CAPÍTULO 6 – Sustos e sonhos.
- 5 de jun.
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Atualizado: 14 de jun.
Gabriel entrou na cozinha, e o que viu primeiro foi Tiago, que estava muito à vontade sentado à mesa e abraçando Carol: sua suposta melhor amiga, aliás, única amiga, tinha tido a coragem de omitir que tinha levado o cara para casa, e sabe-se lá o que mais tinha rolado naquela tarde desde a hora em que Tiago arrastou a menina para a rua sem nem dar tempo de ele se despedir direito dela.
Ela estava muito vermelha; desgrudou dele e levantou-se.
- Que bom que você veio. - ela veio em sua direção, sorrindo na maior cara de pau, mas subitamente ele resolveu que queria ir embora.
- Desculpe, eu vim conversar com você, mas não é nada urgente. Você deve estar muito ocupada, então já vou indo.
- Não, imagine, não estou ocupada não.
Foi aí que Tiago também se enfezou.
- Como assim, você não está ocupada?
- Bom, a gente só ia fazer um lanche, então não é como se nós estivéssemos no meio de alguma coisa urgente ou importante.
Gabriel sentiu um prazer perverso em ver Tiago ficando puto também.
- Ah, então esta tarde não teve importância para você?
- Não foi isso o que eu quis dizer, claro que foi importante, mas o Gabriel não precisa ir embora por causa disso.
Tiago também se levantou.
- Bom, nesse caso, o melhor é seu amigo ficar e eu ir embora.
Gabriel não ia deixar o cara roubar sua saída dramática.
- De jeito nenhum, quem vai sou eu.
Carol começou a se irritar.
- Ah, pelo amor de Deus, não sejam ridículos, você dois.
E então Maria Lúcia, que estava esquecida na porta da cozinha assistindo, emitiu um comando irresistível: Gabriel não saberia dizer se tinha sido um grito ou um sussurro; talvez nem tenha havido som, ele não saberia dizer, mas depois, quando tudo aconteceu, ele teve certeza de que foi naquele exato instante que o mundo que ele conheceu por toda a sua vida enlouqueceu, para sempre e irremediavelmente.
- Sentem-se todos, agora.
Aquilo entrou não só pelas suas orelhas, mas pelos olhos, a pele, sua boca, por todos os lugares. Ele sentiu-se dominado, e sentou-se, não só ele, mas também Carol e Tiago, ao que ela se pôs a falar.
- Não era assim que eu queria começar esta conversa, mas essa briga ridícula de vocês é muito irritante. A esta altura, vocês já deveriam ter superado essas questões idiotas. – Gabriel não entendeu a quais questões ela estaria se referindo, uma vez que era a primeira vez que ela via os três juntos, mas não teve muito tempo para pensar nisso. – Vejam só, eu ordenei e vocês obedeceram. Não se assustem, o efeito vai se dissipar, mas quando passar vocês já terão ouvido até o final, e vão entender como foi que eu fiz isso.
Gabriel tentou se levantar, mas não conseguiu. Assustado, ele continuou tentando, mas só sentia seu corpo desconectado: continuava sentado, respirando normalmente, quase relaxado, mas só conseguia mover voluntariamente seus olhos; olhou para Carol em frente a ele, e quando eles se fitaram o espanto nos olhos dela também era perceptível. Pelo jeito, ela estava presa do mesmo jeito, e foi aí que Gabriel começou a sentir um ligeiro pânico, mas Maria Lúcia voltou a falar.
- Existem na natureza algumas forças, invisíveis mas disponíveis, desde que o Universo surgiu. No início, ele era compacto e inimaginavelmente denso, até que a tensão ficou tão grande que ele explodiu em incontáveis partículas. Imagino que vocês saibam sobre o que eu estou falando, não? O Big Bang?
Gabriel, horrorizado, só sentiu o pânico aumentar com aquela conversa sem pé nem cabeça.
- Muito bem: essas partículas continuam da exata maneira que eram quando o Universo explodiu há bilhões de anos, mas elas não são apenas partículas de matéria aleatoriamente dispostas: elas podem decidir o que desejam ser no Universo.
Ela olhou cada um deles, depois continuou.
- Elas fazem aquilo que desejam fazer. Vocês são inteiramente construídos por essas partículas, e o cérebro de vocês as comanda porque elas assim permitem, mas, neste momento, o meu cérebro, o meu pensamento, as dominou, e vocês permanecem sentados e me ouvindo porque eu assim comandei. Por outro lado, eu não dominei os pensamentos de vocês, e tenho certeza de que, neste exato instante, vocês todos estão lutando para se mexer.
De fato, Gabriel agora tentava desesperadamente mexer qualquer coisa que não fossem seus olhos.
- Quando vocês um dia morrerem, a maioria dessas partículas vão seguir o destino comum dos corpos de qualquer outra pessoa e ficar por aí passivamente, à disposição do rumo que o acaso lhes dê, porque a maioria delas não dá a menor bola para onde vão parar; por outro lado, existe uma ínfima parte delas que nunca se separa, e que vai permanecer e voltar a viver em outros corpos feitos de outras partículas, sempre conservando as suas identidades. Podem chamar essa parte imutável de alma, ou espírito, se quiserem. – ela fez uma pausa, como se o que fosse dizer a seguir fosse ainda mais estranho, e não deu outra. - E as almas de vocês três são excepcionalmente velhas.
Gabriel tinha certeza de ter conseguido mexer o indicador direito.
– Essa parte de vocês que permanece intocada provavelmente vem desde a época em que vocês se tornaram humanos, ou talvez antes; todos os outros seres vivos também têm essa alma, e também voltam muitas e muitas vezes. Provavelmente vocês estão por aí há muitos de milhares de anos, quem sabe até milhões ou bilhões, e tenham se tornado humanos quando a humanidade surgiu. Vocês são os que se pode chamar ancestrais.
Gabriel sentia o suor escorrer pela nuca.
- Essa parte imortal de vocês é quase impossível de controlar, mas quem sabe acessar esse poder de dominar a vontade das outras partículas disponíveis pode fazer qualquer coisa.
Ela ergueu apenas um dedo, e toda a luz da cozinha se concentrou em um ponto no teto, enquanto todo o resto escurecia, embora a luz do fim de tarde continuasse intacta além das janelas. Depois, ela rodou o mesmo dedo elegantemente, e o foco de luz girou acompanhando o movimento. Quando parou, brilhou intensamente e explodiu em pequenos pontos de luz que se moveram sem padrão até se juntarem em uma pequena miniatura do sistema solar.
Gabriel esqueceu de tentar se mover. Quando ela ergueu suas mãos outra vez, aquela imagem se desfez e transformou-se em uma flor, que foi pairando até cair sobre a mão dela.
Ela soprou as pétalas, a flor desapareceu, e a luz retornou à cozinha, como se nada tivesse acontecido.
***
Maria Lúcia olhou para os rostos daqueles meninos, que eram tão diferentes desde a última vez em que ela os tinha encontrado, e ao mesmo tempo os mesmos. Agora, traziam neles a juventude desta existência misturada aos incontáveis milênios de idade que suas almas tinham, e era tudo tão evidente para quem podia ver como ela.
- Eu vou deixar que vocês se mexam, está bem?
Ela liberou seus corpos, contando com a maturidade que seria de se esperar dos três, mas infelizmente a adolescência que eles viviam levou a melhor.
-AAAAAAAARRRGGGGGHHHHHHH!!!!!!
Não dava para saber qual dos três estava gritando mais alto, Tiago puxando Carol, Gabriel tendo ido em direção a ela para levá-la dali também, todos amontoados. Após vários encontrões e apertos, os três até tinham conseguido passar pela porta em direção ao quintal, e já corriam para o portão quando ela os comandou de novo, irritada; não tinha mais muita paciência para lidar com aquilo.
- PAREM AGORA! – parecia que eles estavam brincando de estátua, porque todos pararam em poses que seriam até engraçadas se ela não estivesse tão cansada. - Voltem para a cozinha, sentem-se outra vez, se acalmem e vamos conversar.
Os três voltaram.
-Meninos, agora vocês vão respirar fundo, lentamente, e continuar ouvindo o que eu tenho a dizer. Está bem? Quando estiverem mais calmos, eu libero vocês de novo, mas não quero saber dessa palhaçada toda outra vez. Podem mexer as cabeças para concordar.
Os três assentiram, calados.
-Talvez eu tenha abordado vocês de uma forma muito brusca, mas o que é importante é vocês entenderem que o pensamento, a consciência, o poder de escolha, ou como vocês prefiram chamar, está presente no Universo todo. É importante entender que pensar não é exclusividade de quem tem cérebro. Tudo pensa e escolhe. Pedras, folhas, o ar, o mar, os átomos, as estrelas, planetas, a própria luz. Tudo. Cada um de uma forma, a seu tempo, mas pensa.
Ela percebia o pânico e a descrença no olhar de cada um deles, e invejou um pouco o fato de eles não se lembrarem de nada e poderem estar incrédulos daquele jeito. Suspirou, e continuou.
- É possível manipular qualquer coisa, se você souber como fazer, o que os ancestrais chamam simplesmente de poder. A maioria das pessoas acha que certas coisas extraordinárias que acontecem com elas são por acaso, ou por influência externa, mas não é: são elas manipulando o ambiente que as cerca acessando uma parte mínima desse poder. Quanto mais se sabe usar, maior ele fica; quanto mais antiga uma alma, mais poder ela acessa, porque ela teve tempo para observar e aprender. Mas, a cada vez que uma alma volta, todas as suas memórias são guardadas e esquecidas, e as pessoas não se lembram de quem foram, e assim continuam acumulando experiências e aprendizados em todas as vezes em que voltam a viver. – ela fez uma pequena pausa, novamente olhando um a um para se certificar de que continuavam paralisados. - Claro que, para algumas muito antigas, é simplesmente instintivo usar o poder que elas têm.
Maria Lúcia se lembrou de quando tinha onze anos e conseguiu curar seu gatinho que tinha a mesma idade e estava morrendo de causas naturais, e como o gato viveu por mais vinte e três anos anos depois que ela o curou e o encheu de saúde, só porque começou a chorar quando sua mãe contou que o seu amigo da vida toda estava partindo. Sua mãe nunca entendeu o que tinha acontecido, mas Pedro a achou depois disso, tamanho o abalo do poder que ela causou revertendo a ordem natural da vida do seu gato; olhando para trás, ela teria preferido não fazer nada só para continuar ignorando quem era, e para que Pedro não a encontrasse.
Suspirou de novo; estava divagando, e aquilo não era sobre ela.
- Meninos, vocês ainda não têm ideia de quem são e do poder que vocês possuem, ou de tudo que são capazes de fazer. Isso que eu fiz com a luz não é nada, acreditem.
Ela os olhou um a um, e achou que já seria possível ir soltando os três aos poucos.
- Agora vocês já podem falar, mas não gritem, por favor.
Os três começaram a atropelar as palavras, e sua filha estava olhando para ela como se nunca a tivesse visto antes.
- Mãe, que doideira foi essa, ME SOLTA!!!
Tiago emendou.
- Isso deve ser hipnose, eu só quero ir embora, a minha mãe está me esperando em casa, por favor, ME DEIXA IR.
Gabriel, como sempre, era o mais agressivo.
- Me solta AGORA, Maria Lúcia!
Ela os interrompeu.
- Prestem atenção: se eu estivesse maluca, como é que vocês três estariam aí só mexendo a cabeça? Eu não estou, e no fundo vocês sabem disso. Também não sei hipnotizar as pessoas. Respirem fundo, se concentrem no pensamento que está escondido atrás de tudo o que vocês acham que é normal, de tudo que vocês viram e sentiram e estão negando, de toda a vontade de fugir daqui. Vocês instintivamente sabem o que têm que fazer. Comecem só respirando e relaxando.
E ela viu cada um deles, a seu próprio tempo, parar de negar e responder ao peso dos milênios de existência que possuíam, viu como o brilho dos olhos de cada um mudava, como a respiração deles se desacelerava, e por fim os soltou.
E eles nem perceberam.
- Muito bem. Eu não estou louca, e nem vocês; é normal agir assim, e até que vocês estão tranquilos, porque, quando foi comigo, eu fugi como se todos os demônios do além estivessem atrás de mim. – era verdade; ela tinha derrubado Pedro no chão e lançado em cima dele todas as prateleiras do supermercado onde ele tinha resolvido abordá-la, naquela tarde em que sua mãe tinha mandado que ela buscasse os ingredientes para fazer um bolo de comemoração da milagrosa cura do seu gato. Pedro realmente tinha um timing horroroso.
E lá estava ela divagando outra vez.
- Sabem, é possível fazer vocês se lembrarem de tudo, mas dá um certo...trabalho, e hoje não é o melhor dia. Mas eu tenho um amigo, na verdade, amigo de vocês também, que pode ajudar nisso. – ela pediu perdão internamente por chamar Pedro de amigo deles, mas agora não era hora para se apegar à verdade com unhas e dentes. – Ele vem aqui amanhã, e eu queria que vocês viessem também.
Para quem até pouco tempo estava tentando fugir dela, os três até que estavam bem calmos, então ela achou que não faria mal contar mais um pouquinho.
- E, embora pareça muito fantasioso, tem outra coisa que vocês precisam saber, portanto, mantenham a mente aberta: vocês são ancestrais, mas também são divisos. As almas de vocês vieram de uma ainda mais antiga que se dividiu ao meio.
- Ao meio? Mas nós somos três pessoas. – ela viu quando Tiago puxou Carol para si, e pensou que aquela birra entre ele e Gabriel nunca teria fim, não importava quantos milênios mais se passassem.
- Você é diviso da Carol. Gabriel é diviso de outra pessoa. – ela se voltou para ele. – Gabriel, você nunca topou com ninguém por quem você tenha se apaixonado à primeira vista?
Pela cara que ele fez, estava óbvio que ele já tinha encontrado Miguel, mas ele negou. Birrento demais.
- Não sei do que você está falando.
- Não mesmo? Você nunca encontrou ninguém que virou sua vida do avesso?
Ele estava com muita raiva, o que só provava que tinha encontrado, sim.
- Isso não interessa a ninguém.
Foi a vez de Carol perguntar, parecendo meio chateada por não saber de quem se trataria essa pessoa.
- Bi, quem é esse garoto de quem você nunca me falou nada?
- Eu não sei por que você acha que necessariamente é um cara, Carolina. – Gabriel evidentemente tentava mudar o rumo daquela conversa.
- E eu não sei porque você fica chamando esse cara de Bi. – Tiago resmungou, inacreditavelmente se apegando ao ciúmes e ignorando todo o resto.
Aí Gabriel estourou mesmo, e se levantou enfrentando todo mundo.
- Não interessa a ninguém se existe essa pessoa ou não, e eu queria que você parasse de chutar coisas sobre a minha vida, Maria Lúcia. – ele se virou para Tiago. - E quanto a você, seu cuzão, é o seguinte: você chegou na vida dela faz só dois minutos, então ela vai me chamar como ela quiser, porque ela é minha amiga e você não tem nada a ver com isso!
Àquela altura, Carol já estava em pé também.
- Como assim, não me interessa?
Pior foi quando Tiago se levantou e ficou a centímetros do nariz de Miguel.
- CUZÃO É O CACETE, EU VOU TE MOSTRAR QUEM É O CUZÃO!
Maria Lúcia até tentou segurar os dois, mas, com a raiva crescendo exponencialmente nos garotos, ela não foi mais capaz de comandar nenhum deles, que se puseram a brigar, rapidamente rolando pelo chão, socando todos os lugares possíveis, enquanto Carol dava pulinhos, histérica. Maria Lúcia só afastou os móveis e apagou a luz toda outra vez.
- MÃE! ACENDE A LUZ!!
Ela também fez jorrar um jato de água gelada em cima de todo mundo.
- CARALHO!!
- QUE PORRA É ESSA???
- MÃE!!!!
Pelo som, eles tinham se separado. Acendeu a luz de novo: estavam os três encharcados e tiritando, porque ela tinha baixado a temperatura da água para pelo menos cinquenta graus abaixo de zero, tomando o cuidado de não deixar que visasse gelo.
- Acalmaram-se?
Como ninguém falou nada, ela secou o chão e os garotos, e fez brotar uma brisa cálida que rapidamente os secou e aqueceu.
- Vocês precisam para com essas brigas idiotas, – ela olhou muito séria para Gabriel, – e não é necessária nenhuma grosseria, garoto. Você pode não se lembrar de quem eu sou realmente, mas nesta vida, de qualquer forma, você me deve respeito.
Ele baixou a cabeça, envergonhado.
- Desculpe.
Ela suspirou.
- Muito bem, chega por hoje. Vamos fazer o seguinte: vamos comer, depois eu levo vocês para casa, e amanhã eu quero todo mundo aqui antes do almoço para conversar com esse meu amigo. Vocês vêm?
Os garotos assentiram, relutantes.
- Combinado, então. Vamos pedir as pizzas.
***
Eva acordou no fim da tarde. A dor de cabeça tinha passado, e soube que tinha sonhado, não sabia bem com o quê, mas tinha certeza de ter sido alguma coisa com aquele menino novo.
Lembrou-se de que seu namorado tinha ligado no celular, mas não estava com a menor disposição de ligar de volta: ela só queria tomar um banho, comer alguma coisa e ficar deitada no sofá vendo televisão, esperando ter sono outra vez para voltar a dormir. Amanhã tinha que ir cedo para a escola por causa da festa junina, e só queria descansar.
Levantou-se, mandou uma mensagem ao namorado avisando que estava com enxaqueca e ia ficar em casa dormindo, depois desligou o celular, tomou um banho, fez um sanduíche, foi para a sala ver desenhos antigos. Não queria ver pessoas nem na TV.
Já estava quase dormindo outra vez quando ouviu a campainha. Decidiu ignorar, mas o problema é que estavam tocando insistentemente a cada dez segundos, e, antes que a dor de cabeça voltasse, atendeu pelo interfone.
- Sim?
- Boa noite, professora. Desculpe a insistência em tocar sua campainha, mas eu preciso conversar com você.
Não era possível. Ela devia estar enganada, não tinha ouvido a voz dele tantas vezes assim para reconhecer imediatamente. Não podia ser o garoto.
- Quem é?
- Sou seu aluno novo, Júlio. Você me deu a última aula hoje de manhã.
Inacreditável.
- Como você descobriu o meu endereço? Os professores não estão disponíveis para os alunos fora do horário das aulas.
- Eu vim seguindo sua aura.
Ela ficou muda.
- Professora? Eva? Você ainda está aí? Abra o portão, eu quero terminar aquela conversa.
- Que conversa?
- A que a gente estava tendo no seu sonho, na varanda da sua casa.
A lembrança do sonho veio com tudo: ela engasgou com a própria saliva ao arfar com o susto, e começou a tossir.
- Eva, está tudo bem? Abra a porta, por favor.
- NÃO! – tossiu mais um pouco, e afinal conseguiu falar direito. – Eu não sei do que você está falando, e quero que você vá embora agora mesmo.
- Eva, por favor, me deixe entrar. Você sabe do que eu estou falando sim.
- Não, não sei, e me chame de professora.
- A sua aura é lilás, e você viu a minha escurecida, aliás, a minha e a de todo mundo naquela sala de aula, como você provavelmente vê o tempo todo. Você está com enxaqueca e deve ser por causa disso. E foi você quem me chamou no seu sonho, porque ficou pensando tanto em mim, que eu vim até aqui seguindo a sua cor. Me deixe entrar. Eu sei que você quer que eu entre e quer ouvir o que eu tenho a dizer.
Ela ainda estava sonhando, só podia ser isso.
- Eva.
- PARE DE ME CHAMAR DE EVA! É PROFESSORA!
- Se você não quer me deixar entrar, venha até aqui. Por favor.
- Não. Vá embora e não volte mais à minha casa, ou eu vou ter que comunicar à direção da escola e aos seus pais que você aparece na casa de professores fora do horário de aula falando absurdos.
- Eu não tenho pais e já sou maior de idade. Venha aqui fora, então.
Tinha alguma coisa na voz dele que fazia com que ela tivesse vontade de sair e conversar. Por outro lado, aquela sensação de que havia alguma coisa nele muito assustadora continuava lá também.
Isso a fez decidir.
- Muito bem. Se você já é maior de idade, eu vou chamar a polícia caso você não pare de me importunar. E segunda feira eu vou comunicar à diretoria da escola este episódio lamentável. Não me incomode mais.
Desligou o interfone, suando e com o coração disparado. Ainda ficou esperando um pouco, para ver se ele tocaria outra vez, mas pelo visto ele tinha desistido.
Pegou o telefone, fez uma ligação.
- Felipe? Oi, sou eu. Acordei agora. Vem aqui para casa ficar comigo?
***
Júlio estava andando sem rumo pelas ruas, triste e com muita raiva.
Desta vez, a sensação de desespero estava especialmente intensa. Perguntou-se pela enésima vez quando tudo aquilo iria acabar; era insuportável. E era tudo culpa dele.
Sempre, invariavelmente, sem falhas, ele a encontrava. Todas as vezes ela estava lá; era inevitável. E em todas ele tentou se aproximar, e ela o repeliu. Ela nunca se lembrava de nada, ele sofria, ela sofria ainda mais, e era horrível para os dois, mas ele sempre tentava, porque era incontrolável.
Desta vez ela tinha chegado antes dele, o que só serviu para deixá-la ainda mais desejável; não existia mais nenhuma tolice da juventude nela, só melancolia, seriedade e muita tristeza. Ela continuava tão triste, mas estava tão bonita, com olhos e cabelos escuros, e sentiu muitas saudades da época em que os dele também eram assim e tudo era muito mais simples.
Também tinha medo dele, é claro, e isso sempre era o que mais incomodava, e ela nem sabia o porquê. Desta vez, porém, ela podia ver as auras, e estava evidente que não entendia o que estava acontecendo com a dele.
Se ela pelo menos o deixasse se aproximar, se o deixasse despertar tudo dentro dela, se ele pudesse pedir perdão e fazê-la entender...
E, além de tudo, aqueles garotos.
O fato de esquecerem tudo a cada vez que voltavam era uma desvantagem, mas ele entendia o propósito: inúmeros começos, inúmeras opções e possibilidades, sem vícios. Ele os invejava profundamente, porque nunca esquecia nada, e a cada vez que a via sofria muito mais, só acumulando tristezas de séculos.
Foi deixando a melancolia tomar conta dele, sentindo-se afundar, sangrando por dentro; a situação toda estava fugindo ao seu controle. Imediatamente repreendeu-se, e respirou fundo várias vezes, até se acalmar.
Sua esperança era que ainda conseguiria afogar tudo aquilo dentro de si, e encontrar a paz e o esquecimento. Esquecendo-se especialmente dela.
***
Maria Cecília estava deitada em sua cama, olhando para o teto, e sozinha mais uma vez.
Quase imediatamente depois de chamar Felipe, arrependeu-se. Tinha entrado em pânico, e só o chamou por impulso, porque estava sentindo um medo irracional daquele garoto que parecia um anjo, que aparecia em seus sonhos e sabia disso, e que ainda falava de auras como se estivesse falando da cor dos cabelos das pessoas.
Assim que desligou o telefone, porém, já estava pensando se não teria cometido um erro, e teve certeza absoluta disso quando Felipe chegou à sua casa com uma garrafa de vinho, todo romântico, sendo que ela não conseguia tirar da cabeça os olhos espantosamente claros e a voz rouca e profunda do seu aluno, o que era ridículo e praticamente imoral.
Assim que Felipe chegou e tentou beijá-la na boca, desviou seus lábios dos dele, que acabou beijando seu rosto, e de repente ela decidiu que não deveria continuar levando a situação adiante, porque ele estava se envolvendo cada vez mais, mas ela não.
Ela o chamou para sentar-se no sofá, bloqueou mais uma tentativa dele de beijá-la, e iniciou com a frase padrão, “precisamos conversar”. Daí em diante foi o de sempre, as mesmas desculpas, garantir que não havia mais ninguém (embora o tempo inteiro ela ficasse lembrando aqueles olhos inacreditáveis), os pedidos dele para que reconsiderasse.
Nem vinte minutos depois ele estava indo embora, arrasado.
Assim que ele saiu, ela apagou todas as luzes e voltou para o quarto, deitando-se para dormir. Remexeu-se e revirou-se por mais de duas horas, mas não conseguia pegar no sono pensando naquele garoto. Mesmo que ele tivesse dito que era maior de idade, em comparação a ela ele era isso: um garoto, seu aluno, fora de qualquer possibilidade de ficar invadindo seus pensamentos daquele jeito.
Ele era tão lindo, tinha olhos inacreditáveis, que pareciam dois pedaços de gelo, e havia gelo por todos os lados.
Estava andando rápido para afugentar o frio, em uma planície com montanhas cheias de neve ao fundo. Ele vinha caminhando em sua direção, sorridente, voltando da caça. Hoje, ela contaria para ele que estava grávida.
Assim que ele se aproximou, ela o abraçou com força.
- Voltaram mais cedo do que eu imaginava.
- Tivemos sorte.
- Tenho uma novidade para você.
Os olhos dele brilharam.
- Tem?
Como ela era tola. É claro que ele já sabia da criança: ele estava conectado aos espíritos como nenhum outro de seu povo.
Todos sempre vinham em busca de seu conselho, pedindo que ele dissesse o que via à volta dos enfermos, dos perturbados, das mulheres que estavam tendo dificuldades na gestação ou no parto, das que não conseguiam engravidar. Ele sempre sabia o que fazer para curar todos eles.
Ela sorriu, e ele a tomou nos braços outra vez, desta vez com muito mais ternura.
- Vai ser menino ou menina?
- Um menino. – seus olhos brilharam ainda mais.
- Que nome vamos dar a ele?
- Vamos escolher quando ele nascer.
E então o sonho mudou, estavam em outro lugar, dentro de uma tenda forrada de peles, e ela estava acalentando um bebezinho de cabelos muito negros, enquanto o pai os contemplava muito feliz.
Outro salto no sonho, e eles estavam do lado de fora da tenda, enquanto seu filho, agora com cerca de três anos, estava correndo com os cães ao lado de um outro garotinho pela terra gelada, e ele olhava de forma estranha para o outro menino. Ela conhecia aquele olhar: ele devia estar vendo alguma coisa nele, e aquilo o perturbava. Ela não gostava quando ele ficava daquele jeito.
-Por que você sempre olha assim quando os dois estão brincando?
De repente ela acordou, ainda virada para o teto, imaginando por que motivo estaria sonhando que morava em um lugar gelado onde tinha um marido feiticeiro que sem dúvida era o seu novo aluno, e que as duas crianças eram na verdade Gabriel, outro aluno dela, e um garoto que ela nunca tinha visto, mas tinha certeza absoluta de conhecer.
Tinha que discutir urgentemente com sua terapeuta essa estranha obsessão com os alunos, mas agora queria dormir, portanto, tomou mais um antialérgico e esperou o sono chegar, outra vez sem sonhos.
***
Gabriel já estava em casa e dormindo havia horas, sonhando com bobagens aleatórias, e no sonho com ele estava Miguel, andando pelas ruas do bairro.
- Você não imagina as saudades que eu sinto de você.
- E por que você não volta, então?
- Eu estou tentando.
Júlio estava lá e os olhava com repulsa, e então ergueu suas mãos, e Miguel virou uma chuva de gelo. Maria Cecília também estava lá, e começou a chorar e tentar chegar até Gabriel, que sentiu uma dor enorme que não cabia mais dentro dele, então, de suas mãos, da sua boca, dos seus olhos, do seu corpo inteiro partiu um urro descomunal, e tudo desapareceu em outra chuva de gelo. Ele desmaiou no próprio sonho, e não viu mais nada.
***
Carol estava olhando pela janela do seu quarto, pensando em tudo o que tinha acontecido hoje. Estava difícil dormir.
Pela centésima vez, perguntou-se se tudo não teria sido um sonho muito louco, e se não iria acordar a qualquer instante com os problemas de sempre: os cabelos em pé, atrasada, sem café da manhã, correndo para a escola, só Gabriel para conversar com ela, Tiago distante, Rebeca fazendo suas piadas sem graça.
O melhor dia da sua vida não podia ter sido um sonho. A despeito de toda aquela maluquice da sua mãe, aquele dia com Tiago tinha sido a melhor coisa da sua vida inteira.
Olhou para sua árvore preferida no jardim, enorme e muito antiga, um baobá raríssimo que tinha sobrevivido no meio de São Paulo, devidamente catalogado por botânicos da Prefeitura e da USP; alguns deles achavam que tinha sido plantado por algum escravo africano que tinha trazido a semente consigo. Estimava-se que tivesse cerca de duzentos anos.
Ela amava aquele baobá. Se sua mãe tivesse dito a verdade, sua árvore tinha memórias e pensamentos; ficou imaginando em que ela pensaria, tão linda e velha, devaneando sobre o que ela teria visto nos últimos duzentos anos.
E já não era mais noite, mas um dia muito ensolarado, quente, e ela não estava mais debruçada à janela, mas sim no meio de um campo, e seu baobá era muito maior. Estendeu a mão para tocar nele, e sua mão era preta. Pegou do chão uma semente dele.
De repente, ouviu gritos, e à sua volta havia muitas pessoas, todas altas e negras, correndo em pânico, fugindo, muitas carregando crianças, e ela correu também como nunca antes na vida, porque sabia que estavam todos fugindo de uma grande desgraça. Então, sentiu que alguém a pegava pelo braço, falando palavras estranhas e desconhecidas, e colocaram um saco na sua cabeça, amarraram suas mãos, foi jogada de qualquer jeito ao chão, e o único pensamento foi de que ela precisava guardar a qualquer custo aquela semente consigo.
Tão de repente como tinha surgido, a visão sumiu, e ela estava outra vez só olhando seu baobá pela janela, embora ainda ofegante, por causa da corrida e do pavor, a mão apertada sobre a semente, mas, quando a abriu, ela não estava mais lá.
***
Tiago sonhou com fotografias que ele havia tirado de lugares aos quais jamais tinha ido, pessoas que amava mas nunca vira, montanhas, lobos e arrependimentos.
***
Júlio estava outra vez parado na rua dela e olhando para as janelas de cima da sua casa, imaginando qual delas seria a do seu quarto. Ela tinha sonhado outra vez, e o tinha chamado no sonho, mas desta vez era um sonho diferente: ela estava se lembrando, dele, do amor, das crianças, do gelo.
Isso nunca tinha acontecido desde que ela se afastou e nunca mais o deixou chegar perto dela, e era a primeira vez que o filho deles também estava lá.
Não podia ser só uma coincidência, porque, quando se tratava deles, elas não existiam.
Sentiu dentro do peito alguma coisa há muito esquecida, que demorou um pouco para identificar, mas já não havia dúvidas sobre o que era: esperança.
Desta vez, não afogou seus sentimentos; deixou a esperança ficar.
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