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Image by Melanie Weidmann

Parte II - Capítulo 6 – Almas gêmeas.

23 de mai.
18 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Quando voltaram para o fundo da gruta, todos os outros estavam boquiabertos pelo que ambos tinham acabado de fazer, mas Goya ignorou e continuou a conversa com sua brusquidão habitual.

- Hanuman, o que aconteceu logo que você entrou na gruta atrás de mim?

Ele contou rapidamente até o ponto no qual todos estavam de volta e despertos, e depois foi a vez de Kymel explicar como tinham sido feitos prisioneiros.

- Eu e Clanto saímos para procurar ervas, e andamos por quase um dia inteiro até encontrar; em um instante nós estávamos colhendo, no outro eu estava em um lugar escuro e silencioso, e Grístia estava lá, dizendo que eu estava doente e que ela ia cuidar de mim, que precisava tocar a minha cor de vida, o que eu não compreendi, porque, como se pode tocar a cor de alguém?  Mas ela apenas mandou que eu ficasse quieto e não resistisse.  Eu me senti puxado por todos os lados, doía demais, tentei fugir, mas ela só gritava para que eu deixasse que ela fizesse o que era necessário, ou eu morreria. A dor era tanta que eu parei de lutar, e de repente, a dor sumiu, Grístia sumiu, e só havia aquela coisa enorme e disforme ao meu redor.

Hanuman concordou.

- Sim, quando eu fui buscar Goya, aquilo estava pairando sobre ele, tentou me atacar, mas não pode. Já eu acho que consegui atingi-la, porque ela desapareceu de repente gritando que “não era”.

- Não era o quê, Hanuman? – Priora perguntou, visivelmente pálida mesmo na penumbra da caverna.

- Não sei.  Aquela coisa apenas gritou, “eu não sou”, e sumiu de lá.  Eu despertei Goya e voltamos.  Quando fui buscar Kymel e Clanto, eles já estavam sem sua cor de vida, e eu suponho que ela não teve tempo de tirar a de Goya também.

- Não foi isso, Hanuman.

Goya falou baixinho, fitando as próprias mãos.

- Não?

- Não.  Quando eu entrei na gruta, os escuros estavam me esperando, e eu só tive tempo de gritar para avisar vocês: eles fizeram alguma coisa e eu fui parar naquele lugar, onde você apareceu dizendo que eu precisava deixar você tocar a minha cor de vida, - ele continuava fitando as mãos, parecendo estranhamento embaraçado, - porque você ia me tirar de lá.  Eu permiti, e também senti uma dor inimaginável, mas usei todo o meu poder para empurrar você, quer dizer, a coisa, e acho que ela não esperava por isso, porque você desapareceu e ela surgiu. Ela continuou tentando puxar as minhas cores, eu resisti e lutei, mas também acabei me cansando e acho que desmaiei naquele lugar.

Ele parou por alguns instantes.

- Quando eu acordei outra vez, você estava lá.

- E como você podia saber que era eu? – Hanuman estava horrorizado, porque Goya fora muito imprudente, mas o rapaz apenas deu de ombros.

- Eu só soube.   

Eles se fitaram nos olhos, como se entre os dois tivesse surgido uma espécie de compreensão mútua; o momento passou quando Priora os interrompeu.

- Eu conheço aquela coisa, mas não é uma coisa.

Todos se voltaram para ela.

- Eu não sei como eu não percebi antes. - ela tomou fôlego, e continuou. - Quando os escuros morrem, vão para o outro lado, o lugar onde estão as suas cores, e lá realmente existe paz; nós apenas ficamos pairando até o dia em que ela nos faz voltar.  Perdemos a noção do tempo e até de nós mesmos.

Priora falava baixinho, perdida em reminiscências.

- Ela sempre nos ensinou que nós somos seus filhos, que devemos obediência a ela, que ela “não era”, algo que nunca entendemos, e sempre nos lembrava que levaria ao caos qualquer um que ousasse desobedecê-la.  Houve uma vez na qual ela fez isso com um de nós escolhido ao acaso, e foi horrível: nós pudemos ver aonde ela o jogou, antes que o portal que ela abriu para aquele lugar se fechasse.

Agora ela estava praticamente sussurrando.

- Aquele lugar, o caos, eu não sei nem descrever como é medonho...  Todos os escuros tem um pavor sem limites dela por isso.  Acho que ela deve mostrar pelo menos uma vez para todos nós para garantir que ninguém a desobedeça.

- E por que você não me contou antes?

- Não sei.  Faz muito tempo que eu não penso nisso.  Mas só pode ser a mesma entidade.  Ela diz ser a mãe de todos nós e a deusa do caos.

- Essa coisa já conseguiu fazer alguma coisa com você fora daquele lugar,  quando você estava viva neste mundo, antes de se tornar imortal?

- Não.  Mas ela conseguia aparecer em sonhos, e sempre quando eu tinha mais dúvidas sobre o que eu estava fazendo por ordem dela.

- Talvez ela só tire as cores de quem permite, e só consiga atingir os escuros quando estão mortos e esperando renascer. – ponderou Hanuman.

Goya, que ouvira tudo com muita atenção, pareceu um pouco mais aliviado.

- Então, por enquanto ela não pode fazer nada com Kymel e Clanto?

Hanuman passou os dedos pelos cabelos, aflito.

- Não sei, Goya, não com certeza. Até conhecer Priora, eu apenas tinha estado aqui nesta dimensão, nos sonhos de outras pessoas e nas dimensões onde eu espalhei as minhas cores e as dela, mas de repente, depois que eu a tornei imortal, apareceram tantos lugares diferentes desses que eu já não sei de mais nada.

- Acorde esses escuros e vamos perguntar a eles o que eles sabem.

Hanuman assentiu, e teve uma ideia repentina inspirado pelos relatos de Priora.

- Eu vou acordá-los e fazer uma espécie de cena: não interfiram.

Acordou-os e os imobilizou imediatamente.

- Eu sou Hanuman, o deus imortal. – ergueu-se no ar, espalhou luz ao seu redor, e fez a própria voz reverberar de poder, ignorando os olhares espantados de Priora e dos rapazes. -   E agora vocês me dirão tudo que eu desejo saber.

Dirigiu-se ao homem mais velho dos três, já não mais um rapaz.

- Com que propósito vocês prenderam estes poderosos?  Quem ordenou isso?

- Não posso responder, Senhor Hanuman. –  ele parecia apavorado.

- Por que não pode?

O escuro não respondeu.  Hanuman então teve um palpite, e continuou improvisando, sempre pairando no ar, cercado de luzes e com a voz amplificada, mas atenuou um pouco os efeitos porque viu de relance a cara de incredulidade de Goya e inibiu-se.

- Você fez isso por ordem da sua deusa do caos, não é?

O homem empalideceu mais um pouco, mas continuou sem responder.

- Você teme que ela o aprisione no caos?

O homem arregalou mais os olhos e se pôs a tremer, mas permaneceu obstinadamente calado, até apertando os lábios um pouco.

- Ouça-me: eu tenho o poder de trazer sua cor de vida de volta, e nunca mais a deusa conseguirá atingi-lo.  – fez uma pausa para maior efeito dramático. - Ela não é, mas eu sou, e sou um deus todo poderoso a quem ela não poderá vencer JAMAIS!

Ele ergueu os braços e gritou a última palavra, fazendo as paredes tremerem e trovões soarem, sentindo-se um tremendo charlatão, mas precisava arriscar e testar sua teoria: era muito melhor experimentar com aquele escuro antes de tentar com Kymel e Clanto.  Não queria tornar mais ninguém imortal por engano ou descuido.

Ignorando a vergonha pela falta de escrúpulos em usar aquele escuro como cobaia, foi em frente.

- Confie em mim, e sua cor de vida nunca mais estará ao alcance dela ou do caos.

Hanuman livrou o homem da imobilidade, e ele ergueu-se apavorado do chão.

- Senhor Hanuman, seu poder é grande, mas a deusa é ainda mais poderosa e vingativa.

Hanuman fez soar trovões outra vez.

- ELA NÃO TEM PODER SOBRE MIM, NEM MAIS PODER QUE EU! – o pobre escuro encolheu-se. -   Eu estive na presença dela por duas vezes, quando eu a atingi, não o contrário: ELA fugiu de mim.

O escuro não parecia muito convencido.  Que fosse: era agora ou nunca.

- Eu o levarei a outra dimensão de onde vou puxar sua cor de vida de volta, e a devolverei a você.  É inútil resistir, - ele estava improvisando desbragadamente. - Nós voltaremos para esta dimensão carregando todas as suas cores: você deve controlá-las pela força da sua vontade, e só libertá-las quando eu assim o ordenar! 

O homem estava completamente apavorado, e Hanuman, achando que mais um pouco de impacto cênico ajudaria, ignorou Goya, que agora estava com todo jeito de que a qualquer momento ia começar a rir, e conclamou mais ventos, fez surgir luz das rochas, irradiou mais poder e ergueu-se ainda mais no ar, fazendo o escuro flutuar com ele. 

- ESCURO!  QUAL SEU NOME?

- SOU AZURA, SENHOR HANUMAN!

O homem deve ter se empolgado, porque começou a gritar também, mas era tanto vento que Hanuman trouxera que podia muito bem ser por conta do barulho exagerado.  Resolver calibrar melhor.

- Ouça-me bem: desobedeça a mim, Hanuman, o poderoso, o imortal, o sábio magnânimo, e eu o enclausurarei em um caos mil vezes pior do que aquele da sua deusa até o fim dos tempos!!!

Ele então fez soar ainda mais trovões, ao que o pobre escuro implorou, arrebatado e berrando:

- PERDÃO, SENHOR HANUMAN, PERDÃO: EU FAREI TUDO QUE O SENHOR ORDENAR, MAS NÃO ME ENCERRE NO CAOS!

Ignorando a vergonha que estava sentindo por representar aquele papel abjeto, Hanuman prosseguiu.

- Você agora vai me fitar nos olhos e me seguir aonde eu for, não resistirá se surgir dor, e vai fazer exatamente o que eu disser: concentre-se e se apodere da sua cor de vida quando eu a puxar de volta, e só a libere quando eu assim o ordenar.

E então Hanuman espalmou a mão sobre o peito do escuro, mergulhou em outra dimensão e o levou junto, para onde suas próprias cores estavam, e realmente gritou, desta vez não para impressioná-lo: gritou porque sentiu o poder fluindo intensamente através da sua voz, e foi como soube que estava fazendo a coisa certa.

- OBEDEÇA AO SEU SENHOR HANUMAN, AZURA!

E de repente estavam ambos envoltos em uma espécie de fogo branco, mas Hanuman não teve coragem de interromper o contato visual com ele para verificar onde estariam: só o que sabia é que, sem querer, tinha pulado de novo para outra dimensão, mais uma, onde esperava que a deusa não pudesse alcançá-los.

- AZURA! DOMINE A DOR! 

E Hanuman instintivamente soube como arrancar a cor de vida de Azura do outro lado, fosse lá onde ela estivesse; o escuro gritou barbaramente, mas permaneceu firme.

- AZURA!  VOU TRAZER SUA COR DE VIDA AGORA!! NÃO RESISTA!!  

E naquela hora Hanuman usou o poder daquele fogo branco para aumentar o seu próprio poder, e concentrou toda a sua vontade em trazer a cor de vida de Azura, que àquela altura urrava de dor, desvairado, mas não piscava ou resistia a ele.

Hanuman estava bêbado de poder, quase se sentindo desfazer, então concentrou-se e, de repente, soube que tinha conseguido.  Azura parou de urrar, e então Hanuman ordenou:

- CONCENTRE SUAS CORES EM VOCÊ!  NÃO AS LIBERTE!

Azura ergueu as mãos, e no meio delas havia uma esfera azul muito escura, brilhante e pulsando, lutando para se expandir, e Hanuman soube que agora era o momento em que deveriam voltar, ou Azura perderia o controle e liberaria suas cores naquele lugar, se tornando outro imortal.

Sentindo que estavam por um triz, desvencilhou-se com muito custo daquele poder imenso e intoxicante, e voltaram: Hanuman percebeu que ambos estavam pairando muito acima da montanha, havendo abaixo deles uma cratera enorme e perfeitamente redonda por onde tinham passado sem controle. 

Ficou com medo de ter ferido os outros que tinham ficado na caverna, mas era a hora de Azura liberar suas cores de vida na dimensão certa.

- AZURA! LIBERE SUAS CORES AGORA!

E assim ele fez: sua cor de vida, muito azul, primeiro expandiu-se espetacularmente na noite, depois contraiu-se quase instantaneamente, e tomou seu lugar próximo ao corpo dele, exatamente onde deveria estar.

Começaram a descer imediatamente, e ele percebeu que toda a neve do topo da montanha havia derretido, e que, ao redor do buraco comprido pelo qual tinham subido, a rocha transformara-se em uma espécie de cristal, muito brilhante e transparente, que filtrava a luz do luar maravilhosamente.

Era deslumbrante.

Afinal chegaram ao chão da caverna, onde todos os outros permaneciam, intactos mas absolutamente boquiabertos, até Goya, o que lhe deu uma satisfação perversa e lisonjeira.

Quase perguntou a ele onde estava a vontade de rir, agora.

Azura, por sua vez, contemplava o próprio corpo, maravilhado.

- Senhor Hanuman, é verdade, o Senhor trouxe a minha cor de vida para o meu corpo!

Hanuman assentiu, mas não tinha mais tempo a perder.

- Eu cumpri minha promessa, então agora me responda o que eu perguntei antes, Azura.

- Sim, Senhor Hanuman. – O homem o olhava com óbvia adoração, e Hanuman percebeu que cada vez mais se aprofundava naquela lenda de ser um deus, sem a menor ideia de como faria para sair dela. – Eu e meus companheiros levamos nossa vida como sempre nos foi determinado, destruindo povoados e seus poderosos, mas uma noite a deusa surgiu em nossos sonhos, ordenando que buscássemos um poderoso em particular, - e apontou Goya, - ao que imediatamente iniciamos a busca. 

- A deusa disse por que desejava que vocês capturassem Goya?

- Não, Senhor Hanuman, mas, como sempre, obedecemos e viemos na direção da aldeia onde a deusa nos disse que ele morava.  No caminho encontramos os dois rapazes que colhiam ervas, e percebemos serem poderosos: depois de dominá-los, estávamos discutindo se iríamos matá-los ou se teriam alguma utilidade, quando Chandra caiu desacordado, mas, mal tocou o solo, já se ergueu outra vez e nos disse que a deusa ordenara que não os matássemos, mas que os aprisionássemos e os trouxéssemos para longe, para esta caverna, que já tínhamos usado antes como abrigo.  Quando afinal chegamos aqui, Chandra nem bem pisou o solo da gruta e outra vez caiu, mas agora não despertou como ele mesmo: parecia que havia alguma coisa que o comandava.

- Chandra, - Hanuman dirigiu-se ao rapaz, que pareceu levar um susto por Hanuman falar diretamente com ele, - você percebeu o que aconteceu com você naquela hora?

O rapaz recompôs-se e respondeu com um abjeto ar de humildade e adoração, o que estava começando a deixar Hanuman fisicamente enjoado.

- Senhor Hanuman, da primeira vez, quando recebemos ordem de não matar, foi como um sonho, e na segunda eu apenas adormeci.  Não tenho ideia do que eu fiz.

- Continue, Azura.

- Chandra ergueu-se e espalmou sua mão no peito do rapaz maior, - apontou Kymel, - o fez adormecer, e depois fez o mesmo com o outro, mas parecia que os dois lutavam, se debatiam, presos às mãos de Chandra, falando nomes e palavras desconexas, e lutaram assim por um dia e uma noite, até que, a certa altura, um após o outro perdeu as forças, soltando gritos pavorosos, quando suas cores de vida desapareceram.  Estavam escuros como nós. Só então Chandra despertou, mas no mesmo momento acabou desmaiando de cansaço pela possessão da deusa.

Depois disso, Hanuman refletiu longamente, e decidiu-se.

- Não vou me arriscar a despertar Clanto aqui.  Vou primeiro aonde ele está. – e então, adormeceu Azura, Chandra e o outro rapaz, cujo nome ainda não sabia.

- Por que você os adormeceu? – perguntou Goya.

- Porque essa deusa aprendeu que pode entrar nos corpos dos seus escuros, e pode estar esperando dentro de algum deles.  Temos que tomar cuidado.

Espalmou sua mão no peito de Clanto e fechou seus olhos, buscando-o onde ele estava: tudo era escuridão, e com ele estava a deusa, mas ela não se surpreendeu com a chegada de Hanuman.  Sua voz então surgiu, por todos os lados, ao mesmo tempo em que não vinha de lugar algum.

- Senhor Hanuman, o deus.

E riu, zombeteira, um riso medonho, repleto de horror.

Hanuman invocou seu poder, e também falou, retumbante.

- Você é a deusa do caos?

- Sim.

-Você tem um nome?

Após alguns instantes, ela respondeu.

- Pode me chamar de Fúria.

- Por que você só deseja destruir?

- Porque eu não sou.

- Não entendo.  O que você não é?

- Você nunca entenderia, tão perdido em si mesmo, não é, Senhor Hanuman?  Está gostando de ser um deus?

Ele incomodou-se ao ouvir aquilo, mas ignorou.

- Por que você roubou a cor de vida deles?

- Por que eu não tomaria o que eu vou destruir?

- Por que você não nos busca onde estamos realmente?

Outro daqueles risos insanos.

- Porque eu não sou.  Não estou em parte alguma.

Aqueles enigmas eram muito cansativos, mas ela parecia disposta a falar, então ele prosseguiu.

- Você não tem nenhum poder no mundo onde habitam nossos corpos, não é?

Nesse momento, ela mudou de forma: agora era Dil, mas estava jovem e linda como Hanuman jamais a conhecera, e passou a falar com ele sedutoramente.

- Meu poder no seu mundo é o poder que vocês me concedem, Hanuman.  Mas você nunca hesitou em tomar o poder, não é?  Tornou-se imortal, tomou o poder das cores, tornou minha escura imortal, e agora é um deus.

E então não era mais Dil, mas Grístia, estendendo os braços para ele e deixando cair o manto, surgindo nua e linda.

-  E agora que você sentiu o gosto, está adorando todo o seu poder, não está?

E antes que Hanuman tivesse contemplado toda a beleza de Grístia, era Priora quem surgia, sobrenatural e despida também, passando as mãos pelo próprio corpo devagar.

- E então você concedeu a divindade também para mim, para saciar todos os seus desejos infindáveis.

Hanuman estava hipnotizado por aquelas imagens, até que, no lugar de Priora, estava Goya, alto, forte, poderoso, que falou com ele, aproximando-se em um convite óbvio. 

- Mas qual é o seu desejo agora, Senhor Hanuman?

Aquilo o despertou.

- PARE!  VOCÊ NÃO TERÁ PODER SOBRE MIM!

E Goya dissolveu-se, enquanto aquela risada insana ecoava, mais terrível que nunca.

- Você aprendeu a tomar os meus escuros, mas eles precisam desejar ir com você.  E a cada coisa que você me tomar, eu destruirei outra.

Naquele instante ela envolveu Clanto, e, antes que Hanuman pudesse fazer qualquer coisa, ela urrou, blasfemando e amaldiçoando tudo e todos com horrores indizíveis; tão inesperadamente quanto começara, terminou, e ela desapareceu.

E agora, onde antes estava Clanto havia um homem e uma mulher, ambos com a mesma cor de vida, absolutamente idênticas, que se contemplavam apaixonadamente.

Hanuman jamais vira duas pessoas com a mesma cor.

- Quem sou eu? – os dois perguntaram exatamente ao mesmo tempo, e responderam também juntos. – Eu sou você.

Depois aproximaram-se, tudo perturbadoramente simultâneo, como se um fosse o espelho do outro; tocaram-se nas faces, e começaram a beijar-se profundamente, balbuciando a intervalos juras de amor eterno.  Havia uma beleza sinistra em tudo aquilo, um arrebatamento exagerado, profundo e incondicional demais.

Hanuman não pode mais suportar assistir àquilo.

- VOCÊS! – colocou seu poder no comando, suspeitando que dificilmente eles lhe prestariam atenção se não fosse assim: interromperam o beijo e olharam Hanuman, mas continuavam a se acariciar.

- Onde está Clanto? Quem são vocês?

A moça respondeu, a voz etérea.

- Nós dois somos Clanto, e também não somos.

Hanuman estava definitivamente farto de todos aqueles jogos de palavras.

- Não entendo vocês.  Onde está Clanto?

O rapaz falou agora.

- Olhe e veja, Senhor Hanuman.

E os dois juntaram suas faces lado a lado, olhando Hanuman de frente, e então ele viu: Clanto estava lá, em cada detalhe do rosto de cada um, o que havia de mais delicado nela, a força nele.

A compreensão o atingiu como um raio.

- A DEUSA DIVIDIU VOCÊ EM DOIS!!!

Então eles olharam outra vez um para o outro, como se não conseguissem ficar mais do que alguns segundos sem se contemplar, e retomaram as carícias, mas a moça ainda falou, antes de retomar os beijos.

- Não somos dois, Senhor Hanuman, somos um. 

E deram a conversa por encerrada, voltando ao beijo e desaparecendo dali.

Quando Hanuman recompôs-se e voltou à gruta, lá jazia o corpo sem vida de Clanto.

Então, sem parar para ouvir os gritos dos outros, correu para os outros dois escuros adormecidos: espalmou a mão sobre o peito de Chandra, tentando segui-lo, mas só o que pode ver foi um vislumbre de outro casal, ambos com a mesma cor de vida, ambos bizarramente parecidos.

Viu o mesmo quando seguiu o escuro cujo nome não sabia.

Retornou e, sem perder tempo, virou-se então para Goya, desesperado.

- Preciso trazer a cor de vida de Kymel antes que ele adormeça outra vez, ou ele vai morrer também!  Saia daqui com Priora e Azura, desçam agora!

Sem esperar mais ou explicar qualquer coisa, Hanuman ergueu Kymel nos ares e subiu pela cratera.

Invocou todo o seu poder, e começou.

- Kymel, ouça bem, eu vou trazer sua cor de volta, não resista, por maior que seja a dor, não tire seus olhos dos meus, confie em mim, e quando a dor passar concentre-se em manter a sua cor de vida com você: não deixe que ela se disperse, e você só vai soltá-la quando eu der ordem para isso!  Você entendeu?

Ele assentiu, ainda mais apavorado que Azura, então Hanuman espalmou sua mão no peito do rapaz e o levou com ele.

Lá, naquele lugar cheio de fogo branco, Hanuman trouxe de volta a cor de vida de Kymel, e o rapaz a manteve firme até voltarem. Estavam ainda mais elevados, brilhando alto no céu: provavelmente, as pessoas das aldeias mais próximas deviam estar vendo aquilo e imaginando mil coisas, nenhuma delas nem perto da verdade.

Deu ordem a Kymel para liberar sua cor de vida, e uma luz amarela expandiu-se e se contraiu, ao que Hanuman começou a descer os dois.  A cratera na montanha permanecia intacta. 

Lá estavam os corpos de Clanto, Chandra e o outro escuro: Hanuman queria ter sabido seu nome.  Então, sob o olhar atento e atemorizado de Kymel, ele sepultou os rapazes como Goya fizera com seu lobo, deixando os três imortalizados em cristal, contemplando as estrelas através da cratera no teto, e lançou uma ordem à montanha, que reverberou seu poder como se estivesse viva.

Provavelmente estava.

- Você vai permanecer aqui até o final dos tempos, resistindo às intempéries, aos homens e aos animais, guardando estes corpos para sempre.

A montanha suspirou, e Hanuman soube que ela o atenderia; voltou-se para a saída, passou pelo lobo de Goya, e foi embora, seguido de Kymel.

 

***

 

Eles desceram a encosta, e quando chegaram ao ponto onde estavam os outros, Azura agora acordado, Goya, ao ver que as cores de vida de Kymel estavam intactas novamente, fez uma coisa muito inesperada: abraçou Hanuman com muita força, enquanto sussurrava “obrigado”.

Priora o abraçou em seguida.

- O que houve lá, Hanuman?

- Precisamos voltar às aldeias imediatamente, no caminho eu conto a vocês.

Havia uma nova autoridade na forma de Hanuman falar que ele mesmo não reconhecia, mas estava cansado demais para refletir sobre o que estava acontecendo com ele; ainda assim, Priora objetou.

- Hanuman, olhe para todos eles, não vão aguentar muito tempo mais.

Realmente: Goya e Kymel estavam abraçados e escorando-se um no outro, e Azura tinha todo o jeito de que poderia cair no sono outra vez a qualquer momento, e em pé.

Hanuman estava muito preocupado com qualquer poderoso que pudesse dormir e ser pego pela deusa, mas, afinal, ela apenas tinha feito aquilo com escuros adormecidos e tentado tirar a cor de Goya sem conseguir.  Não parecia provável que tivesse o poder de atingir qualquer um que não fosse escuro: talvez a pressa fosse injustificada.

Não faria mal em deixar que todos descansassem; até ele desejava muito poder dormir e esquecer-se um pouco de tudo que tinha acontecido, então concordou, e percebeu que todos pareciam esperar sua permissão.

Aquela sensação de autoridade já começava a não causar apenas estranheza: estava começando a se acostumar, e agora mesclava-se um sentimento de certa satisfação também.

Envergonhou-se.

- Vamos terminar de descer e descansaremos lá embaixo.

Quando chegaram à encosta da montanha, Hanuman achou que seria um bom momento para resolver a questão de Azura.

- Você é livre para partir agora ou depois de descansar, se quiser, mas não quero nunca mais ouvir falar que você matou alguém, destruiu qualquer aldeia, provocou qualquer malefício a quem quer que seja, ou eu pessoalmente vou retirar sua cor de vida outra vez e mandá-lo para o caos.  Entendeu, Azura?

O homem assentiu, titubeou, e enfim pareceu encher-se de coragem.

- Senhor Hanuman, eu... eu não posso me juntar ao Senhor e à Senhora Priora?  Seguir com vocês?

Hanuman não se surpreendeu: não via nenhum mal específico nele, que realmente os considerava deuses, e talvez fosse mais sábio mantê-lo por perto, depois de tudo que ele vira acontecer.

- Pode, se quiser.

Azura sorriu satisfeito.

- Obrigado, muito obrigado.  É uma honra para mim.

Parecendo desejar mostrar-se útil, Azura acendeu a fogueira e providenciou o jantar: enquanto comiam, Hanuman contou tudo que vira e fizera depois que seguiu Clanto.  Apenas omitiu que aquela coisa tinha se transformado em Dil, Grístia, Priora e, por fim, Goya.

Chegou ao ponto no qual ela dividira Clanto ao meio.

- Ela o envolveu, mas eu não tive tempo de fazer nada, e de repente ela estava gritando, cheia de raiva; não tenho certeza de que ela pretendera dividi-lo em dois, acho que só queria destruir seu espírito, mas alguma coisa pareceu dar errado.

Kymel, que ouvia tudo muito emocionado, interrompeu Hanuman.

- Você acha que, de alguma forma, Clanto continua vivo, mesmo dividido?

Hanuman coçou a cabeça, em dúvida.

- Sinceramente?   Não sei.  As duas partes se pareciam fisicamente com Clanto, mas eram indivíduos diferentes dele, pelo que eu pude observar no pouco tempo em que falaram comigo. - deu um tempo para Kymel absorver as implicações de sua resposta. -  Quando eu tentei seguir os outros dois escuros, só o que eu vi foi o vislumbre de mais dois casais, as mesmas cores de vida, mas eles desapareceram ainda mais rápido que Clanto, ou... suas metades. Acho que isso aconteceu depois de tentativas fracassadas daquela coisa de tentar destruí-los.  Ou talvez de tentar torná-los imortais.

Todos permaneceram em silêncio por bastante tempo, refletindo, até que Priora falou.

- Pelo menos sabemos que essa deusa, essa coisa, não tem o poder de destruir a cor de ninguém.

Goya respondeu, preocupado.

- Talvez não tenha, mas sem dúvida vai tentar. 

Hanuman assentiu.

- Muito provavelmente, a esta altura ela já deve ter dividido mais dos seus escuros ao meio, tentando descobrir como torná-los imortais ou acabar com eles. 

Kymel ainda quis fazer mais uma pergunta.

- Para onde você acha que aqueles que nasceram de Clanto foram?

- Não tenho certeza, Kymel. - ele já tinha pensado nisso. -  Imagino que estejam onde ficam as cores de vida das pessoas ao morrer.  Talvez renasçam, um dia.

Mas Hanuman não podia deixar de pensar naquele fascínio de uma alma pela outra, naqueles beijos profundos, e não sabia se algum dia aquelas almas gêmeas pensariam em outra coisa que não nelas mesmas.  Pelo menos, quando as viu, elas pareciam sentir uma sede insaciável uma da outra.

Por outro lado, ele sentira o mesmo fascínio por Priora quando a tomara pela primeira vez, tanto quanto ela por ele, mas um dia emergiram de toda aquela lascívia...

Ele estava cansado demais de pensar, então puxou Priora pela mão.

- Venha, vamos deixá-los descansar.  Quero tomar banho no regato.

Lá chegando, despiram-se e ocuparam-se um com o outro até muito depois do sol raiar. 

E Hanuman quase esqueceu tudo, apenas lembrando-se de vez em quando da deusa transformada em Goya, e naqueles momentos buscou seus olhos no meio das folhas, mesmo sabendo que ele não estaria lá.

 

***

 

 Devia ser próximo do meio dia quando Hanuman começou a vestir-se, mas Priora quis ficar mais um pouco.

- Está tudo tão bonito, e a água está tão quente...

Era verdade: a montanha de cristal agora brilhava ao sol, criando milhares de pequenos arco-íris que se refletiam na água, e todo o calor da neve derretida permanecia. 

Ao voltar, caminhando distraído e relaxado pela primeira vez em dias, de repente Hanuman estacou: logo após uma curva, viu Goya e Kymel dentro da mata, nus, beijando-se, e dessa vez quem abriu os olhos ao se sentir espreitado foi Goya; e, da mesma forma que Hanuman havia feito com Priora, ele virou-se, deixando Kymel de costas para a trilha.  Continuou o que fazia o fitando nos olhos sem parar, até chegar a um clímax que pareceu intensíssimo, dada a forma como gritou no final, mas nem nesse momento deixou de olhá-lo fixamente.  

Hanuman, que também assistira a tudo impassível, deu meia volta quando eles terminaram e retornou ao lago, toda a paz anterior esquecida, os pensamentos em avalanches de sentimentos indizíveis.

Mergulhou na água sem sequer tirar as próprias roupas, e, quando Priora se surpreendeu e começou a perguntar o porquê daquele ímpeto inesperado, ele a calou com beijos violentos, tentando esvaziar de si tudo que não queria reconhecer.

 
 
 

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