PARTE II – ÁSIA
- 30 de mai.
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PRÓLOGO – Oito mil, seiscentos e setenta e quatro anos atrás.
Hanuman corria desabalado ao mesmo tempo em que derretia a neve espessa à sua frente, desesperado por chegar ao pequeno templo de pedra o mais rápido possível: os escuros estavam chegando e dizimando tudo pelo caminho, e sem ajuda seria impossível detê-los.
Ultrapassou o pequeno portal e a viu sentada no lugar de sempre, serena, fitando o fogo que nunca se apagava.
- Dil, eles chegaram, desta vez são muitos, e eu preciso tirar você daqui agora.
Ela só sorriu e ergueu-se com esforço, estendendo-lhe a mão.
- Eu já tinha avisado que essa hora chegaria, e você já sabe que tem uma escolha muito melhor do que ficar correndo e fugindo o tempo todo, não sabe?
Ele pegou as mãos que ela lhe estendia, as mesmas mãos, agora enrugadas pela idade, que muitos anos antes o tinham ensinado a conjurar o vento e a chuva, transformar rochas em poeira, fazer o fogo crepitar, curar doentes e feridos, fazer desabrochar flores e crescer plantas, encantar animais selvagens, dominar a vontade de outras pessoas; ela tinha ensinado tudo o que ele sabia sobre o próprio poder, e como usá-lo através das mãos.
- Eu não posso decidir isso agora, preciso pensar mais. Vamos só sair daqui.
Ela suspirou, cansada,
- Não temos tempo, porque eu não tenho tempo. Esta minha vida está se esgotando, chega a ser ridículo você achar que eu consigo sobreviver ao frio enquanto nós tentamos fugir, e eu até prefiro esperar por eles aqui, para dar fim logo a esta vida. Se você tomar a decisão acertada, da próxima vez vai estar me esperando, e nunca mais vamos precisar fugir desse jeito humilhante e abjeto.
- Eu não sei se posso fazer isso, nem sei se eu desejo isso. Não é natural.
Ela impacientou-se.
- Eu já lhe ensinei mil vezes, tudo que acontece neste mundo é natural, e não deixa de ser só porque apenas alguns de nós conseguem fazer determinadas coisas! Você precisa se libertar desse medo idiota. Eu só não fiz eu mesma porque, quando descobri a maneira correta, já estava velha demais e muito cansada, e não é assim que eu quero passar a eternidade.
Eles ouviram gritos e o som de batalha não muito longe dali.
- Hanuman, eles estão chegando, e vamos os dois morrer, ou, no mínimo, eu vou. Você sabe que eu tenho razão. Faça, e depois você vai ter todo o tempo do mundo para aprender a desfazer, se mudar de ideia. Ou então fuja de uma vez, mas eu não irei com você. Quero morrer hoje e aqui.
Ele sabia que era o que ela desejava, e que ela tinha razão: se ele se recusasse, muito provavelmente seriam pegos e morreriam, não importa o quanto ele lutasse, e tudo se perderia outra vez, mas ele não sabia se tinha a força necessária, ao que ela pareceu ler seus pensamentos.
- Você tem toda a força e o poder para fazer isso, só lhe falta a coragem. Faça, e eles não serão nunca mais uma ameaça, porque todo o conhecimento vai permanecer em você. Faça.
Os gritos se aproximavam cada vez mais.
- Faça, Hanuman.
Ele se decidiu.
- Dil, eu prometo que vou encontrar você outra vez, não importa quanto tempo leve ou o quão distante você volte.
- NÃO PERCA MAIS TEMPO E FAÇA!!!
Apavorado mas afinal decidido, Hanuman invocou toda a força da terra e do ar ao seu redor. Projetou seu pensamento para o céu, cada vez mais longe dali, e percorreu tempo e espaço como nunca antes ousara, invocando todo o poder, o conhecimento, as lembranças, a beleza e o terror, o sofrimento e o júbilo, a dor e o gozo, o medo, a fúria, a paz: invocou tudo o que era e que havia para invocar, o que queria e o que não queria ser invocado, e, por força da própria vontade, transformou seu corpo para sempre.
O ar ao seu redor fluiu para si, a terra revolveu-se e tremeu, sentiu como se o fogo entrasse por todos os seus poros; elevou-se pelos ares, e dentro dele o poder contraiu-se insuportavelmente até não mais caber, quando então explodiu formidavelmente, jorrando em outra dimensão, enquanto ele gritava e sentia cada parte do seu corpo mudar e ancorar seu espírito para sempre.
Nunca soube por quanto tempo permaneceu voando e ocupando toda aquela dimensão linda e estranha, mas, quando novamente abriu seus olhos, estava no meio de uma cratera enorme e vazia; os escuros tinham queimado tudo em um raio de vários quilômetros, e ele jazia bem no meio da devastação, coberto pelos despojos da luta e as pedras do templo, agora arruinado.
Não viu Dil, nem seus amigos, ou seus inimigos.
Não viu nada que conhecesse, e assim começou sua solidão.
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