Parte II - CAPÍTULO V - A montanha e o lobo de cristal.
Atualizado: 24 de set.
Quando Hanuman acordou, Priora e Goya estavam sentados próximos à fogueira, e já tinha anoitecido. A dor que ele sentira havia desaparecido completamente. Ficou quieto ouvindo os dois, que conversavam.
- ... eu acordei, sem cores e sem minha escura, mas Hanuman não sabia que isso poderia acontecer. Quando eu voltei, elas tinham desaparecido, e eu estava imortal.
- Como você sabe que é mesmo imortal?
- Eu não sinto mais fome ou sede, e não posso mais me ferir. Veja.
Quando Priora se adiantou para alcançar uma brasa, o viu de olhos abertos.
- Hanuman! Está melhor?
Ela foi para o lado dele, que já estava se erguendo.
- Sim. – a puxou, e a beijou. Não queria que o rapaz tivesse dúvidas sobre ela. - Você agora está convencido de que não posso morrer, Goya?
- Não. Usei pouco poder em você.
- Sim, seu golpe foi frustrante. Esperava mais.
Goya deu de ombros.
- Podemos voltar lá fora e eu lhe mostro quanta força eu tenho. Sem dúvida depois você vai dormir muito mais do que só três dias inteiros.
Tinha dormido tanto assim?
Hanuman não deixou transparecer a surpresa. Pegou um pouco de água, bebeu devagar, e afinal respondeu, como se estivesse realmente considerando a proposta.
- Não, acho que não. Você quer encontrar as outras crianças, e eu quero que você me conte exatamente o que houve na sua aldeia quando eu saí de lá pela primeira vez.
Pensou que Goya reclamaria por ele tê-lo indiretamente chamado de criança, mas ele deixou passar: sentiu-se tolo por provocá-lo gratuitamente, e de repente sentiu também vontade de se desculpar.
- De qualquer maneira, antes eu gostaria de explicar algumas coisas com mais calma, sobre toda essa confusão de templo e adoração. - Goya cruzou os braços, com cara de enfado, mas ele foi em frente assim mesmo. - Eu ensinei muitas coisas para Grístia e alguns outros, faz cerca de trinta e cinco anos. Acho que passei dez, onze anos lá, e quando saí pedi que procurassem reconhecer as crianças com poder o mais cedo possível, e as ensinassem bem, especialmente a se defender dos escuros, mas nunca pedi que transformassem os templos em moradas das crianças e as afastassem dos pais, nem pedi sacerdotes ou regras. E aquela imagem ridícula, nunca poderia imaginar que eles passariam a me adorar.
Goya o olhava desdenhosamente.
- Você tem alguma ideia do efeito que causou na aldeia, especialmente quando saiu de lá?
- Não.
O desdém começou a dar lugar à raiva.
- Quando você foi embora, depois de ter passado não dez, mas dezessete anos ensinando no templo, mostrando seu poder e sem qualquer mudança na sua aparência, as pessoas só imaginavam o que você seria, mas ninguém jamais acreditou que você fosse uma pessoa normal. Grístia sempre foi totalmente devotada, passou cada minuto aguardando seu regresso obcecadamente, porque você disse que retornaria. Se pudesse vê-la falando de você... Parecia uma mulher apaixonada.
- Apaixonada por mim? - aquele era o maior absurdo que o rapaz poderia ter dito. – Você não pode estar falando sério.
Goya continuou.
– Então, um dia, apareceu aquele sacerdote peregrino falando sobre você, sua divindade, sua imortalidade, sua volta prometida, os perigos dos escuros, e como se erigiam estátuas suas por todos os lugares. Em todas as aldeias pelas quais você passou em trezentos anos, todos oram pela sua volta, geração após geração, ajoelhados à frente das estátuas.
Ele olhava Hanuman com muito rancor, e sua aura começou a se expandir, avermelhando-se aos poucos.
- Ela sentiu-se com o direito de ditar regras porque o conheceu e aprendeu tudo com você. Foi ficando cada vez mais fanática e cheia de manias, porque nada podia ser mais importante do que a sua divindade. Foi facílimo ela se tornar despótica, criando mais e mais regras sobre as roupas, a comida, horários, celibato. Sim, os moradores do templo também têm que ser castos; ninguém lá pode se apaixonar, se casar. Temos que viver para você.
A Hanuman custava ouvir tudo aquilo, e Goya se enfurecia visivelmente.
- As crianças odiavam sair de suas casas e ter que aguentar todas aquelas regras. Uma das mães tentou ocultar o poder de sua criança, mas foi severamente punida, e a maioria das pessoas se orgulhava quando surgia alguém assim em suas famílias. – Goya agora era a imagem da amargura. – Mas nós, que tínhamos que ir morar lá, não.
Hanuman agora podia sentir a raiva de Goya na pele.
- E ela esperou, esperou tanto, e finalmente você chegou dizendo que tudo aquilo era inútil, não era nada do que você queria, que você não era nenhum deus. Não admira que ela perdesse o resto do juízo que ainda pudesse ter. Na verdade, - nessa hora Goya sorriu cruelmente, - foi muito bom ver a decepção dela antes de enlouquecer e tentar explodir vocês.
- Eu tinha avisado a você que as pessoas o consideram um deus já faz muito tempo, Hanuman. – Priora estava muito séria. - Acho que só voltar a todas as aldeias anunciando que todos estão errados e que você não é nada do que eles estão esperando faz séculos não é a melhor forma de retornar.
Priora tinha razão. Se em uma aldeia onde as pessoas ainda se lembravam dele tinha acontecido tudo aquilo, ele não podia imaginar o que aconteceria em qualquer uma daquelas onde todos que o tinham conhecido estavam mortos: o mito deveria ser muito mais poderoso. Por medo de que outras pessoas pedissem a imortalidade a ele, nunca revelara a ninguém o que de fato tinha lhe acontecido, e isso se provara um erro descomunal, porque agora era um deus para todos eles.
A conversa parecia ter acabado, então Goya deu de ombros e foi cuidar da comida. A facilidade com que ele controlou a raiva e fez surgir água distraiu Hanuman.
- Grístia o ensinou a fazer a água brotar do chão?
Goya respondeu com o habitual sarcasmo.
- Grístia não me ensinou nada, só passava seu tempo tentando me controlar.
- Eu não entendo.
- Ela sempre detestou o fato de eu ser muito mais poderoso do que ela e todos os outros juntos.
- Mas se você tem tanto poder, por que não abandonou o templo e foi cuidar da sua vida?
Goya deu uma risada fria.
- Você realmente não tem ideia do quanto um sacerdote manda em uma aldeia, não é? Ainda mais Grístia, que aprendeu diretamente com o deus imortal e peregrino. – outra vez aquele rancor profundo no olhar dele. – Eu fugi de lá com onze anos, quando já sabia mandar qualquer coisa pelos ares e fazia o que todos no templo faziam juntos com cem vezes mais potência, e voltei para a minha casa. Minha mãe me recebeu, mas Grístia ordenou que todos se virassem contra nós, já que ela não tinha coragem de tentar me buscar à força. Eu pedi aos meus pais que fôssemos embora da aldeia, mas meu pai é totalmente devotado ao deus Hanuman, e achou que eu estava pecando por não colocar meu poder a seu serviço. Eu tinha poder, mas era criança, então voltei. Mas cuidei para que nunca mais a vida de Grístia fosse tranquila.
Goya então saiu da gruta, murmurando qualquer coisa sobre procurar madeira, e Hanuman fitou Priora, que ouvia tudo muito quieta.
- Como é possível que tudo o que eu fiz nestes séculos tenha se transformado nisso?
Ela deu de ombros.
- Se pensar bem, você passou por cada aldeia, mostrou seu poder, ensinou como lutar contra os escuros, não mudou nada em sua aparência, depois foi embora. As pessoas criaram suas versões de você, e as passaram adiante. As histórias cresceram, ao mesmo tempo em que os escuros se tornaram mais ousados e poderosos. Eles precisavam acreditar em alguma coisa maior para manter a força e lutar com eles. Idolatrar você foi natural.
Ela fez uma pausa, depois falou com muito cuidado.
- Hanuman, de certa forma você não deixa de ser uma espécie de deus.
Ele a fitou incrédulo.
- Mas até você?
- Calma. Eu quero dizer que você tem tudo o que um deus teria, poder e imortalidade. O que é um deus, se não isso?
- E você se sente uma deusa? Porque eu lhe dei imortalidade, e você já tinha poder.
Ela fez um gesto de impaciência.
- Claro que não, mas para todos os outros, ou a maioria deles, é o que nós dois somos. Vai ser difícil explicar o que lhe aconteceu há mil e quinhentos anos, e fazer todos entenderem que você me tornou imortal sem querer, eu, que era uma escura. As pessoas não querem ouvir falar de falhas e enganos, Hanuman. Elas querem esperança, e a volta do seu deus poderoso e sábio.
Depois disso, Goya estava de volta, e cuidou da comida. Eles comeram em silêncio, e foram dormir.
Antes de conseguir adormecer, ele refletiu longamente. Para um deus, cometia muitos erros.
***
Quando amanheceu, Goya estava pronto para partir.
- Vocês vão me ajudar a encontrar meus amigos?
- Claro, mas e sua família? Você não teme que Grístia se volte contra eles?
Goya deu de ombros.
- Você diz não ser um deus, e, francamente, não se comporta como um. Seu poder não parece maior que o meu, e mesmo a sua imortalidade está ao alcance de qualquer um que também tenha poder e descubra como fazer o processo. Então, não existe sentido em ficar lá obedecendo a regras idiotas e arbitrárias de uma mulher insana apaixonada por um deus que não existe. De qualquer forma, ninguém me viu partir, já que todo mundo só estava tentando se esconder depois que o templo explodiu.
Após uma pausa, ele completou.
- Provavelmente eu vou me tornar alguma espécie de mártir, e vão contar histórias sobre como eu fui levado pelos escuros que estavam fingindo ser deuses, a menos que Grístia aproveite a oportunidade para me transformar em traidor.
Saíram todos para o dia gelado, mas excepcionalmente ensolarado. A neve afinal tinha se esgotado no céu.
- Goya, nos seus sonhos você reconhece onde estão seus amigos?
O rapaz assentiu.
- Eu sei exatamente onde é. Fica a alguns dias de caminhada. Vamos.
***
E então os três caminharam.
Paravam para descansar apenas ao anoitecer, e, em algumas noites, quando Goya adormecia, Hanuman levava Priora para longe de onde estavam acampados, e passavam parte da noite lá, perdendo-se um no outro.
Em uma dessas ocasiões, Hanuman sentiu que estavam sendo observados: Goya estava parado entre algumas árvores, e o fitava diretamente, sem nem tentar se esconder.
Hanuman também não desviou o olhar, e Priora, de costas para Goya, não o viu. Ele apenas continuou, até o final, e naquele instante pareceu que não era um garoto que o olhava, mas um homem, antigo, poderoso, com uma aura imensa, colorida, revolta, furiosa. Naquele momento, ele sentiu que quase, quase reconheceu Goya, mas o momento passou.
Não sabia por que tinha agido daquela forma, mas nunca seu prazer fora tão intenso.
Goya virou-se e foi embora, e Hanuman imediatamente começou tudo outra vez com Priora, não sabia se por desejo ou para esquecer o que tinha acabado de acontecer, e só voltaram ao acampamento quando o dia estava quase raiando.
***
Na manhã seguinte, ambos agiram como se nada tivesse acontecido, e continuaram a caminhar de dia, acampando à noite.
Priora se surpreendeu com o desejo renovado de Hanuman, porque novamente passavam várias horas da noite acordados longe do acampamento; já ele se surpreendeu com a frequência com que se pegava procurando por Goya entre as árvores, mas ele não voltou a espreitar os dois, e aquilo o frustrava, embaraçava e confundia.
Após dezoito dias, afinal chegaram à base de uma das muitas montanhas daquela cordilheira formidável, e já havia alguns regatos muito gelados de neve derretida correndo pela encosta e entrando pela floresta: a primavera logo chegaria, afinal.
Goya apontou.
- Eles estão lá, bem no meio da montanha.
- Como você tem certeza?
Goya apenas o fitou, fazendo-o se sentir idiota.
- Eu sei.
Deu meia volta e dirigiu-se novamente para a floresta.
- Vamos descansar agora, e podemos subir quando escurecer. Há escuros lá, e é melhor que eles não nos vejam subindo.
Priora não o seguiu.
- Quero me banhar aqui, o regato está fundo o bastante.
Hanuman achou graça.
- Banho nessa água gelada?
Ela deu de ombros.
- O que mais pode acontecer, além de eu sentir frio?
- Eles podem ver você de cima.
- Eu fico embaixo das árvores.
Começou a despir-se, e talvez imaginasse que Hanuman ficaria com ela, mas ele foi em direção à floresta, apressando o passo até alcançar Goya.
- Não vai se banhar também?
- Não. Eu queria ficar a sós com você para conversar.
Goya parou e virou-se, os braços cruzados, impassível.
As palavras não saíam; não sabia o que dizer. Desde aquela noite, os olhos de Goya o assombravam, e pensava nele sempre que estava com Priora. Queria perguntar a ele por que tinha ficado ali, olhando enquanto ele estava com ela, mas as palavras não vinham: Goya afinal impacientou-se.
- Por que você não ficou com ela, para poder tomá-la mais uma vez? Você nunca se cansa disso, não é mesmo?
- Eu queria me desculpar por aquela noite.
Goya ergueu as sobrancelhas.
- Você? Se desculpar? Fui eu quem ficou lá, olhando vocês.
- Eu não sei por que eu continuei quando vi você lá.
Goya novamente ficou em silêncio, a expressão inescrutável. Ele sentiu que precisava explicar alguma coisa, mas não sabia exatamente o que seria. Tergiversou.
- Você disse que Grístia obrigava vocês ao celibato.
O rapaz parecia uma estátua.
- Eu fico imaginando se você já esteve com alguma mulher, mesmo com as regras do templo.
- Caso não, você me ofereceria Priora?
Aquilo varreu o desconforto de Hanuman.
- Claro que não! Você enlouqueceu?
Goya não se abalou.
- Então não entendo aonde você quer chegar.
- Priora não é minha para oferecer a você! - Hanuman surpreendeu-se com o ciúme que o invadiu, e achou melhor não prestar atenção à questão intrusiva que veio junto: ciúme de quem?
- O que você viu era íntimo demais, eu deveria ter preservado Priora, mas estava envolvido pelo momento, não fiz nada para parar, e estou me sentindo mal por isso.
Nessa hora, Goya afinal descruzou seus braços, e foi lentamente em direção a Hanuman, parando a centímetros dele. Perto demais. Ele era realmente muito alto, e estava fitando Hanuman de cima, suas cores revoltas, irradiando poder e mais alguma coisa que ele preferia não descobrir.
- Sabe, Hanuman, eu não posso ver as suas cores, mas eu tenho certeza de que você estava adorando enquanto eu ficava ali assistindo. Você gostou. Não finja que se sentiu mal.
Hanuman estava extremamente perturbado com a proximidade e as palavras dele, mas então ambos ouviram os passos de Priora se aproximando. Goya virou-se e continuou em frente.
- Hanuman?
Ele deu meia volta, a alcançou e a calou com um beijo bruto, levando-a de volta por onde tinham vindo, e só voltaram do lago com a tarde já avançada, encontrando Goya profundamente adormecido ao lado da fogueira.
***
Quando a noite havia caído completamente, Goya já havia despertado, e falou a eles sobre o que esperar.
- Sempre que eu vejo Kimel e Clanto, eles estão no fundo de uma caverna bem no meio da montanha, punhos e pés atados, sempre vigiados por três escuros. Não acho que possa haver muita dificuldade em tirá-los de lá, se conseguirmos subir sem que eles percebam.
Hanuman perguntou há quanto tempo eles haviam desaparecido e os sonhos de Goya começado, e a época era muito próxima àquela na qual ele tornara Priora imortal. Recordou aquele ser furioso que tomara o corpo de Priora e o enganara, e imaginou se ele próprio não teria chamado a atenção daquela criatura sobre a possibilidade de manipular as cores das pessoas: tinha quase certeza de que ela estava ligada aos escuros.
- O melhor seria surpreender a todos dormindo. Soltamos os rapazes, matamos os escuros e vamos embora.
Priora interrompeu.
- Hanuman, precisamos mesmo matar os escuros que estiverem lá?
Goya respondeu por ele.
- Evidente que sim. Eles não têm misericórdia nenhuma conosco, por que deveríamos ter com eles?
- Você não entende. Eu já fui escura: nós nascemos e morremos, e só o que conhecemos é a destruição, mas, se houvesse alternativa, tudo poderia ser diferente. Eu sou diferente agora.
Hanuman parecia preocupado.
- Você sabe que eu não vou fazer o que eu fiz com você a mais ninguém, e você já estava infeliz e questionando sua maneira de viver antes de me conhecer. Não é como se fosse fácil fazer um escuro mudar de ideia.
- E até parece que você nunca matou antes. – Goya foi bastante desdenhoso quando disse aquelas palavras para Priora.
- Não é porque eu já matei que eu quero continuar a fazer isso. Não fica mais fácil a cada vez. Nunca foi fácil; na realidade, era cada vez mais difícil, Goya.
Ele pareceu se arrepender da grosseria.
- Desculpe. Mas nenhum escuro é confiável, Priora. Não é seguro deixá-los viver.
Hanuman interveio.
-Vamos apenas subir, e lá decidimos o que fazer com eles.
- Só um instante. – Goya emitiu uma espécie de uivo, e minutos depois um lobo enorme surgiu das árvores, indo para junto de Goya, que o acariciou sorridente, enquanto o lobo lambia seu rosto, feliz.
- Venham, meu amigo vai nos ajudar.
Escalaram com todo o cuidado possível, o lobo saltando facilmente à frente deles e mostrando o melhor caminho, e, depois de quase cinco horas subindo, Goya fez sinal para que parassem, sussurrando.
- É ali, logo atrás daquelas pedras.
A um sinal de Goya, o lobo adiantou-se, e desapareceu por uma fresta escondida pelas pedras e a neve que ainda não derretera. Goya fechou os olhos, e após alguns minutos, quando os abriu, o lobo também estava de volta. Ele então virou-se para eles e fez sinal de três pessoas com os dedos.
Hanuman assentiu e subiu os últimos metros que faltavam, e chegaram à entrada, comprida, curva e estreita.
Goya entrou primeiro, seguido do lobo, e depois vieram Hanuman e Priora, quando de repente ouviram o grito de dentro da gruta.
- É UMA EMBOSCADA!!!
Goya já tinha dobrado uma curva e não podiam vê-lo; Hanuman continuou em frente seguido por Priora, e ouviam sons de luta, mas de repente as pedras do teto começaram a cair sobre os dois, soterrando-os, e ele desesperou-se, ouvindo Goya gritar e o lobo rosnar e ganir.
Concentrou-se e fez a entrada da gruta explodir espetacularmente em direção aos céus, mas Priora saiu voando junto.
Ele controlou as pedras para não irem em direção ao interior da gruta onde poderiam matar Goya, e, uma vez livre, virou-se para o fundo da montanha, agora iluminada pelo luar, e ele estava caído ao chão, sangrando, o lobo morto ao seu lado. Os três escuros, completamente aparvalhados pela explosão, ainda tentaram reagir, mas Hanuman apenas ergueu seus dedos e atirou os três violentamente, contra o fundo da gruta, onde caíram ao chão, desmaiados.
Correu para Goya, mas ele respirava normalmente. Havia mais dois rapazes, jovens e sem interna, amarrados e desacordados no fundo da gruta, mas Hanuman não lhes deu atenção: passou suas mãos por Goya, procurando ferimentos, mas não havia nenhum. Então decidiu despertá-lo.
Ele não acordou.
Alarmado, tentou várias vezes, sem conseguir. Temendo o que encontraria, entrou em seus sonhos, e tinha razão em temer.
Outra vez estava naquele lugar onde buscara Priora, e aquela coisa estava lá novamente, informe e feroz, desta vez sem tentar se passar por ninguém.
- VOCÊ! - a coisa parecia tão surpresa quanto ele.
- O que é você, e o que você está fazendo com Goya?
Aquela entidade apenas emitiu uma espécie de urro, então expandiu-se formidavelmente e veio em direção a Hanuman, tentando engolfá-lo, porém não houve qualquer impacto: a coisa debatia-se ao seu redor em vão. Hanuman concentrou-se em repeli-la, e instantaneamente ela se recolheu.
- RESPONDA O QUE EU PERGUNTEI!
Ela voltou-se para Goya, e parecia querer envolver o rapaz, mas Hanuman projetou-se antes que ela conseguisse, e repetiu a pergunta.
- Agora responda o que você é, e o que você fez a Goya!
Ela urrou a resposta.
- EU NÃO SOU!
E desapareceu, ao que instantaneamente Goya despertou no sonho, desorientado.
- Hanuman, é uma cilada, onde nós estamos, Priora, meu lobo...
- Acalme-se, eu sei, já estive aqui antes. Mas antes preciso ter certeza de algo. – precisava se certificar de que não era aquela coisa fingindo ser Goya. - Me diga o nome do animal que encontramos ao partir da sua aldeia.
- Meu lobo? Azman, mas o que isso...
- Me diga a cor das vestes de Grístia.
- Vermelha, os sacerdotes sempre usam vermelho, mas eu quero saber...
- E agora me diga como estava Priora quando você nos encontrou naquela noite, na floresta. – entre tantas outras perguntas, não sabia por que fizera justamente aquela. Mas a pergunta pareceu aplacar a ansiedade de Goya, e lá estava aquela expressão no rosto dele outra vez, que ele já conhecia bem, mas não sabia interpretar.
- Por que você está perguntando isso?
- Só responda.
- Ela estava nua.
Ele poderia ter parado ali, tinha certeza de que era Goya, mas provocá-lo era irresistível.
- O que eu estava fazendo com ela?
- Você a estava tomando.
Hanuman sentiu uma coisa estranha subir pelo seu peito.
- E o que eu fiz quando vi você?
- Você foi até o fim.
- E o que você fez?
Goya demorou um pouco mais a responder.
- Eu fiquei olhando você.
Ele estava olhando para ele, não para Priora. Para ele.
- Por quê, Goya?
- Por que você está fazendo todas essas perguntas, Hanuman?
Ele também não sabia mais, então caiu em si.
-Eu precisava ter certeza de que você realmente é Goya, e não aquela coisa que estava aqui antes de você acordar.
- Que coisa?
- Vamos só sair daqui.
Estendeu sua mão para o peito de Goya, que imediatamente se retraiu.
- Eu só vou despertar você.
Da segunda vez, ele não fugiu. Hanuman espalmou sua mão no peito dele, olhou para seus olhos e soprou de leve.
No mesmo instante estavam outra vez na gruta, justamente quando Priora entrou na caverna, aos gritos.
- HANUMAN, GOYA, O QUE ACONTECEU, VOCÊS ESTÃO BEM?
Ela vinha coberta de poeira e neve, e se atirou sobre ele.
- Está tudo bem, estamos seguros.
Hanuman gentilmente desvencilhou-se dela e foi em direção a Goya, que já estava desamarrando os dois rapazes desacordados.
- Goya, espere, vamos primeiro entender o que houve.
- Eu só quero tirar os dois daqui.
- GOYA!
O rapaz parou o que estava fazendo e olhou para Hanuman.
- Só me deixe contar o que houve e tentar entender o que aconteceu, e depois eu desperto seus amigos. Por favor.
Goya desdenhou dele.
- Não preciso de você para despertar ninguém.
Hanuman esperou enquanto Goya desatava os nós e deitava ambos com cuidado no chão. Então, ele espalmou sua mão com ternura no peito do rapaz mais velho, tão grande e forte quanto Goya, e abaixou-se soprando seus olhos com muita delicadeza. E também não aconteceu nada.
Alarmado, Goya tentou mais algumas vezes, chegou a abrir os lábios do rapaz e soprar seu poder para dentro dele, depois dirigiu-se ao outro rapaz, também sem conseguir despertá-lo.
Afinal desistiu, virando-se angustiado para Hanuman.
- Por que eu não consigo acordar os dois?
- Porque eles não estão dormindo. Suas cores estão em algum lugar aonde você não consegue ir, mas eu consigo.
- Que lugar?
- Eu não sei o que é e nem onde fica, mas sei que está lá, e consigo chegar. Eu busquei você, não busquei?
- Então traga os dois de volta. Por favor.
Hanuman assentiu.
- Eu vou atrás deles.
Hanuman ajoelhou-se perto do rapaz mais velho, espalmou sua mão sobre seu peito, fechou seus olhos e o seguiu. Ele estava tão desacordado quanto Goya estivera, mas, enquanto Goya tinha sua cor de vida com ele, o rapaz tinha apenas uma aura escura e muito densa. Hanuman aproximou-se dele e soprou seus olhos, ao que ele acordou e se pôs a gritar desesperado.
-NÃO, NÃO, EU QUERO SAIR DAQUI, NÃO...
- Acalme-se, aquela coisa foi embora por enquanto, eu conheço Goya e vim tirar você daqui.
- GOYA, ONDE ELE ESTÁ, ELE NÃO PODE SE APROXIMAR DAQUI, POR FAVOR...
- Goya está bem, apenas se acalme e me deixe tirar você daqui.
O rapaz afinal prestou atenção a ele.
- Qual seu nome?
- Hanuman.
- Hanuman? O Senhor Hanuman?
Sem tempo ou vontade de esclarecer que não era nenhum senhor, apenas soprou os olhos do rapaz e o levou de volta.
Mal tinha se erguido e Goya já se atirara sobre o rapaz.
- Kimel, graças, eu estava morrendo por dentro, graças, graças...
E o que aquele rapaz fez a seguir quase o fez cair de costas: ele puxou Goya para um beijo, desesperado e longo.
Estava hipnotizado por aquele beijo, não entendia o que estava sentindo, até que Priora o chamou.
- Hanuman, você precisa trazer o outro menino.
- Sim. Sim.
E foi em direção ao outro rapaz, tentando não olhar na direção de Goya e Kimel.
Buscou-o naquele lugar, despertou-o, o acalmou e o trouxe de volta.
- Goya. - chamou o rapaz com uma voz fria e seca. Sentia uma raiva inexplicável dele.
Goya parecia embaraçado, o que lhe deu um prazer perverso: queria mesmo que ele se sentisse muito mal.
-Eu preciso que você faça perguntas a Kimel, para ter certeza de que é realmente ele.
Goya enrubesceu.
- Já fiz. Tenho certeza de que é ele.
Então os dois se desvencilharam daquele abraço, e Kimel parecia embaraçado e amedrontado.
- Senhor Hanuman, perdão por ter beijado Goya, eu sei que eu não deveria, não queria contrariar suas leis...
Goya o interrompeu, um pouco do sarcasmo habitual recuperado.
- Não precisa desculpar-se por nada, Kimel, nem o chamar de senhor. Ele não é e nem nunca foi um deus.
- Goya!!! – o rapaz parecia escandalizado.
Priora intercedeu.
- Hanuman, deixe que eu explique a eles o que está acontecendo.
Ela fez um apanhado excepcionalmente curto, mas acurado, da história de Hanuman, da sua, e do que acontecera até ali. Mas, quando falou sobre as cores, Kimel e Clanto perceberam que estavam sem as suas, questionando alarmados onde elas estavam e se tinham se tornado escuros, ao que Hanuman os acalmou.
- Eu tenho ideia de onde estejam, e acho que sei como trazer de volta, mas vamos apenas terminar de contar tudo que houve aqui, por favor. Não quero cometer mais erros.
Priora continuou a contar tudo, até chegarem ao momento da explosão da entrada da caverna.
Hanuman a interrompeu.
- Bem lembrado: preciso endireitar a montanha, em breve vai amanhecer e podemos chamar a atenção de outros escuros. Enquanto você termina de contar tudo, eu faço isso.
Dirigiu-se para a borda da caverna, e Goya o seguiu, com o seu lobo nos braços.
- Eu quero sepultar meu lobo aqui.
Hanuman só assentiu, então Goya pousou o corpo do lobo na beirada da caverna, e os dois ergueram os braços juntos.
Vários pedaços enormes de rocha se ergueram ao redor da encosta e do meio floresta; juntos, trouxeram tudo de volta, e, quando as rochas estavam quase se juntando novamente, Goya apontou para o corpo do lobo e o colocou à entrada da caverna, em pé, com a cabeça erguida, como se uivasse para a lua, e depois transformou seu corpo em pedra também, uma estátua feita de cristal escuro e translúcido, que brilhava à luz das estrelas.
-Agora ele vai poder olhar a Lua para sempre.
Pela primeira vez Hanuman viu quanta doçura havia por trás de toda aquela raiva de Goya, que, percebendo que Hanuman o encarava, retomou seu tom habitual.
- Vamos voltar e terminar aquela conversa.
.png)


Comentários