CAPÍTULO 5 – O sonho, o baobá e o beijo no muro.
- 8 de jun.
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Maria Cecília chegou à sua casa sentindo-se péssima.
Morava sozinha desde os vinte e quatro anos, quando seus pais, já aposentados, se mudaram para a praia. A casa era grande demais para ela, estava lá já havia sete anos, e começava a achar que talvez fosse hora de se mudar. Era tão enorme que, do jeito que estava se sentindo mal, entre parar o carro e chegar ao seu quarto pareceu levar a tarde inteira.
Sem nem pensar em comer, procurou seus comprimidos para enxaqueca no banheiro, tomou dois de uma vez e deitou-se no escuro, respirando lentamente, tentando relaxar e esquecer aquela manhã insólita.
Felizmente, suas sextas à tarde eram livres, e podia ficar lá deitada até melhorar, mas após uns cinco minutos percebeu que não ia relaxar e muito menos dormir, porque não conseguia parar de pensar no que aquele garoto tinha que a afetou tanto. A aura escura, densa... E de perto, no estacionamento, ela quase teve certeza de que ela tinha mesmo profundidade.
Mas auras não tinham profundidade, e ela tinha visto coisas. Precisava dormir, e, percebendo que não ia conseguir tirar da cabeça nem a cor da interna dele, tampouco a daqueles olhos impossíveis, voltou ao banheiro e pegou um antialérgico que sempre a fazia dormir por horas a fio. Tomou dois, voltou à cama e ficou esperando o sono chegar.
Agora que sabia que ia dormir de qualquer maneira, deixou-se pensar nele. Era lindíssimo, e nem parecia um aluno de escola; devia ter uns dezenove, vinte anos. Talvez fosse repetente; segunda-feira ia checar a ficha dele para saber.
Os olhos dele pareciam líquidos. E aquilo que ele disse a ela no estacionamento, sobre as cores, será que ele também via auras? Nunca tinha encontrado ninguém que visse.
Também já não se lembrava mais porque tinha sentido medo dele, mas se lembrava de ter sentido a aura dele na pele toda, na boca, nos olhos, e então a dor tinha passado, e estava se levantando, porque a tarde devia estar linda lá fora. Desceu as escadas, abriu a porta e sentou-se na varanda, fechando os olhos para sentir o sol no rosto, e ele veio e se sentou ao seu lado.
Ela soube que era ele porque sentiu sua aura na pele outra vez: abriu os olhos.
- Como você sabe onde eu moro?
Lá estava ele, lindo, a própria aura tão estranha, e ela teve vontade de passar os dedos nela e ver se iam afundar de verdade.
Júlio pegou seus dedos no meio do caminho, segurou firme e disse, muito suavemente:
-Eu segui as suas cores.
-E como você entrou aqui? – ele não ia deixar que ela tocasse com os dedos, mas a aura dela ele não conseguia segurar. Ela olhou e viu que suas cores desapareciam dentro da interna dele, e ela estava conseguindo sentir a própria aura pela primeira vez na vida, como uma outra pele.
-Não sei. Pulei o muro? - e sorriu.
-Como você sabe das cores?
-Eu também vejo.
-Porque sua interna é tão negra, e está puxando a minha?
-Ela não é negra. Lembra? Olhe para a sua.
Ela olhou para a dela, sempre violeta.
-A sua está puxando a minha. Por quê?
-Você não se lembra?
-Me lembrar do quê?
Ele pareceu tão triste, como se ela não lembrar estivesse partindo seu coração, e ela descobriu que o seu coração também estava partido fazia muito tempo, e por causa dele.
De repente, deu um pulo na cama, seu celular tocando na mesa de cabeceira. Pegou o aparelho e viu que era Felipe, seu namorado, mas não queria falar com ele agora, então desligou o celular e tentou se lembrar do sonho que já lhe escapava, mas tinha nítida a memória de estar sentada ao lado de Júlio em algum lugar, ele pedindo para que ela se lembrasse de alguma coisa, alguma coisa sobre corações partidos...
Nunca tinha tido paciência para coisas piegas, e estava morrendo de sono. Fechou os olhos e dormiu novamente, desta vez sem sonhar com mais nada.
***
- É aqui que você mora? - Tiago ficou lá parado, olhando a casa dela. - Mas é enorme.
E era mesmo, uma casa antiga, muito bonita, que pegava mais de meio quarteirão, com uma piscina bem grande e muros muito altos que de fora não deixavam ver nada além das copas das árvores; o jardim era repleto delas, dentre as quais uma bem alta e estranha, totalmente diferente de todas as outras: parecia um baobá, que ele conhecia porque já tinha visto em uma viagem com sua família para Brasília, e seu pai, que era um entusiasta de plantas, o fez fotografar a árvore até enjoar.
- Vocês tem um baobá aqui na sua casa?
Ela sorriu, encantada.
- Você conhece baobá?
- Eu vi em uma viagem, faz um tempinho. Mas sua casa é muito bacana!
- A casa era dos pais do meu pai. Não era desse tamanho, quer dizer, a casa era, mas o meu pai comprou mais umas casinhas velhas ao redor, aumentou o quintal e fez a piscina. Só deixou de pé a que está nos fundos, e a minha mãe trabalha lá.
- O que o seu pai faz?
- Ele é médico, mas meus pais estão separados faz uns dez anos, mais ou menos. Ele já tem outra família, não mora mais aqui.
Ela foi falando e indo pelo jardim até a casinha, que tinha a frente toda de vidro e uma claraboia no meio do teto; entrava muita luz, e o lugar não tinha divisões, era todo aberto, e estava repleto de tintas, cavaletes e quadros por todos os lados, a maioria deles forrando as paredes, todos muito bonitos; muitos deles eram abstratos, mas havia muitos outros que representavam repetidamente santos e anjos em várias situações , só que os rostos não eram os convencionais de pessoas etéreas e claras como normalmente se via em arte sacra convencional; na verdade, eram rostos morenos, marcantes, de pessoas de olhos e cabelos escuros, em cenas claramente reconhecíveis da Bíblia, e, dominando todos os outros pelo tamanho e pela posição central no ateliê, havia um da crucifixão de Jesus no qual as pessoas todas tinham rostos muito diferentes e muito marcantes, muito realistas. Na verdade, aquele quadro chegava até a perturbar, de certa forma, pelas expressões daquelas pessoas: algumas sofriam, outras estavam atônitas oi indignadas, algumas olhavam para a cruz como se não entendessem o que estava acontecendo; outras, mais à margem, pareciam triunfantes. Só o rosto de Jesus não era visível, porque ele estava cabisbaixo, e os cabelos estavam à frente de seu rosto.
- Mãe?
Carol o tirou daquela reflexão: dos fundos do ateliê tinha vindo uma mulher muito bonita, com quem Maria Carolina se parecia muito; só eram diferentes nos olhos (os da mãe eram verdes), e ela tinha os cabelos mais curtos, soltos e revoltos. Também era bem mais baixa.
Ela estava prestando atenção em um tubo de tinta e alguns pincéis que trazia nas mãos, mas, ao erguer os olhos e vê-los, estacou, ficando vários segundos só encarando os dois, Maria Carolina tão muda quanto a mãe, até que ela dirigiu-se a ele, como se Carol nem estivesse lá.
- Boa tarde. Como é seu nome?
- Tiago. – hesitou meio segundo. – Namorado da Carol. – estendeu a mão para ela. – Muito prazer.
- Maria Lúcia. O prazer é meu. - ela voltou-se para a filha, que estava quieta, só olhando.
- De onde você conhece o Tiago, Carol?
- Da minha escola. Estamos na mesma classe.
Ela olhou os dois sem falar nada por tempo suficiente para ele quase começar a se retorcer, incomodado.
- Vão para a casa maior, tomem um lanche, ouçam música. Eu vou demorar um pouco mais por aqui. - já tinha se virado e ido em direção ao fundo da sala, quando avisou, sem parar de andar, - Ah, Carol, o Gabriel ligou aqui umas quarenta e três vezes, mais ou menos. Retorne a ligação, ele parecia ansioso: parece que o seu amigo vai precisar se acostumar com outro rapaz por aqui.
Carol o puxou de lá.
- Vem, vamos até a cozinha.
- Por que a sua mãe disse isso sobre o Gabriel?
- Não tenho a mínima ideia, ela vive em outra dimensão. Vem.
Entraram por uma porta nos fundos em uma cozinha muito graciosa, antiga, colorida, mas ela não parou lá. Foram direto para uma escada e subiram ao andar de cima, e ela o levou para o que devia ser seu quarto, largou a mão dele logo na entrada e foi para o telefone, ao que ele se sentiu meio abandonado e muito tímido. Não sabia se entrava, sentava-se em algum lugar, pedia para ir ao banheiro, então só ficou lá, segurando a mochila dela.
Enquanto ela digitava, ele perguntou:
- E os seus irmãos?
- Estudam à tarde, mas neste final de semana não estão aqui, foram para a casa do meu pai para passar as férias com ele.
- Você não quis ir?
- Eu vou daqui a uns dez dias.
As possibilidades daquilo mexeram com ele, e agora estava entendendo um pouco o que ela tinha dito sobre mães que se importavam. Bom, não se lembrava de nenhuma ocasião em que sua irmã sequer tivesse levado algum cara até sua casa no meio da tarde, imagine então direto para o quarto, com sua mãe fazendo qualquer outra coisa a tipo, uns cinquenta metros de distância, e em outro andar. Em outra casa, aliás.
-Alô, Bi, oi, sou eu. - Ah. O tal “Bi”. Que pressa em retornar a ligação. - Não, esqueci de ligar o celular. Cheguei agora. Não, só fiquei por aí. - Por aí? Como assim, por aí? - Amanhã a gente conversa. Hum, não, amanhã te conto tudo. Agora estou cansada.
Por que ela não falava que estava com ele?
- Não, meu amor. - AMOR? - Deixa eu contar amanhã. Por favor? - Fez uma pausa, revirou os olhos, suspirou. - Bi, minha mãe está me chamando. Relaxa, amanhã conto tudo em detalhes. Beijo.
E desligou.
- Quem é Bi, hein? - De repente, não sabia direito onde pisar. Em outros tempos, já estaria em cima dela, mas hoje apenas continuava plantado na soleira da porta.
- Bi é o apelido do Gabriel. - Ela também parecia sem jeito, sem saber bem onde pôr as mãos - Sabe, por causa daquela história de ele ser bissexual, em vez de eu chamar de Gabi, virou Bi.
- Sei. Então você hoje só ficou por aí?
- Oi?
- Você disse para ele que hoje você ficou por aí. E não falou que eu estou aqui com você.
Ela ficou olhando para ele daquele jeito que ele estava aprendendo a reconhecer.
- E também disse que a minha mãe estava chamando. Se eu começo a contar tudo que aconteceu hoje para ele, a gente ia ficar no telefone até amanhã. E você tem que estar às sete na sua casa. Já são quase quatro.
Ficaram lá se encarando, sem jeito, até que ela se virou para uma penteadeira muito antiga, sentou-se, pegou um elástico e começou a prender os cabelos.
- Não, não prenda os cabelos. – Ele finalmente se mexeu; foi até ela, pegou uma escova e começou a penteá-la. - Deixe que eu faço isso. - Ela ficou olhando para ele pelo espelho, enquanto ele passava os dedos por aquela massa maravilhosa de fios vermelhos. Ficou pensando como ficariam em uma fotografia contra a luz.
- Meus cabelos são muito rebeldes, armam demais, e se escovar fica pior.
- Seus cabelos são lindos. - E começou a pegar mecha por mecha, e escovar cuidadosamente cada uma delas. - Fiquei olhando para eles um monte de vezes, imaginando como seria fazer isso.
- São vermelhos demais.
- São vermelhos feito fogo. Combinam com os seus olhos.
- Meus olhos também são esquisitos.
- Seus olhos são fantásticos.
Ela ficou um pouco em silêncio.
- Tiago.
- Hum? - Ele adorava a maciez do cabelo dela nas mãos. E, depois de imaginar as fotografias, agora estava imaginando como ela ficaria coberta só por eles, e como seria pegar neles e puxá-la para si...
- Por que você fica me dizendo que eu sou linda?
Aquilo o tirou do devaneio.
- Como assim, por que eu fico dizendo que você é linda? Porque você é, ora.
Viu pelo espelho que ela estava desconfiada.
- Tiago, como uma pessoa que teve os apelidos que eu tive a vida toda, magrela, desengonçada, cabeluda, de repente virou linda?
Ele largou a escova e a virou para ele.
- Você É linda. Todos os caras da escola falam isso, e ficam pensando em chegar junto, mas o empecilho é que você é super fresca e anda com o Gabriel.
- Fresca? Como assim, fresca? E o que o Gabriel tem a ver com isso?
- Você está sempre de nariz empinado, anda sem olhar para os lados, e aquele cara não larga do seu pé. Tem um monte de outros caras que acham até que vocês dois tem um rolo.
- O quê? Mas ele já disse que é gay!
- Gay, não, bissexual. E por uma garota como você, até gays pensariam duas vezes. Por que não um bissexual?
- Ah, deixa disso. Mas eu também não sou fresca!
- Tá. Para quem você dá bola na escola além do seu amigo, hein?
- Mas é porque todo mundo fica me pondo apelido e me chamando de girafa.
- Todo mundo, não, só a Rebeca e aquela turma dela, provavelmente porque morrem de inveja e sabem que qualquer cara da escola adoraria ficar com você.
Parecia que ela não tinha mesmo a menor noção de quanto era linda.
- Mas agora isso não importa, porque você está comigo, então é melhor mesmo continuar a ser fresca.
- Eu não sou fresca!
Ele riu, e então a beijou com muita delicadeza, as mãos nos cabelos dela, a boca suave, um beijo preguiçoso, porque estava na sua casa, e a mãe, mesmo parecendo ser desligada e sem noção, podia aparecer a qualquer momento.
Mas então ela começou a suspirar, e foi ela quem o puxou para mais perto. E correu a boca pelo queixo dele, subiu até a orelha, e os suspiros dela começaram a enevoar o raciocínio dele. Mas ele ainda estava no controle, claro que estava, só que aqueles suspiros e beijos eram realmente demais, e aí ela começou a morder a orelha dele, subindo as mãos pelas suas costas, depois correu pelos braços, pegou as mãos dele e levou até os seus quadris, enquanto se grudava nele, agora suspirando contra sua boca.
Ele estava embriagado, de repente ficou louco, e agora estava segurando a bunda dela e a puxando contra ele, ao mesmo tempo a empurrando para trás, sem ver aonde estavam indo, querendo chegar a qualquer lugar, porque queria se grudar nela e precisava de apoio. Quando bateram em uma parede, ele a pressionou com os quadris, ao mesmo tempo em que dava espaço para as mãos, que instintivamente subiram para os peitos dela. E ele enfim fez o que vinha sonhando fazer desde que a vira pela primeira vez.
Sentiu o contorno, a textura, o volume, enquanto a menina arqueava as costas e jogava a cabeça para trás, arfando e o apertando mais ainda. Ele ficou extasiado olhando o rosto dela, de olhos fechados e boca entreaberta, respirando cada vez mais rápido, e, quando ela afinal gemeu, ele baixou a cabeça, passou a boca primeiro pelo pescoço, desceu, ela gemendo e suspirando de um jeito que o estava matando aos poucos, e, quando chegou ao peito dela e mordeu através da camiseta, afinal ela caiu em si e o parou, dando um empurrão que quase o fez cair estatelado no tapete.
Ela era bem forte.
- Não, não, espera, chega...
Ele apoiou as mãos na parede, respirando como se tivesse acabado de correr para salvar a própria vida, e a prendeu lá entre os braços, mas sem tocá-la. Fechou os olhos, sentiu que ela também estava recuperando o fôlego, e achou melhor não falar nada. Assim que se controlou, olhou para a menina, a coisa mais linda que já tinha visto, ali daquele jeito, toda envergonhada, os olhos ainda fechados. Deu um beijinho na ponta do nariz dela, dizendo:
- Me leva até a cozinha? Eu estou com fome.
Ela ainda ficou alguns segundos respirando fundo, até quea briu os olhos, o pegou pela mão, e, sem uma palavra, o levou para baixo outra vez.
***
Carol estava morrendo de vergonha. O que tinha sido aquilo? Como foi que ela tinha ido parar na parede com ele, e como foi que a boca dele tinha ido parar onde tinha ido parar, e ela ainda estava de olhos fechados para ver se um buraco se abria no chão e ela desaparecia por ele, mas o problema é que ele estava lá, a centímetros dela, e daqui a pouco ela ia era acabar puxando o menino outra vez, porque o cheiro dele e o som da sua respiração acelerada a estavam deixando tonta e maluca. Melhor ficar de olhos fechados e tentar fingir que não tinha acontecido nada, mas por que ele não se afastava dela? Se agachar para fugir por baixo dos braços dele era muita indignidade.
Felizmente ele mesmo veio salvá-la.
- Me leva até cozinha? Eu estou com fome.
Certo. Uma saída honrosa. Respirou fundo mais um pouco, abriu os olhos fitando o teto, pegou a mão dele, e foi direto para a porta, a escada, a cozinha, e afinal a geladeira.
Pigarreou, fingiu uma tosse, abanou-se um pouco, e o olhou. Ficou feliz ao perceber que ele também parecia perturbado.
- Então? O que você quer?
- Para o lanche, ou de forma geral? - ele deu um sorrisinho sacana.
- Lanche. Você não disse que estava com fome?
- Ah, estou morrendo, sim. - e olhou para a boca dela, depois foi passeando os olhos para baixo, até chegar exatamente onde sua boca estivera momentos antes.
Achando melhor mudar de assunto, virou-se, abriu a geladeira e começou a procurar o que tinha lá dentro que fosse minimamente comestível. Lamentavelmente, havia apenas um pote de margarina, refrigerantes pela metade já sem gás e várias embalagens de comida para viagem enfiadas de qualquer maneira, além de vários potes que ela sabia que estavam lá havia tempo suficiente para representar perigo de morte por intoxicação.
Ela foi tirando tudo e jogando no lixo, até que fechou a geladeira, virando-se para ele ao mesmo tempo em que erguia o corpo, e então foi ele quem ergueu os olhos de onde momentos antes estivera a sua bunda.
Muito vermelha, resolveu ignorar isso também.
- Desculpe. A geladeira está impossível, só o que tem aqui é um monte de porcarias. Quer bolacha?
Mas ele parecia que, afinal, não estava nem aí para a comida, porque a abraçou outra vez, cheirou seus cabelos, e disse, bem baixinho:
- Eu é que peço desculpas. Não devia ter agarrado você daquele jeito no seu quarto. - ele a soltou antes do que ela desejaria, e pegou-a pela mão. - Vamos até alguma padaria. A gente come qualquer coisa por lá.
Mas não chegaram a sair da cozinha, porque a mãe dela entrou em seguida.
- Vocês estão com fome? Vou fazer um lanche para vocês, podem se sentar. Me deixem só tirar esse lixo daqui, está cheirando muito mal.
Carol olhou para ele, deu de ombros e o puxou para a mesa, enquanto sua mãe saia com toda aquela porcaria nas mãos.
***
Gabriel estava muito chateado.
Carol tinha sumido com Tiago logo após o milagre da multiplicação dos caras a fim dela, permaneceu incomunicável, e, quando retornou as ligações dele, não quis contar o que tinha rolado.
Às vezes, ele se arrependia de ter saído do armário. Imaginava que quando fosse para a faculdade tudo melhoraria, mas atualmente ser bissexual, ao invés de ampliar as possibilidades, era muito limitante. Se tivesse ficado quieto, possivelmente teria mais amigos e ficantes, mas, depois de tudo que tinha acontecido com seu pai, tinha um impulso incontrolável de chocar as pessoas. Preferia falar logo e enfrentar as reações delas de uma vez.
Quando conheceu Carol, até teve uma queda por ela, linda daquele jeito. Tinha achado ótimo o jeito como ela o abordou depois que ele chutou o balde naquela aula, e teve até esperanças de que ela quisesse ficar com ele, mas logo viraram amigos, e passou. E hoje, sem mais nem menos, o Tiago e aquele aluno novo quase se pegaram por causa dela, e depois ela sumiu, ficando indisponível pela primeira vez.
E o tal cara: era tão lindo que até enjoava, mas não tinha gostado nem um pouco dele.
Bom, mas o caso é que agora estava sozinho e deprimido em casa, e, quando ficava assim, sempre acabava pensando demais naquele dia. E em Miguel.
A gênese de todos os seus problemas.
Tudo com eles tinha sido tão inocente e inesperado. Ele nunca tinha suspeitado que aquilo existia na sua vida, afinal, ele era um garoto como todos os outros, com a escola, amigos, começando a se interessar pelas meninas. Ele e Miguel tinham só um dia de diferença de idade, e suas famílias eram vizinhas de porta desde antes de eles nascerem. Cresceram inseparáveis, sempre pulando a mureta que dividia os quintais, frequentando a mesma escola, sendo vistos sempre juntos na vizinhança.
Aos quatorze anos, os dois ficaram com meninas pela primeira vez, e naquele dia eles estavam no fundo do quintal da sua casa, conversando sobre como era beijar as garotas, como eles não sabiam direito onde pôr as mãos, as reações inesperadas. O clima entre eles era o de sempre, mas de repente Miguel olhou diferente para ele, de uma forma que ele vinha surpreendendo cada vez mais no rosto do amigo, sempre muito fugaz, tão breve que ele duvidava todas as vezes que tivesse realmente acontecido.
Lá estava aquele olhar diferente de novo, mas desta vez Miguel não baixou os olhos: sustentou os seus, e nem piscava.
E o que ele falou a seguir mudou o rumo da vida dos dois para sempre.
-Sabe, cara, de repente a gente está fazendo tudo errado.
-Como assim, errado?
-Não sei. Errando tudo mesmo.
-Não estou entendendo.
-E se a gente estiver beijando as pessoas erradas?
-Mas a gente só fica com as meninas mais bonitas.
-Não estou falando disso.
-E do que é que você está falando, então?
-Você não tem ideia do que eu quero dizer?
Gabriel não respondeu, perturbado, e baixou os olhos.
- Responde, Gabriel. Não passa nada diferente pela sua cabeça?
Seu coração disparou.
-Não.
Miguel o pegou pelo queixo e o fez olhar para ele de novo.
-Acho que passa sim. - a voz do amigo estava de um jeito que ele nunca tinha ouvido antes.
Ele queria, ou achava que devia, não tinha certeza, tirar a mão dele do seu queixo, olhar de novo para outro lado e fingir que não tinha acontecido nada, mas não conseguiu.
-Não, não passa, e eu não estou entendendo o que você quer com essa conversa.
Miguel estava muito vermelho e parecia muito sem jeito, mas não se intimidou, e falou sussurrando o que ele nunca achou que ouviria, mas, por mais baixo que tivesse saído a voz dele, ele ouviu.
-E se a pessoa certa para você beijar estiver aqui, agora, bem na sua frente?
Seu coração pulou para a boca, parecia que ele estava caindo em um buraco sem fim, e, se não parasse de cair agora mesmo, não ia ter volta e nunca mais ia achar o chão debaixo dos pés. Não era certo, não podia estar certo, mas por que era tão bom sentir a mão do seu melhor amigo no rosto, e ouvir a voz do Miguel daquele jeito?
Acabou afastando a mão dele, desceu da mureta e se debruçou nela, olhando para qualquer lugar, menos para seu melhor amigo, quase seu irmão.
Quase, mas não era.
-Que é isso, cara, ficou doido? Conversa mais louca.
Miguel desceu do muro, o puxou e se plantou na frente dele.
-Olha pra mim. Você acha doido mesmo?
Ele conhecia bem aquele jeito dele de perguntar e ficar esperando irredutível até ouvir uma resposta. E foi assim, sem mais nem menos, sem o menor aviso, que aquela pergunta tinha surgido entre eles, no meio de um dia qualquer que deveria ter sido como todos os outros, e eles, o murinho, a casa, a tarde inteira pareciam estar esperando. Seria impossível tratar aquilo como se não fosse nada, porque não restava a menor dúvida de que, sem perceber, Miguel tinha colocado os dois, duas crianças sem o menor preparo, em uma situação sem volta.
Outra vez ele quis responder rápido, tornando tudo uma coisa sem importância, fingindo que era uma grande brincadeira para ser esquecida logo depois, assim eles poderiam continuar falando de garotas e voltar para a segurança, mas a maneira com que Miguel estava olhando para ele...
Acabou respondendo com outra pergunta.
-Não sei. Você acha?
E então era ele quem estava esperando a resposta, desejando e temendo que Miguel dissesse tudo que ele não tinha coragem de dizer, mas, ao invés de falar, Miguel ergueu a mão e a passou sem jeito pelo rosto dele, muito de leve, depois a escorregou para o braço, e pegou seus dedos. E ficaram os dois assim, se olhando de mãos dadas, derramando pelos olhos o que ainda não tinham coragem ou não sabiam como confessar.
Foram se aproximando sem jeito, nem sabiam quem se mexeu primeiro, as cabeças cada vez mais próximas, e sabe-se lá o que mais teria acontecido, porque bem naquele instante seu pai apareceu antes da hora em casa, cedo demais, errado demais.
-MAS QUE PORRA É ESSA????
Os dois levaram um susto tremendo, pulando um para cada lado, e ficaram sem ação ali parados, porque não dava para fingir que um segundo antes eles não estavam lá, de mãos dadas e as bocas quase coladas.
O pai dele já estava vindo para cima dos dois, urrando. Gabriel entrou na frente, apanhou, Miguel quis defender, apanhou também, e a partir daí foi o caos, com seu pai ensandecido, berrando e baixando porrada: se eles não tivessem pulado a mureta e corrido de lá, não sabia quanto mais poderiam ter apanhado. Pularam, atravessaram a casa de Miguel e foram parar na sala onde estavam os pais dele, que não entenderam nada quando seu pai apareceu atrás deles despejando xingamentos. Depois de muita gritaria, afinal o pai dele conseguiu impedir seu próprio pai de continuar tentando matá-los.
Ele ainda tinha pesadelos com aquilo, a mãe do Miguel desesperada querendo levar os dois para algum pronto socorro (ambos estavam com a boca sangrando, Miguel estava com um olho já quase fechado, e ele com um corte na testa e o nariz amassado), mas, quando seu pai conseguiu parar de gritar e contar o que tinha visto, foi aí que o pai do Miguel, de puto da vida pela surra que seu filho tinha levado, ficou puto com eles dois. Provavelmente ele ia começar a surrá-los também, se não tivesse sido a mãe de Miguel, que, antes de qualquer coisa pior, só colocou a ele e a seu pai para fora de sua casa.
Mas não sem antes o pai do Miguel avisar que nunca mais ele ia falar com o filho dele.
Ele não queria ir embora, com medo do que ele ia fazer, mas também teve que sair correndo de lá, e seu pai até tentou correr atrás dele, mas não conseguiu alcançá-lo. Ele então passou o resto da tarde zanzando pelo bairro, e só voltou para casa no horário em que tinha certeza de que sua mãe já teria chegado.
Quando entrou, ela já estava esperando por ele e sabia o que tinha acontecido, mas do seu pai nem sinal. Ela lhe disse que ele, mal ela tinha posto os pés em casa, contou a história toda, xingando e ameaçando o filho até de morte, porque jurava que nunca ia ter um filho gay.
Sem nenhuma surpresa, sua mãe o tinha defendido, aí aconteceu outra briga terrível, mas ela foi firme e ameaçou chamar a polícia, ao que seu pai disse que então ia embora de vez; ela respondeu que talvez fosse o melhor para todos, e ele foi. Sua mãe garantiu que estava muito aliviada com a partida do seu pai, porque o que ele tinha feito naquele dia foi só a gota que faltava para transbordar uma situação que há muito tempo vinha muito mal: fazia tempo que seu pai andava distante, bruto, sempre havia muitas brigas em casa, e com certeza tinha sido melhor para todo mundo assim.
A partida do pai nem foi o pior de tudo, na verdade, porque ele não era dos mais presentes mesmo; o pior foi o asco com que ele tinha olhado para ele naquela tarde. Gabriel jurou que nunca, nunca mais ia ser olhado daquela forma. E seu pai sumiu de vez, o que, apesar de tudo, foi ruim, mas nada superava nunca mais ter visto Miguel.
No dia seguinte, Gabriel ainda tinha tentado ir à casa dele ao voltar da escola, porque ele não tinha aparecido para as aulas, mas quem atendeu à porta foi o pai dele, que pelo jeito nem tinha ido trabalhar, e que também deixou muito claro que ia terminar a surra que ele tinha começado a levar no dia anterior caso fosse atrás de seu filho novamente, porque ele faria do filho um homem, e não queria nenhuma “bichinha” no caminho.
Também nunca mais esqueceu a expressão do mesmo asco do pai na cara daquele homem que o conhecia desde sempre.
Ficou doido de medo achando que Miguel estivesse preso em casa, porque ele não apareceu na escola nenhuma vez, nem naquela semana, nem na seguinte; pensou em chamar a polícia, achando que ele devia ter levado uma surra tão grande que agora estava de cama, mas ia falar o quê?
Passou o inferno naqueles dias, desesperado para ter qualquer notícia do amigo, sem conseguir saber de nada. Sua mãe ainda tentou procurar a mãe do Miguel, mas se aparecia na porta não atendiam, se ela telefonava desligavam em seguida. Estavam tratando a ele e sua mãe como párias.
Tentou falar com ele por outros meios, ligar, chamar pela janela, mas o cara também não fez a menor força para atender e terminar aquela conversa que ele tinha começado. Nem e-mail ele respondeu, mensagem de texto, nada. Nenhuma palavra.
Depois de quase vinte dias nesse inferno, um sábado de manhã ele acordou com um barulhão vindo da casa deles, e foi olhar pela janela: um caminhão de mudanças estava parado na porta, e Miguel estava ajudando a carregar caixas.
Ele se vestiu correndo, desceu, tentou falar com ele. Miguel, que não estava com mais nenhum sinal da surra no rosto, só o olhou sem expressão, virou as costas e sumiu dentro da casa. Ele chamou, e apareceu o pai dele, que o ameaçou de novo. Disse que iam embora para bem longe, e que não queria mais saber dele vindo atrás do seu filho.
Nunca mais eles se viram.
Depois disso, na escola, quando alguém perguntava o que tinha acontecido para Miguel ter sumido daquele jeito, Gabriel dizia que ele tinha morrido. Claro que todo mundo sabia que não era isso, mas depois de invariavelmente ser essa a sua resposta, pararam de perguntar e acabaram esquecendo o assunto.
Mas ele nunca tinha esquecido. Desprezava Miguel, que tinha sido covarde, e desprezava-se ainda mais, porque, mesmo depois de tudo, ainda pensava nele sem parar. Se sentia um idiota babaca por ficar sofrendo por um bunda mole como ele, que quis brincar de gay para depois sumir daquele jeito. Bagunçou a vida dele toda e depois saiu fora porque o papaizinho não queria um filho gay, mas quem ficou sem pai, sozinho e sem chão, tinha sido ele, que realmente odiava ainda pensar no cara, e mais ainda sentir sua falta.
Com tudo o que tinha acontecido, sua mãe resolveu que o melhor também seria se mudarem para outro bairro; eram muitas lembranças naquela casa.
Depois que a poeira assentou de vez, ele confirmou que de fato gostava de meninas, porque pegou todas as garotas que pode na escola nova, a ponto de ficar com fama de cafajeste, o que só servia para deixar as meninas ainda mais a fim dele. Mas também ficou por um bom tempo sem saber se gostava de garotos, ou se aquele momento estranho tinha acontecido porque era seu amigo da vida toda quem estava lá com ele.
E então, um dia, quase no fim da oitava série, sua irmã mais velha apareceu com convites para um show que ia acontecer no meio de uma rave, perguntando se ele queria ir, e ele topou. Chegando lá, sua irmã sumiu de repente, e ele ficou por conta própria, já arrependido de ter ido, porque por todo lado só tinha barulho e gente chapada. Achou que tinha entrado em uma roubada, mas talvez o show valesse a pena, então ficou por ali, até que um cara bem mais velho que ele chegou junto e puxou papo.
Gabriel não era tonto, longe disso, e sabia que não era bom dar moleza para um desconhecido, mas ele mesmo era um garoto bem grande, forte, mais alto que quase todo mundo ali, parecia bem mais velho, e estavam em um lugar público. Não estava vendo o menor sinal de sua irmã, e ele pensou se não seria hora de ver qual era a dele de verdade.
Conversou com o desconhecido, que era muito bonito e estava claramente drogado, e o resultado foi que, a certa altura, o cara o puxou, beijou sua boca, e ele gostou; bastante, na verdade. Era uma coisa áspera, diferente da maciez das garotas, mas era tão bom quanto. Depois de um tempo, ele quis que Gabriel fosse com ele para outro lugar mais sossegado, mas ele só enrolou, o beijou mais um pouco, até que o cara começou a se empolgar demais com os beijos. Se soltou dele e disse que já voltava, tinha que falar com alguém, e sumiu de vista. Assistiu ao show do outro lado da arena; quando terminou, foi procurar sua irmã, e foram embora.
Ele nem se lembrava do nome do cara, e depois ficou muito triste porque seu primeiro beijo em um homem, apesar de bom, tinha sido com um desconhecido, não com Miguel. Se seu pai não tivesse aparecido naquela tarde, tudo podia ter sido tão diferente; sofria divagando em como teria sido seu primeiro beijo se tivesse sido com ele, e quantos beijos mais teria havido, e o que mais poderia ter acontecido entre os dois.
E continuava sentindo sua falta; pensava nele com frequência demais, sentia saudades demais.
Já eram quase três horas, e resolveu que ia dar uma volta por aí para esfriar a cabeça, porque a tarde estava muito bonita e ele definitivamente não queria afundar mais ainda naquela melancolia patética.
Saiu andando e dizendo consigo mesmo que seria sem rumo, mas, quando menos esperava, estava na rua da Carol, e resolveu que ia aparecer na casa dela para ver se ela estava por lá e parava de fazer tanto mistério sobre o que tinha acontecido depois de sair da escola com Tiago; chegou à porta da casa dela ao mesmo tempo em que Lúcia abria o portão e saía carregando um monte de sacos de lixo. Ela estacou e olhou para ele, mas não pareceu surpresa com sua presença; antes pareceu resignada.
- Gabriel. Claro que você ia aparecer agora.
- Eu cheguei em uma hora ruim?
Ela não respondeu à pergunta. Jogou o lixo de qualquer maneira na caçamba da rua e o pegou pelo braço, entrando na casa.
- Não é tanto hora ruim, é muito mais não existir uma hora boa. Mas vamos lá, quanto antes começa, antes termina.
- Eu vim ver a Carol.
- Mas vai ver muito mais. Vamos para a cozinha.
***
Tiago estava pensando em como as mães hoje pareciam esquisitas. Depois que Maria Lúcia entrou e os interrompeu, ele ainda tentou argumentar.
- A gente estava pensando em ir até a padaria para tomar um lanche, Maria Lúcia.
- Eu prefiro que você me chame só de Lúcia. Vocês não precisam ir à padaria, só esperem um pouco e eu preparo um lanche para vocês.
Carol foi até a mãe, que tinha tirado um pote muito suspeito da geladeira, tirou da mão dela e jogou na lixeira.
- Mãe, tudo que tem aí está velho ou estragado.
- Verdade. Vou pedir pizzas.
- Mas estamos no meio da tarde!
Tiago aproveitou a deixa e tentou outra vez.
- E eu preciso ir daqui a pouco, tenho que estar em casa para jantar, então acho melhor a gente só ir até a padaria, depois eu trago a Carol de volta e vou embora.
Sem chance.
- Ligue para sua mãe avisando que você vai demorar um pouco mais. Depois eu levo você para sua casa.
- Sabe, a minha mãe é bastante rigorosa com horário, e não vai querer que eu me atrase.
- Bobagem. Ligo eu para sua casa, então, e aviso sua mãe que você está aqui, que vai jantar conosco e que depois eu mesma o levo embora. Me dê o número.
- Mãe, acho que isso não é boa ideia.
- Quieta, Carol. Dê o número, Tiago.
Ele passou o número sabendo que aquilo não ia dar certo. Enquanto ela ia para a sala fazer a ligação, ficaram os dois na cozinha até que ela voltou.
- Tudo resolvido, sua mãe quer falar com você ao telefone, e já avisei que você vai jantar aqui.
Ele foi para a sala levando Carol pela mão, e pegou o telefone já esperando a bronca, porque a mãe dele na certa tinha achado que ele tinha pedido para ficar mais na casa delas.
-Alô, mãe?
Não deu tempo de falar mais nada.
-Alô, Tiago, falei com a Lúcia, mãe da Carol. Como ela almoçou aqui, faz questão que você jante aí, e traz você para casa depois. Comporte-se. Tenho que desligar. Beijo.
E desligou na cara dele, que ficou olhando para o telefone sem entender o que tinha sido aquilo.
- Tudo bem com sua mãe?
- Tudo. Ela me deixou ficar para jantar.
- E por que você está com essa cara olhando para o telefone?
Ele percebeu que ainda estava parado encarando o aparelho.
- Bom, é que a minha mãe nem me perguntou nada, não me deixou dizer nada, me dispensou em dez segundos, e hoje foi o primeiro dia que ela largou do meu pé, e eu apareci com você em casa e tudo mais. Isso não pode ser normal.
Voltaram para a cozinha, onde Lúcia terminava de retirar todos aqueles potes e embalagens de dentro da geladeira diretamente para o lixo. Ela juntou tudo e saiu para o jardim, porque alguns daqueles potes estavam realmente cheirando muito mal.
Quando voltou, com ela veio Gabriel, que, ao ver Tiago, estacou na porta, a expressão de evidente desprazer em todo o rosto. Lúcia, porém, o empurrou para dentro da cozinha, e, muito séria, sentou-se à mesa e começou o que seria o discurso mais doido que Tiago já tinha ouvido na vida.
- Acho que agora que vocês três estão aqui, as coisas vão andar mais rápido. Sente-se, Gabriel, a gente precisa conversar.
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