CAPÍTULO 7 – Beijos e auras
- 1 de jun.
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Sábado, vinte e cinco de Junho, seis horas da manhã.
Carol estava acordada na cama, sem ter dormido a noite toda, olhando para o teto e pensando naquela visão causada pelo baobá, achando que podia muito bem estar enlouquecendo.
Tiago estava no banheiro, escovando os dentes e avaliando se era ainda muito cedo para ligar para a Carol.
Gabriel ainda estava dormindo, inquieto e rolando na cama, quase febril, sonhando e chamando por Miguel.
Maria Cecília estava fazendo seu café da manhã, sentindo-se triste pela solidão, e pensando em como era patético ficar obcecada por um aluno.
E Júlio estava pensando que desta vez as coisas seriam diferentes.
***
Naquela manhã, Miguel estava se lembrando do que tinha acontecido alguns dias antes.
Depois de bastante tempo doente, finalmente seu pai tinha desistido do tratamento. Sua mãe respeitou, e ele morreu na casa deles, não sem antes chamar a ele e à sua mãe para uma última conversa, certamente sentindo que sua hora estava vindo.
Primeiro falou com sua mãe, tão baixinho que só ela ouviu. Com muito esforço, ele acariciou o rosto dela, pegou sua mão, levou aos lábios.
Depois o chamou.
- Filho.
Por alguns instantes, Miguel contemplou seu pai, constatando que breve ele ia desaparecer da sua vida. Então aproximou-se, seu pai pegou sua mão, o puxou para um abraço.
- Eu fui duro com você, mas foi só porque eu queria fazer de você um homem.
Ele esperou, Miguel permaneceu calado, ele continuou.
- Eu separei você do seu amigo, mas eu precisava garantir que você seria um homem, sem máculas, sem manchas, e foi melhor assim.
Novo silêncio constrangedor, seu pai o encarando, ele olhando pela janela.
- Prometa para mim que nunca mais você vai chegar perto dele.
Miguel não respondeu.
- Filho. Promete. – seu pai estava agora apertando sua mão, tentando fazer que ele o olhasse nos olhos.
- Miguel, promete esta última coisa para mim.
Ele respirou fundo, olhou para seu pai, respondeu.
- Eu não posso fazer isso.
Seu pai começou a chorar.
- Você não pode me dar esse desgosto nesta hora.
Talvez, em outras circunstâncias, fosse possível ceder ao pedido dele, afinal, quem poderia negar qualquer coisa em uma situação como aquela?
Bom, ele podia.
- Se eu prometer, vou quebrar a promessa.
- Filho, por favor...
Ele interrompeu.
- Eu respeitei seu desejo este tempo todo porque você está doente. Mas agora... – respirou fundo, continuou. – Agora, para onde você vai, nada disso tem importância.
- Então não dê então esse desgosto à sua mãe.
- Ela só ia querer que eu prometesse por sua causa, não por causa dela.
- Filho...
- Não.
Seu pai o olhou por longos instantes, o rosto crispado pelo desgosto, mas acabou largando sua mão, virando o rosto para cima, fitando apenas o teto.
E nada mais foi dito. Ele adormeceu, não acordou mais.
Miguel até chorou, mas não mais do que imaginou que choraria.
Depois do enterro, voltaram para casa, arrumaram as coisas que eram do seu pai para doação, tiraram tudo o que lembrava a doença dele, guardaram alguns poucos objetos que tinham um significado especial e traziam boas lembranças. Sua mãe então decidiu viajar para a casa da irmã no interior, mas Miguel ficou. Mais alguns dias se passaram, e agora ele estava livre, e pronto para retomar tudo exatamente de onde tinha parado.
***
- Alô?
- Oi, Carol.
Muito bom ouvir a voz dele.
- Bom dia!
- Bom dia. Posso chegar aí mais cedo?
- Claro que pode. A que horas você chega?
- Para falar a verdade, já estou aqui na sua porta.
Ela desligou e correu para abrir o portão.
- Estava morrendo de saudades de você.
- Eu também.
Eles praticamente se jogaram um nos braços do outro, beijando-se até que Tiago descolou suas bocas, olhando para ela como se não pudesse acreditar no que via.
- Eu nem sei mais o que é isso que eu sinto por você, não tenho ideia como apareceu assim, de um dia para o outro, mas não pode ser só amor.
Aí ele a beijou de um jeito que certamente não era normal, porque o que ela sentiu foi indescritível, absurdamente intenso e quase insuportável.
Primeiro ele encostou a boca na dela, inspirando o ar que ela exalava, e ela respirava o ar dele. Depois a enlaçou e a apertou como se quisesse tocar todas as partes do seu corpo.
Parecia que eles estavam colados por uma alguma força invisível, e era impossível se separarem, a respiração deles era uma só, e ela não sabia mais onde começava seu corpo e terminava o dele. Tudo começou a ficar forte demais, porque tinha a sensação de que ia explodir com aquele beijo, se podia ser chamado de beijo, e de repente ela começou a andar para trás no tempo, e tinha certeza de que o estava arrastando junto, e o que ela via, ele via também.
***
O cheiro dela era intoxicante e viciante, e o ar nunca mais seria suficiente para mantê-lo vivo sem o aroma dela. Quis ouvi-la dizendo seu nome, e sentir o gosto da boca dela na dele.
Sentiu como se, sem ela, ele não fosse nada.
Puxou-a mais para perto, abraçou-a, e então começou a beijá-la e a explorar seu corpo de um jeito diferente, como se estivesse encontrando partes do seu próprio corpo ao tocá-la, e teve uma necessidade insuportável de se fundir a ela de todas as formas possíveis.
Parou apenas para tentar dizer o que sentia, mas não havia palavras que servissem, então voltou para o beijo.
E de repente parecia que ela desejava o mesmo que ele, e o desejo dela potencializou o dele mil vezes, e queria desesperadamente todas as partes dela nele ao mesmo tempo, mas suas mãos não eram mais suficientes, e sentiu uma necessidade absurda e assustadora de ter aquela menina, aquela mulher, de qualquer jeito, e, quando parecia que estava quase desfalecendo com toda aquela intensidade, ela o levou embora, para todos os beijos, todos os corpos, todos os momentos, todas as vidas.
Ela o levou de volta.
***
Ele gritava porque ela tinha desaparecido junto com metade da sua aldeia.
Ela estava na margem do lago onde ele se afogava.
Ela paria e morria ao dar à luz, e ele atônito com o bebê no colo.
Ele tinha febre, e partia o coração dela ao morrer.
Ela quebrou o coração dele, porque partiu e não voltou.
Ele se matava ao vê-la morta em uma vala.
Ela ouvia os gritos dele no meio do incêndio.
Ela caia pelo morro e ele estendia a mão tarde demais.
Ele sangrava, ela tentava estancar.
Fogo, água, ar, terra, raios, violência, tempestades, partos, febres, acasos, quantas separações irremediáveis.
As tragédias se sucediam a uma velocidade vertiginosa, e não seria possível contar por quantas vezes foram crianças, jovens, apaixonados, em todos os lugares.
Ela, ele, ela, ele, de repente nenhum dos dois sabia mais quem era, só sabia que sempre, infalivelmente, eles se reconheciam, e, quando um deles ia embora, a vida perdia o sentido, os corações se partiam, e nada mais importava, até que tudo começasse outra vez.
O medo de acontecer mais uma vez tomou os dois, e, quando acharam que iam sucumbir ao pavor, ouviram ao longe dois nomes, no meio de todos os outros que tiveram.
-CAROLINA! TIAGO! VOLTEM, VOLTEM, VOLTEM!
***
Tiago se sentiu puxado de volta, e ainda estava preso em Carolina, as bocas coladas, os dois respirando apenas o que saía da boca do outro. A tontura tomou conta dele, que sentiu as pernas amolecerem, e afinal descolou seus lábios dos lábios dela, que estavam azuis. Carol pareceu tentar abrir os olhos, mas não conseguiu, e amoleceu completamente. Ele ainda tentou segurá-la, mas acabou resvalando ao chão com ela nos braços, e depois não viu mais nada.
***
Maria Cecília entrou no carro, sua cabeça explodindo. Suspirou, tirou seu carro da garagem, e desceu novamente para fechar o portão. Precisava mandar instalar algum mecanismo automático um dia desses.
-Maria Cecília.
Ela estacou no meio do caminho. Não era possível.
Virou-se devagar, pensando se devia gritar por socorro, e lá estava ele, parecendo um sonho contra a luz da manhã, delineado pelo negro da sua aura, e, ao redor, uma miríade de cores quase tão extensa quanto seu campo de visão.
- O que você está fazendo aqui? – falou baixo, tremendo por dentro.
- Eu estava esperando você sair.
- Eu pensei ter deixado claro que eu não falaria com você fora da escola.
- Você quer falar comigo, sim.
Ela tentou soar sarcástica.
- Você por acaso lê pensamentos?
- Os seus, sim.
- Você lembra que eu disse que, se você continuasse a me incomodar, eu chamaria a polícia, garoto? – ela fez a pergunta já se dirigindo ao carro para pegar seu celular, mas ele a pegou pelo braço e a virou de frente para ele.
- Eu não sou um garoto. E você não quer fazer isso de verdade.
Ela tentou soltar seu braço.
- Me solta!
Ao invés disso, ele pegou seu queixo com a mão livre, e a fez erguer a cabeça, que estava muitos centímetros abaixo da dele.
- Olha pra mim, Maria Cecília.
- Me solta!
- OLHA PRA MIM!
Alguma coisa na voz dele fez com que ela obedecesse, ela não conseguiu não olhar, e lá estavam aqueles dois pedaços de vidro, gelo, água; ela não sabia com o que comparar aqueles olhos.
- Por favor, me solta. Você está me assustando.
Ele afrouxou o aperto em seu braço, mas não largou seu queixo, e parecia que ele também estava se afogando nos seus olhos, tão envolvido quanto ela estava.
Ele demorou mais alguns segundos daquele jeito, mas, quando parecia que alguma coisa dentro dela estava quase se rompendo, ele suspirou, fechou os olhos, respirou fundo algumas vezes, e afinal a soltou, dando um passo para trás.
-Maria Cecília, por favor, você pode me ouvir só por alguns minutos?
-Eu não tenho tempo agora. Você pode me procurar no intervalo das aulas, segunda feira. – ela falou aquilo aos arrancos, odiando deixá-lo perceber o quanto ela estava perturbada.
- Por favor. Eu não vou demorar. Agora sou eu quem está pedindo, por favor.
Tinha tanta tristeza, tanta agonia e abandono naquele pedido.
-Você tem cinco minutos.
***
Ele sentiu-se eufórico, porque afinal, pela primeira vez em milênios, ela não fugiu: não correu, não se recusou a olhar para ele, não gritou, não se jogou de lugar nenhum só para escapar. Maria Cecília sempre fugia, e, mesmo que aquilo acabasse com ele todas as vezes, procurá-la e tentar falar com ela era um impulso incontrolável.
Ele precisava dela desesperadamente; sem ela, ele não era nada, e jamais chegaria a lugar algum.
Desta vez só tinha arriscado segurá-la e forçá-la a olhar para ele porque, no primeiro sonho, teve certeza de que a tristeza dele a comoveu, como se ela não quisesse que ele estivesse sofrendo daquele jeito. E também porque, no segundo sonho, ela tinha se lembrado da última vez em que eles estiveram vivos, juntos e felizes, até ele cometer aquele erro abissal.
Mas agora não era o momento de se torturar outra vez. Agora, ele tinha que ter muito cuidado para conseguir trazê-la mais perto, o mais perto possível.
-Obrigado, Maria Cecília.
-Professora Maria Cecília.
-Desculpe, Professora, – tudo bem, ele a chamaria de qualquer coisa que ela quisesse, mas não resistiu a dizer o que lhe passou pela cabeça logo a seguir, – mas é difícil olhar para uma mulher tão linda e tratá-la como uma professora que não tem o poder de me deixar sem ar só de olhar para mim.
- Se você começar com inconveniências, pode parar por aí e seguir seu caminho.
Ela até tentou soar ríspida, mas corou violentamente, sua voz saiu descompassada, e parecia não saber bem onde pôr as mãos, que acabaram indo parar nos cabelos que ela começou a prender com um elástico que surgiu magicamente em sua mão.
- Não, não faça isso, não prenda os cabelos, eles são tão lindos, e a sua dor de cabeça só vai piorar.
Ela parou no meio do movimento.
- Como você sabe que a minha cabeça está doendo?
- Por causa da sua aura. Eu posso ajudar a melhorar, se você quiser.
- Você enxerga mesmo as auras?
- Tanto quanto você, e eu sei quando alguém está sentindo dor, e onde. Posso fazer melhorar? – ele não a queria ver sentindo dor nenhuma, nunca.
- Não vejo como.
- A gente pode voltar para dentro e sentar na escada da sua varanda, aí eu mostro para você, e digo o que eu tenho a dizer.
- Que varanda? – ela estava muito perturbada; ele tinha que ter cuidado.
- O lugar onde a gente conversou no seu sonho.
- Por que você acha que eu sonhei com você?
- Porque eu estava lá.
Ela ficou alguns instantes olhando para ele, a expressão indecifrável. Afinal, concordou.
- Tudo bem, só vou parar o carro direito.
- Eu faço isso para você. – sem esperar a permissão dela, entrou no carro, manobrou e estacionou em frente ao portão, porque estava com medo que ela entrasse primeiro e acabasse fugindo. Quando desceu e trancou a porta, ela estava de braços cruzados, contrariada.
- Você é muito atrevido.
- Não, sou cavalheiro.
Maria Cecília virou-se, entrou, ele a seguiu. Ela parou a poucos passos do portão, sem fazer menção de fechá-lo.
- Pode falar.
- Olha, melhor fechar o portão, pode passar algum ladrão, sei lá... – claro que ele não tinha o menor medo de coisa alguma, quanto mais de algum ladrão, mas ela não sabia disso e ele queria muito ter privacidade.
Fechou o portão, depois virou-se e caminhou em direção à varanda.
- Você só faz o que você acha que tem que fazer, garoto?
- Eu já falei, não sou garoto, e faço o que é melhor para você. Por favor, sente-se aqui do meu lado. Eu não vou demorar.
Ela sentou-se o mais longe possível dele.
- Por que a sua aura é tão escura?
- Ela não é escura.
- Claro que é, parece até que tem profundidade.
- Ela não é escura. Ela é da cor da sua.
- Ela é negra.
- Ela é exatamente da cor da sua, Maria Cecília. Professora Maria Cecília.
- Não é o que eu estou vendo.
- Porque ela não está aqui. Pare de olhar para a minha e veja o que a sua está fazendo.
Ela olhou, e deve ter visto que a sua própria aura estava dançando ao redor da dele, e, às vezes, as bordas pareciam desaparecer naquela escuridão, depois retrocediam, só para se aproximar outra vez. A aura dela era atraída irresistivelmente para ele, tentando tocar alguma coisa que não estava lá.
Ela ofegou.
- O que é isso? Eu nunca vi uma aura fazendo isso!
- Não é a minha aura. É a ausência dela.
- Você não tem aura?
- Maria Cecília, preste atenção: tenho, e é da cor da sua, mas não está aqui. Outra hora, se você quiser, eu explico , mas agora me deixe tirar sua dor.
Ela estava tão linda, de olhos muito abertos, tão assustada, e aquilo o estava matando, porque ele se lembrava muito bem de quando ela confiava completamente nele. Ergueu as mãos e pousou a poucos centímetros da cabeça dela, que tentou recuar.
- Calma. Eu nem vou encostar em você.
Então ela relaxou um pouco, e outra vez eles ficaram se olhando, e ele estava quase se esquecendo do que tinha ido fazer ali.
- Feche os olhos.
Ela obedeceu, ele também fechou os olhos, e começou a sentir a aura dela só com as palmas das mãos. Em seguida começou a reorganizar tudo, de dentro para fora. Foi um trabalho lento, mas familiar e muito prazeroso, e fez aquilo devagar, com carinho, saboreando a sensação de estar tão perto dela assim, dócil, depois de tanto tempo.
Afastou as mãos, mas não resistiu e passou os dedos pelos cabelos que estavam caindo sobre seu rosto. Desta vez ela não se assustou, abriu os olhos, suspirou.
-Melhor?
-Muito.
- Eu também posso ensinar você a bloquear sua visão das auras dos outros sem ter dor depois.
- Como?
- Leva tempo, e hoje eu prometi que só ia ficar aqui alguns minutos. Mas se você quiser, eu volto.
Ela não disse nada.
- Maria Cecília, eu queria fazer outro pedido.
- Qual?
- Não me mande embora de perto de você. Nem dos seus sonhos. Por favor. Eu nunca seria capaz de lhe fazer mal. Eu só quero... me aproximar um pouquinho, e, se você deixar, eu ensino você a controlar esse poder que você tem.
- Isso não é poder nenhum.
- Tudo bem, mas você não quer parar de ter dor de cabeça?
Ela hesitou brevemente.
- Quero.
- Eu ensino.
- Por que você quer tanto se aproximar de uma professora, Júlio? E por que eu?
- Porque é você, não porque é uma professora. – ele pegou a mão dela e levou aos lábios, a tocou muito, muito de leve, depois a baixou outra vez, mas ficou segurando mais um pouco, e ela não fez nada para que ele a soltasse.
- Você promete que não vai me afastar?
- Não sei.
- Por favor?
- Isso tudo é muito esquisito.
- Isso tudo é destino.
- Eu não acredito em destino.
- Mas você acredita em mim quando eu digo que eu nunca, nunca faria qualquer coisa para machucar você?
Ela parecia travar uma luta interna.
- Eu não sei.
Então ele não conseguiu mais resistir àqueles olhos, ao cheiro dela, àquele calor que ela emanava, e à aura dela dançando ao redor dele, e, sem parar para pensar que poderia muito bem se arrepender pelo resto daquela vida, ele a puxou e pousou um beijo ainda mais leve em seus lábios, muito, muito delicado.
- Promete. Por favor.
Demorou um pouco, mas, quando ela respondeu, a resposta o encheu de júbilo.
-Prometo.
Ele sorriu, levantou-se, pousou outro beijo na mão que ainda estava segurando, e foi embora, sem se despedir nem olhar para trás.
***
Gabriel já tinha tomado café e se vestido, completamente mal humorado, especialmente depois de passar a noite sonhando com Miguel. Estava se sentindo ainda mais frustrado que de costume, não conseguia parar de pensar nele, e estava curtindo a mesma dor de cotovelo que achou que já estaria superada àquela altura, mas claro que não estava.
Ainda era muito cedo para ir à casa da Carol, então resolveu dar uma volta. Saiu de casa, sentindo o sol morno no rosto, para estacar logo em seguida.
Miguel estava atravessando a rua e vindo em sua direção.
Gabriel?
Ele terminou de atravessar e ficou lá, parado na beira da calçada, olhando para ele sem jeito, lindo, todo de preto, abatido e com olheiras enormes, como se não dormisse direito havia dias.
Também estava bem mais magro e muito mais alto do que ele se lembrava; absolutamente deslumbrante.
Filho de uma puta.
- O que você está fazendo aqui? – a fúria que surgiu dentro do peito dele não tinha tamanho.
- Eu vim procurar por você, a gente precisa conversar.
Gabriel interrompeu.
- A gente não tem nada para falar um com o outro. Pode ir dando o fora.
- Gabs, me escuta...
Como ele ousava chamá-lo assim?
- Não me chama desse jeito e sai daqui, agora.
- Não sem antes falar com você.
- A gente não tem nada para falar.
E já ia se virando para entrar em casa outra vez, quando Miguel o segurou pelo braço.
- Gabs, espera.
- GABS O CACETE! – e apesar de segundos antes ter mandado o cara embora, puxou o braço e acabou despejando tudo de uma vez. - Olha aqui, depois daquele dia maldito, eu tentei de todo jeito falar com você, mas você me tratou igual a um leproso, aliás, igual a um “veadinho”, como o seu pai me chamou, como se eu fosse impedir você de ser macho, então pronto, eu entendi muito bem o recado. Não tenho mais nada para falar ou ouvir de você faz tempo. Quando eu procurei você desesperado, você me deixou na mão, não deixou? Você não tem a menor moral de querer que eu escute qualquer coisa agora. Pode dar o fora daqui, por mim você pode se foder mil vezes bem longe da minha vista, seu babaca de merda. – já ia se virando para entrar de novo em casa, quando se lembrou de perguntar mais uma coisa. - Ah, só me diz uma coisa, você estava passando e por acaso me viu, ou já sabia onde eu moro?
- Eu sei onde você mora desde o dia em que você se mudou para cá.
O jeito manso como ele respondeu depois de ser xingado daquele jeito só o deixou com mais raiva ainda. Cretino. Fora a cara de pau de admitir que sabia onde ele morava desde aquela época, mas nunca ter dado sinal de vida.
- Se sabia, devia ter evitado passar por aqui.
E de novo virou-se para fugir dali o mais rápido possível, porque estava travando uma luta interna entre encher a cara dele de porrada ou finalmente dar um beijo naquela boca como vinha sonhando desde aquela tarde miserável.
Ele veio atrás, entrou na frente dele e tentou retomar a conversa.
-Gabriel, por favor, pelo amor de Deus, me escuta...
Diante de tanta falta de noção do cara, ele afinal decidiu o que queria fazer mais.
- NÃO!!! – deu um empurrão nele e em seguida meteu um soco com tudo. Aí ele caiu, gemendo e com a boca sangrando.
Quando o viu lá, caído no meio da calçada, sem esboçar a menor reação e sem tentar levantar e revidar, a raiva foi toda embora, e no seu lugar ficou uma tristeza enorme. De repente sentiu-se perdido e completamente desamparado; começou a chorar.
- Meu, eu não acredito que eu ainda consigo chorar por sua causa, cara. Me deixa em paz, entendeu?
-Gabriel, o meu pai morreu, e assim que deu eu vim para falar com você. Por favor, não me deixa aqui.
Ele estava chorando também, sentado na calçada, apertando a boca com a mão para estancar o sangue, e eles ficaram só se olhando por alguns instantes. Gabriel passou a mão pelos olhos, limpou as lágrimas, estendeu a mão.
- Levanta.
Miguel pegou sua mão e esboçou um sorriso, mas ele mesmo ainda não conseguia sorrir, claro que não. Só tinha concordado em ouvir o que ele queria dizer porque ele realmente estava com todo jeito de ter vindo de um enterro.
Entraram e se sentaram em um banco do jardinzinho que havia na frente da casa, lado a lado, Gabriel olhando para tudo, menos para ele.
- Fala, cara, você queria tanto falar e agora fica aí, mudo.
Miguel suspirou, e começou.
- Naquele dia, quando o seu pai pegou a gente no quintal e a gente acabou entrando na minha casa, depois do escândalo do seu pai, quando o meu mandou eu ir para o meu quarto, bom, eu fui porque pretendia pular a janela e ir atrás de você assim que você saísse. Mas aí a minha mãe foi atrás de mim e viu o que eu ia fazer, entrou na minha frente e não deixou, dizendo que ela tinha uma coisa muito importante para me contar, e pediu que eu ouvisse antes, e prometeu que, se depois eu ainda quisesse, ela me deixava pular a janela e ir atrás de você.
Ele fez uma pausa, talvez esperando que ele fosse dizer alguma coisa. Gabriel permaneceu calado.
- Ela me disse que o meu pai tinha câncer nos ossos, era muito grave, e pediu que eu não fosse atrás de você, mas que eu esperasse até ele se acalmar para poder conversar comigo antes de qualquer outra coisa. Depois eu podia fazer o que eu quisesse, mas praticamente me implorou para não pular por aquela janela naquele momento.
Gabriel ainda não o olhava, mas parecia que ele sofria cada vez mais com cada palavra.
- Aí então ele veio até o meu quarto, e eu também achei que fosse levar porrada, mas ele só sentou na minha cama e começou a falar que estava muito doente, que ia precisar muito do meu apoio, que entendia que essas coisas podiam acontecer com adolescentes que ainda não sabiam muito bem o que era a vida. E eu também acabei percebendo o quanto ele estava abatido, nem sei como não tinha notado antes, sabe, pálido, magro, bem caído mesmo. Aí ele me pediu para não te ver mais, pelo menos até eu ter certeza do que eu queria, e disse que, se eu ficasse com você o tempo todo, podia continuar confundindo as coisas, e que ia ser muito duro para ele se o seu único filho fosse, sabe, fosse gay.
Ele disse as últimas palavras num sussurro.
- Aí a minha mãe me pediu isso também, que eu desse um tempo, e acabou que eu prometi para os dois que ia passar um tempo sem te ver. Eu tinha certeza que ia te encontrar pelo menos na escola, só que no dia seguinte o meu pai me acordou de madrugada dizendo que eu tinha que ir para o interior junto com a minha mãe, e eu nem levei mala, cara, ele disse que era uma emergência e que eu precisava ajudar a minha mãe, porque a minha tia que morava em Barretos estava muito mal e precisando da gente. E a minha tia até estava doente, foi operada e tudo, mas assim mesmo, com tudo o que estava acontecendo lá, a minha mãe não saiu da minha cola, não me deixava chegar nem perto de telefone, de computador, de nada, e me punha para ficar no hospital direto. Não consegui nem ir ao correio sozinho pra mandar uma carta, um telegrama, sei lá.
Gabriel soltou uma espécie de bufo, como se duvidasse, mas Miguel ignorou e foi em frente.
- Meu pai nem foi para lá, ficou em São Paulo fazendo quimioterapia, e quando a gente voltou, depois de uns dez dias, ele me comunicou que tinha me mudado de escola, que eu não estudava mais com você, e que eu tinha que manter a minha promessa. Eu vi que você tinha mandado várias mensagens, mas àquela altura ele já estava perdendo os cabelos por causa do tratamento, passava os dias na cama vomitando, tinha muita dor nos ossos, não comia nada, perdendo cada vez mais peso, e não parava de me pedir para não falar com você. E eu não tive mais coragem de fazer nada. É muito difícil ver seu pai daquele jeito.
Gabriel poderia argumentar que ele próprio não ver o pai nunca mais também não era moleza, ainda mais do jeito que tinha sido, mas lembrou que o pai do Miguel estava morto, então deixou passar.
- Eles planejaram a mudança de uma hora para outra, e eu juro que eu morri um pouco naquele dia em que você me procurou e eu fugi para dentro de casa, porque o que eu queria era sair de lá correndo com você para não voltar mais, mas é claro que eu não podia fazer isso.
Ele ficou um pouco em silêncio, depois prosseguiu.
- No começo eu estava planejando procurar você escondido na escola ou na sua casa, mas eu estava tão doido entre começar em uma escola nova e ajudar a minha mãe a cuidar do meu pai, que o tempo foi passando, e foi ficando mais difícil, sabe; eu me deixei levar, achando que o meu pai estava com todo jeito de que ia acabar morrendo logo, e aí eu é que também ia ficar livre logo, me odiando por pensar assim, mas me odiando mais ainda porque eu não ia atrás de você.
Também era muito, muito difícil ouvir aquilo.
- Mas não se passou um dia sem que eu pensasse em você, sem que eu sentisse uma saudade louca, sem que eu desejasse você ao meu lado. Eu juro por tudo que é mais sagrado.
Ele ficou um tempo quieto, talvez esperando que ele dissesse alguma coisa. Afinal, vendo que Gabriel não ia dizer nada, continuou.
- O tratamento não deu certo, ele sofreu esse tempo todo, até o momento em que desistiu. E quando ele percebeu que o tempo dele estava se acabando, ele me chamou, e, bom, ele me pediu... Ele me pediu que eu prometesse que eu ia continuar sem ver você, que eu não ia te procurar.
Gabriel nessa hora não aguentou mais.
- E você só veio falar comigo para justificar porque você me largou sozinho depois de me mostrar o que eu ainda nem tinha ideia de que existia na minha vida, e que vai continuar fora dela porque seu pai pediu, é isso? – era muita crueldade. Ele finalmente olhou Miguel nos olhos, a raiva voltando com tudo.
De repente, não quis ouvir mais nada.
- Eu entendo. Tudo bem, pode seguir seu caminho, eu já estou seguindo o meu. – mas, quando ia se levantar, Miguel o segurou pelo braço.
Ele parou, mas não olhou para ele; não ia conseguir segurar a onda. Gabriel estava achando que podia chorar outra vez, bater nele de novo, forçar um beijo, não sabia bem, só sabia que estava morrendo de medo de se desesperar e acabar fazendo uma besteira.
Miguel resolveu o impasse.
- Eu vim te dizer que eu não prometi nada para ele porque eu não ia conseguir manter mais aquela promessa, e larguei a minha mãe sozinha porque eu estava desesperado para ver você de novo. Mas se você quer que eu vá embora, eu vou.
Ele sentou-se de novo, e ficou quieto olhando o céu até se recompor. Finalmente, conseguiu olhar para o amigo, que também olhava para ele, os dois parados, um de frente para o outro, sem saber o que fazer.
***
Naquela tarde em que eles se separaram, Miguel não tinha a menor ideia de onde aquela coragem toda tinha aparecido.
Não havia planejado nada, e vinha sofrendo em silêncio já fazia meses, desde que começou a olhar para Gabriel daquele jeito, morrendo de medo e de vergonha, sem saber o que fazer, sem ter com quem conversar, desesperado com a possibilidade de que ele percebesse. Começou a ficar com as meninas só para disfarçar, mas aí Gabriel começou a fazer a mesma coisa, e ele tinha que ver aquilo e fingir que achava legal, e o pior era que, quando ele não estava com elas, estava falando delas. Era insuportável.
Naquela tarde, outra vez Gabriel estava descrevendo aquela garota com quem ele estava ficando, e Miguel se lembrou do jeito que ele tinha agarrado e beijado a menina; ficou sem chão, porque se pegou desejando estar no lugar dela. Foi a primeira vez que imaginou Gabriel o beijando, e desesperou-se. Precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, e resolver sua vida.
Quando viu, já tinha soltado que talvez eles estivessem fazendo tudo errado, estivessem ficando com as pessoas erradas, e ele percebeu que o tinha perturbado também, porque, ao invés do que estava esperando, Gabriel não se afastou, não fez piada, não mudou de assunto; as palavras continuaram jorrando, de repente eles estavam de mãos dadas, e todos os dias ele amaldiçoava o pai do Gabriel por ter aparecido bem naquela hora.
E agora, depois de tanto tempo, estavam os dois lá outra vez, como se o tempo não tivesse passado, o peso de todas aquelas palavras fazendo com que eles ficassem só se olhando; nenhum dos dois fazia nada além de olhar.
Gabriel quebrou o clima.
- Por que você está me olhando desse jeito? –sua voz estava baixa, rouca, emocionada.
- Eu senti muitas saudades suas, cara.
E de repente alguma coisa se rompeu, Gabriel veio para cima dele, eles se agarraram com violência, urgência, e afinal ele sentiu o gosto da boca dele na sua. O tempo parou, e já não existia mais nada além deles dois, vorazes, apaixonados, Gabriel colocando uma raiva desesperada naquele beijo, machucando sua boca dolorida pela porrada que ele mesmo tinha dado, mas ele desejava sentir aquela dor, merecia sentir, por ter permitido que aquele beijo tivesse demorado tanto.
A raiva passou; no seu lugar surgiu uma doçura meio bruta, totalmente inesperada, e eles começaram a explorar um a boca do outro, devagar, as mãos errantes e fortes pelos seus corpos, as peles ásperas, e foram perdendo a noção de tudo menos deles próprios, finalmente juntos.
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