada, - ele começou a falar com uma voz rouca e baixa, e levou a mão dela de novo à boca, dessa vez só passando os lábios lentamente pelos dedos dela, enquanto olhava nos seus olhos de um jeito que a deixou inteira arrepiada - bom, aí então eu vou ter mesmo que te sequestrar e convencer você a mudar de ideia. E você devia soltar esses cabelos.
Ele tirou a presilha dela, e enfiou no bolso. Garoto mais mandão. Ela ia tentar pegar de volta, mas Sílvia estava de volta, deixou para lá.
-Vamos comer. Vocês já lavaram as mãos?
Almoçaram os três, e, enquanto o tempo passava, eles comiam e falavam sobre a escola, a família dela, outras coisas corriqueiras, e às vezes Sílvia parecia se distrair, olhando para os dois como se focasse alguma coisa que nem estava ali. Em alguns instantes, Tiago tinha que chamar o nome dela para fazê-la prestar atenção.
- Nossa, mãe, você hoje está distraída, hein?
Eles tinham acabado de comer, e ela estava lá parada de novo, olhando como se não visse o que estava ali, mas outra coisa.
- Tiago, leve a Maria Carolina para casa, então. – ela fez uma pausa, parecia engasgada com alguma coisa, mas acabou soltando. – E não precisa voltar em seguida. Voltando às sete para jantar está bom.
Tiago arregalou os olhos, e depois deu o sorriso mais lindo que ela já tinha visto ele dar.
- Obrigado, mãe.
***
Saíram os dois a pé pela rua, Tiago sem acreditar que a mãe tinha deixado que ele voltasse mais tarde para casa, e, depois de virar a primeira esquina, ele puxou a menina para si outra vez.
- Então? Você vai ser minha namorada?
Ela não respondeu, só sorriu de leve.
Ele apertou o abraço, baixou a boca outra vez para perto da dela, que continuava em silêncio, e, roçando seus lábios nos dela bem devagar, falou:
- Maria Carolina?
- Hum?
- Você já tinha sido beijada antes?
- Por quê? - ela tinha um jeito de amolecer nos braços dele ...
- Eu ia adorar se essa boca nunca tivesse sentido nenhuma outra, porque o único gosto que você vai sentir nessa língua de hoje até o fim dos seus dias é o meu.
- Deixe de ser machista.
Ele tinha falado sem pensar, mas sentiu imediatamente o peso do que tinha dito a ela. Teve certeza de que ele não tinha dito à toa, e não por machismo: ele sentiu de verdade, e agora era como se as suas palavras estivessem pesando ao redor deles, dentro deles, reafirmando um rumo traçado havia muito tempo, sem volta.
E então os dois, ao mesmo tempo, chocaram suas bocas com força, e todo aquele sentimento de que eles eram parte um do outro veio com uma violência impressionante. Mas foi um beijo rápido, e ele se sentiu morrer um pouco quando ela sussurrou sem fôlego, a boca ainda na sua:
-Vou. Vou ser a sua namorada.
- Vamos logo para a sua casa, porque eu preciso achar urgentemente um lugar onde eu possa fazer você sentir o meu gosto sem ser interrompido a cada dois minutos.
Os dois andaram em silêncio por alguns quarteirões. Ela tinha um jeito de ficar calada e serena, tão diferente da maioria das garotas que ele tinha conhecido. E esse pensamento sobre outras garotas lembrou-lhe que ele talvez devesse contar algumas coisas e tirar isso da frente deles.
- Carol.
- Oi.
- Eu penso em você desde o primeiro dia em que vi você entrar na escola.
Ficou esperando, mas ela não disse nada.
- Você alguma vez tinha prestado atenção em mim?
- Desde o primeiro dia em que eu entrei e vi você na escola.
Chegaram a uma praça, ele parou, e resolveu se sentar com ela em um banco por ali.
- Vem cá. Este é um dos meus lugares preferidos. Adoro vir aqui e fotografar no fim da tarde, quando eu consigo driblar a minha mãe.
- Você gosta de fotografia?
- Adoro. Fotografo desde os onze anos.
- Isso tem a ver com aquelas perguntas dela? E por que você tem que driblar sua mãe?
Se ele inventasse uma historinha boba qualquer, ela talvez não ficasse sabendo nunca da história das amigas da irmã. Por outro lado, se tudo corresse bem, um dia ela ia acabar conhecendo a Flávia, que era uma pessoa muito rancorosa e vingativa, e ele tinha certeza absoluta de que ela ia dar um jeito de “deixar escapar” tudo que tinha acontecido entre ele e as amigas dela.
Melhor saber por ele.
- Quando eu fiz quatorze anos, cresci de repente, sabe, fiquei quase do tamanho que eu tenho hoje. E a minha irmã mais velha vivia levando as amigas lá em casa, e eu comecei a prestar atenção nelas, e elas eram muito gatas... AI!
Ele tinha acabado de levar uma cotovelada dela.
- Desculpa, foi mal. Então. Essas garotas mais velhas começaram a prestar atenção em mim também, e, sabe, antes de crescer um monte eu era só o irmão mais novo da Flávia, mas de repente eu cresci e elas perceberam. Bom, para encurtar: eu fiquei com algumas delas.
- Então você já tinha beijado outras garotas, mas quis saber se eu também já tinha beijado outros garotos? Você é tão machista assim?
Droga. Ele queria poder dizer que não, quando se deu conta de que ela não tinha respondido à sua pergunta, em primeiro lugar, mas enfim: para ser sincero, nenhum beijo tinha sido parecido com o beijo dela, só que tinha a certeza de que, se dissesse que antes dela ele não sabia o que era beijar de verdade, ela ia pensar que era só papo furado. Mas disse assim mesmo.
- Você precisa acreditar em mim: eu nunca senti com elas o que eu sinto beijando você. Com você não é só tesão, é ... AI!!
Ela tinha lhe dado outra cotovelada.
- Certo. Bom, eu beijei aquelas amigas da minha irmã, mas com você é diferente, é emocionante, é intoxicante, é um fogo que me pega de um jeito...
- A gente se beijou bem pouco até agora pra uma declaração tão intensa, você não acha?
As palavras podiam ser desestimulantes, mas o que ele viu nos olhos dela foi outra coisa.
- Você também sente isso, não sente?
Por fim, ela assentiu, as faces coradas e os olhos brilhando, e ele continuou.
- Então. Elas começaram a prestar atenção em mim, eu prestei atenção nelas, e daí eu dei um jeito de, sabe, bom, como eu vou contar isso, olha, eu dei um jeito de agarrar algumas delas. O problema é que eu fiz isso tudo ao mesmo tempo.
- Ao mesmo tempo? Como assim, ao mesmo tempo?
- Calma, não é o que você está pensando, pelo amor de Deus. Eu fiquei com várias meninas durante os mesmos meses, mas uma de cada vez. Quer dizer, fiquei com todas no mesmo período, nos mesmos meses, mas ia revezando, a cada dia com uma... - e sua voz foi baixando de volume, ao ver a cara que ela estava fazendo.
- Você namorou mais de uma menina ao mesmo tempo, é isso?
- Opa, eu não namorei ninguém. Eu fiquei com elas, mas nunca nem disse que estava apaixonado por nenhuma delas.
- Certo. E quando você diz “elas”, você se refere exatamente a quantas garotas?
-Três. - ele se apressou a justificar aquele número, que ele até achava bem modesto, mas, pela cara que ela estava fazendo, ela não achava. - É, Maria Carolina, três, mas, por favor, entenda, eu cresci muito rápido, todas elas tinham quase dezoito anos, uma delas até já era maior de idade, e elas me deram mole, e também eu sempre quis fotografar mulheres que não fossem as minhas tias ou a minha mãe, que eu não sou nenhum esquisito.
- Ah, as fotografias. Que fotografias?
- Eu adoro fotografar, eu te falei, e adoro olhar para mulheres bonitas... AI! Desculpa, você está me deixando nervoso, eu não estou pensando direito. Não sei o que eu tenho hoje. Me deixa respirar só um pouquinho. E para de me bater, por favor.
- Nada de respirar. Que fotos?
Ele suspirou, ela ameaçou com o cotovelo outra vez, então ele se apressou.
-Tá bom, tá bom. Eu conto. Então. Eu dei um jeito de ficar com as garotas, e depois fotografei.
-Fotografou como?
Ai, ai, ai.
- Hum, bom, eu tirei fotos delas sem roupas, sabe...
- VOCÊ TIROU FOTOS DAS SUAS NAMORADAS PELADAS?
Aquela tranquilidade toda que ela aparentava na escola era só fachada, pelo jeito.
- Não é o que você está pensando, elas estavam sem roupa, mas as fotos eram muito bonitas. Sério. Nunca fiz nenhuma foto de mau gosto. Juro.
Ele queria muito fazê-la acreditar no que estava dizendo.
- Acredita em mim. Tente se pôr no meu lugar, cheio de hormônios, estava com quase um metro e noventa, nunca fui magrelo, minha mãe sempre fala que eu já nasci velho, para completar começou a nascer barba também, e pelos por todo lado, e eu sempre andava dentro da minha casa sem camisa e de short o tempo inteiro, era a minha casa, porra, e então todas aquelas garotas de repente começaram a me olhar de um jeito que me deixava louco, e pronto. Foi isso. Agarrei essas três, e nenhuma delas sabia das outras. E eram garotas que tinham a casa só para elas durante o dia...
- Ah, por isso a sua mãe me perguntou se eu ficava sozinha em casa.
- Foi. Eu ia até a casa delas, a gente passava as tardes de bobeira.
- Com quantas você transou?
Nossa.
- Para que você quer saber isso? Não tem nenhuma importância.
Evidente que ela não ia desistir da pergunta.
- Tiago, com quantas delas você transou?
Ele suspirou, já esperando pela cotovelada.
- Duas. A maior de idade e uma outra.
- Alguma delas era virgem?
Caralho.
- Uma delas era.
Ela ficou ali, olhando para ele sem expressão, e de repente ele se desesperou.
- Foi tudo antes de te conhecer, juro, eu queria ter te conhecido antes, queria ter te conhecido no berçário. – ela nem piscou. - Fale alguma coisa.
- Continue.
Ele desistiu de olhar para ela, e fixou a rua em frente.
- Então. Fiquei com elas desse jeito uns quatro ou cinco meses, mas quando quis terminar com uma delas, - e nesse ponto achou mais prudente omitir que foi porque queria atacar a quarta - ela fez o maior escândalo. Eu nunca poderia imaginar que alguma delas me levaria a sério, juro. Na minha cabeça eu era um garoto que por acaso mandava bem, e elas só estavam se divertindo comigo enquanto me deixavam tirar umas fotos bonitas. Mais nada. Mas aí terminei com a garota, ela descompensou total, a mãe dela apareceu e descobriu tudo, quis vir comigo para a minha casa pegar as fotos e falar com a minha mãe, e as outras duas estavam lá, com a minha irmã. A mãe dela fez outro escândalo lá em casa, na frente de todo mundo. O resto você pode imaginar.
Ainda olhando a rua, pegou a mão dela, ela deixou.
- A minha irmã quase me matou, e a minha mãe resolveu que tinha que me por de castigo, tipo, para sempre. Depois disso, ela marcou em cima. Hoje foi a primeira vez que ela me liberou para sair sem ter que voltar correndo, para poder ter certeza de que eu não estaria por aí desvirginando alguma outra garota... AI! - desta vez a cotovelada doeu para valer, mas ele sorriu, apesar da dor.
Continuou, agora olhando para ela outra vez.
- Foi por isso que eu nunca tinha chegado perto de você. Desde o primeiro dia de aula, quando eu te vi, linda de morrer, eu venho fantasiando como seria, mas nunca fiz nada, porque eu pensava que não ia adiantar nem tentar, já que a minha mãe não ia me dar um tempo nunca. Mas aí hoje eu vi aquele imbecil fazer exatamente o que eu queria, e, quando eu vi, já estava lá.
- Então você me acha linda de morrer?
- Então você me desculpa por eu ter feito besteira com aquelas garotas?
Tiago estava sentindo uma estranheza incomum: por um lado, ele era só o mesmo adolescente de sempre, apaixonado pela garota mais linda da escola, que, de repente, estava ali, na frente dele, depois de meses e meses de castigo celibatário; por outro, parecia que estava colocando tudo sob uma perspectiva totalmente fora do normal que tinha surgido junto com esse dia esdrúxulo, quase onírico de tão fora da curva.
Ele se sentia sendo puxado para fora da curva, e, olhando para Carol, tinha certeza de que ela também se sentia da mesma maneira.
- Bom, eu nem te conhecia. Não tenho o que desculpar.
Ela sorriu, ele deu um selinho nela, e achou que já era hora de encerrar aquele assunto.
- Vem. Vamos sair daqui.
Eles saíram andando, de mãos dadas, devagar, aproveitando o sol, aproveitando o dia, ainda seguindo a curva, sem nem imaginar o desvio que estava logo ali à frente.
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