PARTE 2 - CAPÍTULO 4 - O templo e a sacerdotisa.
CAPÍTULO 4
Hanuman e Priora caminharam por alguns dias debaixo da neve que caía sem parar: era tanta neve que divisavam com muita dificuldade o que era caminho e o que eram as montanhas enormes que os cercavam, o céu tão branco e indistinto quanto tudo o mais.
Era um clima pouco propício a conversas, porque, mesmo para eles, era difícil seguir adiante, de forma que Priora tinha muito tempo para cismar, e o resultado era que alternava longos períodos de silêncio com rompantes nos quais pedia a ele a confirmação sobre nunca mais poder ter um bebê.
Ele invariavelmente respondia a mesma coisa, até o dia em que sua paciência se esgotou. Estacou no meio do caminho, e a fez encará-lo.
- Priora, é isso mesmo o que você quer?
Ela não entendeu a pergunta.
- O quê, um filho?
- Sim, porque, se nós dois tivéssemos a capacidade de gerar uma criança, ela nasceria sem dúvida mortal, portanto, esse bebê cresceria e envelheceria, e nós dois estaríamos exatamente iguais ao que estamos hoje; em algum momento nós pareceríamos seus filhos, depois netos, e ao final só poderíamos assistir à sua morte, porque eu não tenho a intenção de tornar mais ninguém imortal: você foi um acidente, e ainda não teve tempo de avaliar o que é passar século após século sempre do mesmo jeito. Acredite, você também não vai querer fazer isso.
Ele a largou lá, parada e chocada, e continuou andando. Após alguns instantes ela o alcançou.
- Você tem razão, eu acho.
Mais um silêncio longo, e ela completou.
- Eu entendo porque você não quer tornar mais ninguém imortal, porque, de certa forma, os escuros, como você nos chama, estão condenados a ter uma memória imorredoura de todas as suas vidas anteriores, o que também não é nada fácil. Nunca poder esquecer também nos torna, de certa forma, imortais, e muito tristes.
***
Após uma semana a nevasca amainou, e no mesmo dia avistaram uma aldeia bastante grande, a segunda que ele revisitava em toda sua vida: ficou muito feliz por aquela ainda estar de pé.
- Você já passou por aqui alguma vez, Priora?
Ela negou.
- Não faz muito que eu passei por aqui, talvez vinte e cinco, trinta anos: eu saí daqui e passei por mais duas aldeias, então talvez haja alguém que ainda se lembre de mim.
- Quanto tempo você ficava em cada aldeia?
- Sempre dependeu de quantas pessoas com poder, especialmente crianças, eu encontrasse para ensinar, mas nunca menos do que dez anos.
De onde estavam podiam ver a aldeia toda de cima, e Hanuman localizou facilmente o templo que existia lá havia séculos, onde basicamente adoravam as forças da natureza (que retribuía com muita severidade àquela adoração toda), e se reuniam em ocasiões que demandavam conselhos das autoridades locais e decisões coletivas.
Foi para lá que se dirigiram, e as poucas pessoas que estavam fora de suas casas os viam passar sem dar mais atenção do que dariam a qualquer outro forasteiro, mas, bem no meio do caminho, uma idosa que estava retirando a neve acumulada na porta da sua casa o viu, e seu rosto iluminou-se.
- Senhor Hanuman! Senhor Hanuman, é realmente o senhor?
Ele foi até ela.
- Quem é a senhora?
- Eu sou Afedra, mãe de Alesta, a menina que o senhor ensinou a curar, lembra-se dela? Mas o senhor está absolutamente igual, não envelheceu nada... Então é verdade: o senhor é mesmo um deus vivo.
E então ela, com bastante dificuldade, ajoelhou-se, humilde e reverente, o que o pegou totalmente de surpresa.
-Por favor, levante-se, não sou nenhum deus, por favor...
Mas as poucas pessoas ao redor estavam se aproximando, curiosas, e um homem também idoso o reconheceu e gritou seu nome; outras pessoas saíram às janelas para ver o porquê da agitação, e foi uma avalanche: quanto mais pessoas chegavam, mais apareciam, vários se ajoelhando, muitos chorando em júbilo.
Em alguns minutos havia uma pequena multidão, e estavam todos histéricos.
Priora o olhava, entre divertida e apreensiva.
- Eu disse a você, todos o conhecem com um deus imortal, Hanuman.
Aquilo estava se prolongando e tomando um vulto inesperado (não se lembrava de haver tantas pessoas morando lá), e, como ninguém tinha prestado atenção quando ele negara várias vezes que fosse qualquer tipo de deus (pelo visto, pessoas em êxtase religioso ficavam surdas), decidiu se aproveitar da suposta autoridade que certamente ser considerado um deus lhe conferiria, e bradou um comando com seu poder amplificando as palavras.
- SILÊNCIO, TODOS VOCÊS!
Foi bem impressionante. Todos não só se calaram, como imediatamente os que ainda estavam em pé se ajoelharam.
- Ergam- se. Não quero ninguém de joelhos para mim. - as pessoas todas se levantaram, mas o olhar de adoração permanecia, o que o horrorizava mais a cada minuto.
- Alguém me leve ao templo, por favor.
- Eu levo.
Quem tinha falado era uma mulher de seus quarenta e cinco anos, magra, alta, e que imediatamente ele percebeu ter muito poder. Lembrou- se de quem era: Grístia, a menina que ele ensinara a interpretar os sinais das estrelas e do tempo, a falar com animais, curar os enfermos, conhecer as cores, ouvir o passado e antecipar o futuro. Ela estava vestida de forma totalmente diferente dos demais, com uma espécie de manto vermelho e um diadema simples nos cabelos.
- Sou a sacerdotisa do templo, Senhor Hanuman. Eu o esperava há meses, e o vi chegando. Mas não sabia que haveria outra deusa com o senhor.
E fez uma mesura altiva em direção a Priora, que olhou confusa para Hanuman, sussurrando:
- Deusa?
Ele entendeu imediatamente: Grístia percebera que ela não tinha cores, e corretamente interpretou que ela devia ser como ele, errando miseravelmente, porém, no diagnóstico do motivo.
Caminharam pela aldeia, e ainda mais gente afluía de todos os lugares, gritando seu nome. A notícia de sua volta se espalhara rapidamente; muitos jogavam oferendas aos seus pés e pediam curas e bençãos.
Hanuman estava muito irritado com o que considerava um total absurdo, e, assim que chegaram ao templo, percebeu que no fundo da nave principal havia uma imagem de um homem, feita em madeira, e aos seus pés havia oferendas de alimentos, pedras e até flores, mesmo com toda aquela neve caindo sem parar havia quase um mês.
Era uma imagem sua.
Virou- se para Grístia, estupefato.
- O que é essa estátua?
Ela interpretou mal sua reação.
- Perdão, Senhor Hanuman, ninguém que pudesse esculpir sua imagem o conheceu, mas eu tentei descrever seu rosto como me lembrava dele.
- Eu não quero imagem nenhuma com minha cara nela, Grístia! Quando vocês começaram com essa bobagem de me adorar como se eu fosse um deus?
Ela parecia ter levado uma bofetada. Totalmente desconcertada, respondeu:
- Mas, Senhor Hanuman, o senhor é o imortal que vem percorrendo estas terras há séculos, ensinando nos templos, curando os doentes, dominando as intempéries; conhece os sonhos, o passado, o futuro, e é verdade que é imortal: você não mudou absolutamente nada desde que esteve aqui. Todos nós o reverenciamos como Hanuman, o deus sábio e piedoso que traz o bem e a sabedoria a quem tem a sorte de o adorar nos templos das aldeias por onde passa.
- Adorar? A mim? Como assim, adorar a mim? - aquilo estava beirando a total insanidade.
- Senhor Hanuman, me perdoe, estou confusa, não entendo o motivo da sua cólera.
Enquanto ele passava as mãos exasperado pelos cabelos, sem saber o que fazer, Priora, que ouvia tudo muito quieta, salvou a situação.
- Hanuman está surpreso por ser esperado, e não sabia que haveria um templo para ele nesta aldeia, a primeira à qual ele volta após uma longa peregrinação aos confins destas terras. Sua imagem não o desagradou, mas ele está precisando de tempo para entender as mudanças que ocorreram após sua partida.
Grístia ouvia e bebia cada palavra de Priora com um respeitoso deslumbramento.
- Hanuman, o que Grístia pode fazer por você?
Ele pensou um pouco.
- Vocês continuaram buscando as crianças com poder e ensinando a elas?
Parecendo aliviada e muito feliz por vê-lo mais calmo, ela respondeu prontamente.
- Sim, meu Senhor Hanuman - ele reprimiu outra careta ao ser chamado de Senhor, - estão todos esperando permissão para vir vê-lo!
- Pode trazê-los, então.
E vieram dois adultos, Alesta e um homem que ele reconheceu da sua primeira vinda, um rapaz mais jovem, quatro adolescentes e duas meninas pequenas.
- São muitas pessoas com poder aqui!
A face de Grístia ensombreceu.
- Ah, meu Senhor, havia mais dois jovens rapazes, mas saíram faz alguns dias para descer a encosta das montanhas, e achamos que foram pegos por escuros, porque já deveriam estar de volta, mas não deram mais nenhum sinal de vida.
À menção de escuros Priora se remexeu, desconfortável.
Hanuman olhou um a um, todos o saudando com evidente adoração, mas um deles em particular, o rapaz, que devia ter cerca de vinte anos, o olhava bem dentro dos olhos e sem nenhum tipo de subserviência. Ele sentiu imediatamente que era alguém tão antigo quanto ele próprio, e com um poder imenso.
Fazia muito tempo que não encontrava alguém tão antigo e tão poderoso, e não o reconheceu de nenhuma outra vida que ele pudesse ter tido. Em geral, todos os muito antigos já haviam passado pelo menos duas ou três vezes pelo seu caminho, mas este era realmente desconhecido.
E não parecia haver qualquer traço de adoração em sua forma de encará-lo; ele, na verdade, parecia até hostil.
- Como é seu nome?
O garoto continuou fitando-o imperturbável.
- Meu nome é Goya.
- Meu nome é Goya, Senhor Hanuman. Mostre respeito ao deus. - Grístia não perdeu tempo em ralhar com o rapaz, mas Hanuman gostou dele.
- Não, Grístia, eu não quero que ninguém me trate por senhor ou deus. Goya, - ele não conseguia tirar os olhos do rapaz, - há quanto tempo você vem ao templo?
- Desde os três anos de idade, e eu não venho ao templo, moro nele: me confinaram aqui assim que eu dominei minha primeira matilha.
- GOYA! MAIS RESPEITO...
- Não, Grístia, deixe o rapaz falar. Você diz que foi confinado, mas eu não entendo: não queria vir para cá?
Goya pareceu um pouco desconcertado por Hanuman não ter se abalado com seu óbvio antagonismo, mas rapidamente se recuperou, e respondeu com uma avalanche de ressentimento que o fez atropelar as palavras.
- Não, claro que não, eu tinha três anos e não estava entendendo por que eu tinha que deixar a minha mãe, e aqui todo mundo só dizia que eu era abençoado por você e tinha que servi-lo, mas eu nunca precisei que ninguém me ensinasse nada, porque o que todo mundo faz aqui, eu faço muito mais e melhor, então é lógico que eu detesto este lugar, mas todo mundo só fala em deveres e você, então eu não saio, não é mesmo?
Afinal alguém que tinha entendido corretamente quais eram as prioridades.
- Mas eu não entendi a parte do confinamento e de você deixar sua mãe. Grístia, - virou-se para a mulher, que encarava Goya com óbvia desaprovação, - as crianças estão vindo morar aqui quando seu poder é revelado?
- Sim, Senhor Hanuman.
- Mas por quê? Não era assim quando eu estive nesta aldeia.
- Senhor, iniciamos este costume já há algum tempo, para que as crianças com poder possam dedicar-se integralmente a desenvolvê-los.
- Mas por qual motivo a escola passou a ser moradia?
- Ah, Senhor Hanuman, sua partida ocorreu há exatamente vinte e sete anos, dois meses e três dias. - ela vinha contando até os dias? - Por alguns anos continuamos com a escola apenas, mas um dia chegou aqui um homem de grande poder contando que Hanuman, o deus, passava pelas aldeias havia mais de trezentos anos, trazendo conhecimento e prosperidade. Ele nos revelou sua natureza divina, como um profeta. – Grístia persignou-se, fazendo um gesto sobre a testa antes de continuar.
- Contou-nos também que, em seguida à sua sagrada passagem, sempre chegavam os escuros tentando destruir sua obra, e há cerca de cem anos surgiu a ordem dos sacerdotes peregrinos, que vão de aldeia em aldeia pregando que um dia o Senhor voltará, e louvado seja o Senhor, que nos escolheu primeiro. - Grístia fez uma pequena mesura, arrebatada. - O sacerdote peregrino disse que deveríamos proteger os poderosos, pois apenas eles poderiam deter os escuros e sua destruição. Ele nos ensinou os novos costumes.
- Novos costumes?
- Sim, Senhor Hanuman. Agora, em cada aldeia pela qual o senhor passou existe um templo como este, uma imagem que o representa, e nos templos vêm morar as crianças com poder, onde ensinamos tudo o que o senhor nos transmitiu, mas especialmente a lutar com os escuros. Fico feliz em dizer que já sofremos vários ataques, e sobrevivemos a eles com sucesso e quase nenhuma morte.
- Mas, os outros dois rapazes que estão desaparecidos?...
- Bem, Senhor Hanuman, presumimos que estejam mortos, porque eu não sinto mais suas cores, então é certo que morreram.
Nesse ponto, porém, Goya interrompeu outra vez.
- Grístia, você devia contar ao Senhor Hanuman – sem dúvida havia muito sarcasmo na forma como ele dissera seu nome - que nas duas últimas vezes em que os escuros estiveram aqui quem impediu que eles matassem a todos fui praticamente eu sozinho, não? E eu já disse a você, Clanto e Kimel não estão mortos, eu os vejo nos meus sonhos e eles estão vivos e escuros também, e é por isso que você não consegue sentir as cores deles.
Grístia enfim perdeu a paciência, e com ela a compostura. Começou a gritar com o rapaz.
- GOYA, PARE DE DESRESPEITAR A MIM E AOS DEUSES QUE GRACIOSAMENTE NOS HONRAM COM...
Priora, porém, interrompeu Grístia com um gesto, que imediatamente calou-se e baixou a cabeça, em absoluta submissão.
- Menino, você...
- Meu nome é Goya, e eu não sou nenhum menino, deusa. – ele praticamente cuspiu ao chamar Priora de deusa.
- Desculpe, Goya: me diga, você vem sonhando com esses garotos escuros desde que eles sumiram?
- Eles não são garotos, são meus amigos, e muito poderosos, e tinham saído em busca de ervas para aplacar a febre que estava deixando as crianças da aldeia doentes. E eu tenho certeza de que não estão mortos. Só estão, de alguma forma que eu não entendo, com as suas cores de vida ocultas.
Hanuman engoliu seco ao ouvir aquilo.
- Goya, preste bem atenção: nos seus sonhos só falta a cor de vida, ou todas as cores estão ausentes, como as minhas e as de Priora?
- Ah, o nome da deusa é Senhora Priora...
Grístia tentou interromper novamente, mas Goya não deu atenção e respondeu, firme.
- Só a cor de vida, as outras cores estão normais. Eles estão escuros, eu tenho certeza.
Foi a vez de Priora perguntar.
- Você disse que repeliu os escuros sozinho?
Grístia interrompeu outra vez.
- Ora, Senhora Priora, não deve dar ouvidos à criança, ele está abalado por ter perdido seus amigos...
- Eu não sou criança, pare de me diminuir, e eles não morreram! E eu acabei com aqueles escuros sozinho sim, e qualquer dia vou explodir este templo com você dentro dele, Grístia!
Hanuman sentiu a ira do rapaz como uma bofetada. Ele tinha um poder imenso e bruto, e sem dúvida muitas e muitas vezes maior que o de todos os outros mortais ali juntos. Possivelmente tão grande quanto o dele próprio.
- Quantos escuros você dominou, Goya? - Priora estava muito impressionada com o rapaz, que pareceu custar a se controlar, respondendo com maus modos.
- O que interessa isso?
- Interessa muito. Por favor, quantos e como você os dominou?
Goya pareceu ponderar se devia ou não responder, mas acabou cedendo.
- Da primeira vez vieram treze, e eu matei todos com ajuda dos meus amigos que desapareceram. Da segunda vez foram só sete, e eu acabei com eles sozinho.
Hanuman fez uma mesura, cumprimentando o rapaz.
- Isso é muito impressionante. Eu encontrei pouquíssimos poderosos ao longo da minha vida que pudessem fazer algo parecido.
Goya, que estava olhando para o teto, ignorou o cumprimento.
- Você é mesmo imortal?
Hanuman pensou bem antes de responder, porque as consequências poderiam ser imprevisíveis com toda aquela insanidade de um culto no qual ele era o objeto de adoração, mas a verdade sempre era a melhor opção.
- Sou.
Grístia arquejou ruidosamente ao ouvir isso, então ele tratou de completar.
- Mas não sou nenhum deus. Isso é bobagem. Eu era um homem com muito poder, um ancestral como você...
- Ancestral?
- Sim, uma alma muito antiga, e por isso com muito poder, e um dia eu o usei para me tornar imortal. Não sou nenhum deus, só muito poderoso, e não posso mais morrer. Não deveria existir nada disso - fez um gesto largo com as mãos, abarcando todo o templo, - nem imagem alguma, só deveria haver pessoas transmitindo os conhecimentos sobre o poder e como combater os escuros. Só isso.
Goya o olhava desconfiado, e ele completou.
- Eu nunca pedi templos, imagens ou crianças confinadas nesses templos.
- Então você quer dizer que eu nunca precisaria ter saído da casa da minha mãe e vindo para cá?
Hanuman apenas negou com a cabeça, com pena do rapaz; esqueceu-se, porém, de Grístia, que o olhava incrédula, ela, sim, com cara de quem merecia muita compaixão.
Ele tinha acabado de invalidar tudo pelo qual ela vivera.
- Senhor Hanuman, o Senhor não pode estar falando sério, nós estamos esperando sua volta, e temos nos preparado para isso nos dedicando a ensinar e a aprender, e orando todos os dias, lutando contra os escuros, repassando seus ensinamentos, vivendo pela sua lembrança e pela fé no seu retorno!
A mulher estava praticamente chorando agora, e, de abjeta adoração, sua expressão agora passara a um horror sem limites.
- Grístia, eu sinto muitíssimo por isso, mas eu realmente não sou um deus, e nunca quis uma religião. Eu disse que um dia iria voltar, e planejei fazer isso depois que eu chegasse à última aldeia que beirasse as montanhas, e foi o que eu fiz: apenas calhou desta daqui ser perto da última, então, veja bem, não foi uma escolha. Foi geografia. Mas não pensei que fosse encontrar isto, porque nunca pedi a nenhuma das pessoas que me conheceram que se organizassem desta maneira. – e fez um gesto com os braços abarcando todo o templo.
E foi então que Grístia, que a cada palavra de Hanuman contorcia mais a face em puro terror, não pode mais se conter e se pôs a gritar, enlouquecida.
- VOCÊ NÃO E O SENHOR HANUMAN, É UM IMPOSTOR DOS ESCUROS QUE VEIO AQUI PARA TENTAR ACABAR CONOSCO!
- Não, claro que não, é óbvio que não...
Mas era tarde demais: ao mesmo tempo em que gritava, Grístia ergueu as mãos e lançou todo seu poder contra ele e Priora, embora mal conseguisse tirá-los do lugar.
O problema é que todos os outros moradores do templo, em pânico, decidiram ajudá-la, mas, providencialmente, o único que se manteve impassível foi Goya, ou tudo teria sido muito pior.
Todos eles atacaram, mas talvez estivessem confusos com o que tinham ouvido ou não eram tão bem treinados assim, porque o ataque não foi coordenado, e o que acabou atingido não foi ele ou Priora, mas as paredes de pedra do templo, bem como a imagem de madeira e as vigas do teto, que pegaram fogo.
Hanuman então fez a única coisa possível para protegê-los antes que fossem soterrados ou queimados: imobilizou a todos, ao mesmo tempo em que pulverizou as pedras, fazendo também jorrar água do chão na direção do teto e da estátua.
O resultado foi que todos eles acabaram caindo de costas no meio do aguaceiro, e a população da aldeia, que antes esperava enlevada ao redor do templo que ele saísse, acabou foi vendo o edifício desaparecer enquanto a poeira também os atingia, poeira que, quando baixou um pouco, deixou que todos vissem Grístia e os demais caídos como mortos no chão, tendo ficado em pé apenas ele, Goya e Priora.
Fugiram todos, apavorados e berrando, e em instantes não havia mais ninguém visível nos arredores.
Quem os tirou da inércia foi Goya.
- Venham, vamos sair daqui.
Hanuman olhou espantado para ele, que deveria estar tão paralisado quanto todos os outros, mas não: e parecia até feliz, provavelmente porque de fato detestava aquele templo, e viu seu desejo de vê-lo explodir em cima de Grístia realizado.
- O quê?
- Eu disse, vamos sair daqui. Eu conheço bem a floresta e ninguém vai atrás de nós tão cedo. Vamos.
Correram por atalhos pelos quais o rapaz os conduziu velozmente; entraram na floresta e, depois de cerca de uma hora correndo sem parar, saíram em um trecho menos denso da mata, onde Goya parou e deu um grito estranho.
Em poucos minutos apareceu uma matilha de lobos, e Goya então se dirigiu a um lobo enorme, o maior deles, cinzento e de aspecto muito feroz, como se falasse com uma pessoa.
- Azman, eu estou partindo para procurar Kimel e Clanto, mas quero que você fique aqui e proteja a aldeia até que eu volte. Não obedeça a ninguém, especialmente Grístia, mas proteja a todos. Compreendeu?
O lobo lambeu o rosto do rapaz e deu um pequeno uivo, como se concordasse, então Goya se virou para Hanuman e Priora.
- Vamos embora daqui para procurar meus amigos, e vocês podem me explicar essa história de imortalidade.
***
Andaram sem parar por cerca de três horas, sempre subindo a encosta que levava a lugares ainda mais altos e frios na cordilheira, até que chegaram a uma gruta que devia ser habitada, porque tinha peles, mantos, gamelas, vários utensílios e comida armazenada.
- Isto é um acampamento?
Goya o fitou.
- Isto é a minha casa. Sempre que eu conseguia sair daquele templo, vinha para cá, para me livrar das loucuras de Grístia e dos seus fanáticos. - o rapaz o olhava especulativamente. - Sabe, eu tinha muita raiva de você, Senhor Hanuman, mas escondia de todo mundo, afinal, não gostar de um deus seria heresia, mas acho que você realmente é só humano.
Hanuman, agora que estavam longe daquela confusão inesperada da aldeia, pode prestar mais atenção a ele: era muito alto, forte, cabelos compridos até o meio das costas, roupas folgadas pretas e atadas com uma corda vermelha na cintura. Lembrou-se de que as outras pessoas no templo se vestiam da mesma forma; possivelmente era algum tipo de uniforme dos aprendizes naquele culto absurdo.
Ele tinha os olhos negros, como todos tinham naquelas terras, mas eram grandes e muito brilhantes.
- Por que você me olha tanto assim, Senhor Hanuman? - tentou soar zombeteiro.
- Você é estranho, garoto. Ainda há pouco não queria me chamar de senhor, e, agora que eu já disse que eu não sou nenhum deus e você concordou, passa justamente a me chamar de senhor?
Goya desconversou.
- Você é mesmo imortal? Porque talvez até isso seja só história.
- Até onde eu sei, sou, sim.
O rapaz o olhou fixamente, desfocou o olhar por alguns instantes, e depois fez o mesmo com Priora.
- Onde foram parar as cores de vocês? É por isso que vocês são imortais?
Hanuman só assentiu.
- E o que você quis dizer quando falou que eu era um ancestral?
- Você já viveu muitas vidas.
- Como você pode saber?
- Pela sua aura, mas eu posso contar a minha história, se você quiser, e você vai entender melhor. - teve vontade de se justificar para ele, já que o haviam arrancado de sua mãe tão pequeno, e em seu nome. - Eu realmente não sou um deus, e nunca quis ser tratado como um. Quando passei pelas aldeias, nunca teria imaginado que as pessoas inventariam uma religião cheia de regras para as crianças com poder, muito menos que colocariam estátuas minhas nos templos. Então, eu entendo que você não goste de mim, mas eu nunca poderia ter previsto toda essa bobagem feita em meu nome.
- Conte, então.
Hanuman começou a falar sobre como tudo havia começado, sobre Dil o ensinando desde criança, como ela por fim o ensinara a se tornar imortal, suas dúvidas, os eventos que o levaram àquela decisão e há quantos séculos a havia tomado (o que provocou um ofegar de espanto em Goya); tentou discorrer sobre como era a sua solidão sem parecer piegas, e que tinha passado aqueles últimos trezentos anos procurando quem tinha poder para ensinar a como usar, porque fora mais ou menos nessa época que os escuros tinham aparecido e começado a tentar destruir todos os povoados em que houvesse pessoas com algum poder.
Também contou rapidamente que tinha encontrado Priora fazia menos de um mês, mas omitiu o fato de ela ter sido uma escura e que ele a tinha tornado imortal por mero acidente, porque essa história era dela, para contar ou não.
Explicou que antes de ser imortal já percebera que os espíritos sempre voltavam em novos corpos, e que sabia reconhecer quando alguém tinha muito poder e muitas vidas, porque, de alguma forma, as auras contavam as histórias das pessoas.
Nesse ponto Goya o interrompeu.
- E você enxergou isso em mim?
- Enxerguei. Você é tão antigo quanto eu, talvez mais, e provavelmente tão poderoso quanto. Eu poderia ensinar você a usar seu poder completamente, se você ainda não souber como.
Goya o fitava intensamente.
- Como eu posso ter certeza de que você é mesmo imortal?
Hanuman ergueu-se.
- Vamos lá fora.
- Para quê?
- Para você não arruinar a sua casa por acidente.
Priora, que apenas tinha acompanhado a conversa calada, nesse momento o interpelou, claramente preocupada.
- Hanuman, o que você vai fazer?
Ele sorriu.
- Vou fazer algo que há muito tempo eu já gostaria de ter feito, mas que só agora tenho a oportunidade: vamos ver como eu resisto a alguém com tanto poder quanto eu.
E, antes que Priora pudesse impedir, saiu da gruta, procurando alguma área com menos árvores. Chegou a uma pequena clareira, e parou, virando-se.
- Muito bem, Goya, agora você vai se concentrar em me atingir da mesma forma que atingiu aqueles escuros que você matou, mas vai realmente colocar toda a sua força nisso, todo o seu poder, focando em me acertar bem aqui, entendeu? – apontou o próprio peito. - Não é para você atingir mais nada ao redor, é para concentrar todo o seu poder em mim, neste ponto exato.
- O quê?
- Você vai me atingir. Com força. Vamos lá.
- Você é louco, e não tem ideia do que está pedindo.
- Talvez. Mas você não disse que foi tirado da sua mãe por minha causa e passou sua vida toda naquele templo? Eu tenho certeza que você tem muita raiva aí dentro: ela vai ajudar. Vamos, garoto.
- Não me chame de garoto.
Estava funcionando: o menino podia ser ancestral e poderoso, mas, ainda assim, nesta vida era só um rapaz muito jovem, manipulável e irritado com tudo.
E muito ressentido com ele, Hanuman.
Continuou a provocá-lo.
- Eu estou olhando e vendo um garotinho aí parado, que está com muita raiva de mim, mas sem coragem de me atacar. Vamos lá, menino, aproveite. Eu não vou fazer nada para impedir. Vamos, garoto.
- Você não sabe mesmo o que está pedindo. Eu vou pulverizar você se fizer o que você quer.
- Será mesmo? - Hanuman zombou dele, e nesse momento Priora tentou interceder outra vez.
- Hanuman, você está maluco, ele matou sete escuros sozinho...
Nenhum dos dois deu atenção a Priora.
- Não sei, acho que você é só um menino que fala muito.
- EU NÃO SOU MENINO!
- ENTÃO ME MOSTRE, GAROTO!
Afinal Goya explodiu.
Juntou as mãos pelas palmas com um grito, e, menos de um segundo depois, as abriu na direção dele, como se arremessasse alguma coisa em sua direção.
Hanuman realmente não estava esperando o impacto: foi arrancado do chão e atirado no ar, voando por cima das árvores por quase trezentos metros até aterrissar batendo com tudo no chão, que afundou tanto que ele deixou de ver a luz do Sol, prostrado pela segunda vez em sua longa vida no fundo de uma cratera.
Mais sentiu do que ouviu Priora chamando seu nome desesperadamente, até que ela chegou a ele, esparramado no chão e sentindo a maior dor que se lembrava de ter sentido em toda sua existência.
- HANUMAN! HANUMAN, FALE COMIGO!
Ela o virou bem devagar, e não parava de murmurar que ele devia estar morto mesmo, provavelmente porque, com a dor, tinha parado de respirar. Encheu o peito devagar, abriu os olhos e afinal conseguiu murmurar.
- Vivo. Doendo demais.
A seguir Goya apareceu.
- EU O MATEI?
Hanuman respirou outra vez, e a dor era inacreditável.
- Não. Imortal.
Priora apalpou seu corpo inteiro, e, quando teve certeza de que estava tudo no lugar, pediu ajuda a Goya, que continuava lá, ansioso e muito pálido.
- Me ajude a carregá-lo de volta para a gruta.
Eles o ergueram e saíram da cratera usando poder, mas o resto do caminho fizeram andando, e cada passo deles era uma tortura inacreditável. Ao chegarem, ele estava praticamente cego de dor. Com um tremendo esforço, conseguiu balbuciar duas palavras.
- Fogo. Frio.
Quando as chamas arderam e o calor afinal chegou aos ossos de Hanuman, que tinha sido posto com muito cuidado sobre várias peles e coberto com outras, a dor já tinha diminuído o suficiente para ele conseguir falar mais do que apenas sussurros entrecortados.
- Agora você acredita que eu sou imortal?
- Eu machuquei muito você?
- Claro que não.
- Mas então por que você está assim, desse jeito?
- Eu não me machuco, mas sinto dor.
- Não estou entendendo nada.
- Posso explicar depois?
Não ouviu a resposta, só dormiu.
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Nossa Fabi, cada vez mais interessante, e nas entre linhas tudo que ja li, ouvi, e imagino ter algo muito além da matéria, me facina, aqui lembrei de Jesus na terra, as pessoas não fazendo nada o que ele ensinou e sim, simplismente levantando templos, dógmas, regras, reprimindo crianças especias ao silêncio, para beneficio próprio, desculpa, só uma reflexão de todos estes milhões de anos de história da terra, mal contada.
os escuros pessoas que viveram muitas vidas, onde não tinham o véu do esquecimento, e viviam só para matar quem fez mal a eles, sem amor e sabedoria.
obrigado pelo livro.😍